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Isso fala no Outro

Paulo Medeiros

Há uma frase de Freud, bastante conhecida, e que resume, creio, tudo o que se possa dizer da Psicanálise, havendo nela uma relação possível com o que Lacan ensinou no seu seminário sobre As estruturas freudianas das psicoses, que é o seu título completo.

A frase de Freud encontra-se no final de sua trigésima primeira conferência; conferência, na verdade, nunca proferida, mas que seguiu um estilo adotado por ele para divulgação de suas descobertas. Ei-la, em alemão: Wo Es war, soll Ich werden. Uma tradução imediata, primeira, pode ser assim: Onde Isso era, devo advir. Onde, Wo, onde, ali onde; Es, Isso; war, era/estava; soll, devo; Ich werden, advir, devo vir a ser, devo estar.

Lacan explorou ainda mais as possibilidades de tradução dessa frase de Freud, incluindo suas assonâncias, sobretudo a semelhança ou igualdade de um determinado som entre o termo Es em alemão e a letra S em francês, designando-a como topos, lugar próprio ao Sujeito, sujeito ao inconsciente. Também nós, em nossa língua, podemos ouvir, por aproximação, tal assonância, se atentarmos mais ao som e menos à grafia.

Então, no seu assim chamado Esquema L, encontramos, num dos vértices, o superior à esquerda, o lugar possível a Es, ou seja, a S, como um dos lugares possíveis na fala desse Sujeito em análise.

Reparem, então, a tradução de Lacan para o francês: Là où c’était, peut-on dire, là où s’était, voudrions-nous faire qu’on entendit, c’est mon devoir que je vienne à être. Leiamos tal frase assim: onde Isso estava, pode-se dizer, lá onde S’estava, deveremos fazer com que se entenda, é meu dever que eu venha a ser.

Se subsumirmos, no contexto da doutrina freudiana, essa frase de Freud como síntese da ética da Psicanálise, poderemos, da mesma forma, encontrar em Lacan proposição semelhante, ou seja, uma frase adequada a todo o ensino de Lacan, e essa frase encontra-se justamente nesse seminário As estruturas freudianas das psicoses:

[...] é portanto justamente na tradição freudiana que nos colocamos quando dizemos que, afinal de contas, a única coisa que devemos pensar é que isso fala.
Por que isso fala, nós temos de tentar centrar a interrogação sobre: por que será que isso fala? Por que será que, para o próprio sujeito, isso fala? Por que será que isso se apresenta como uma fala, e que essa fala é isso, e não ele?  
(p.334, 27 de junho de 1956).

Isso fala traduz todo o ensino de Lacan, conseqüente da doutrina de Freud. Então, encontramos aí a possibilidade de seguirmos Freud desta forma: Ali, onde Isso fala, devo advir. E, entendamos, Isso fala ao próprio sujeito falante, ou seja, o sujeito fala, mas também escuta, escuta a fala d’Isso que fala. Numa análise, isto é, num elo transferencial, o que o sujeito fala é uma fala que lhe fala também, advinda de um Outro lugar que não a fala do cotidiano. É uma fala outra, de uma outra natureza e condição, numa situação em que tal fala se constitui por meio de relações de contraste, distinção, diferença, só possíveis nesta dimensão transferencial do que se passa entre Isso e Sujeito, nesse lugar Outro, da fala.

Isso fala no Outro, dizemos, designando por Outro o próprio lugar evocado pelo recurso à palavra, em qualquer relação em que intervém. Se "isso" fala no Outro, quer o sujeito o ouça ou não com seu ouvido, é porque é ali que o sujeito, por uma anterioridade lógica a qualquer despertar do significado, encontra seu lugar significante. (Lacan, J., Escritos, pág. 696.)

Pois bem, advertimos-lhe, caro leitor, é d’Isso o de que se trata nas páginas que se seguem, até porque não só Isso é um escrito, mas também d’Isso se escreve.

 

Recife, 29 de janeiro de 2007

Paulo Medeiros .
Coordenador Geral do Traço

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