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A Paulo Medeiros

Maria Luiza Arruda Rodrigues

A morte de Paulo me encontrou em uma terra distante, num dia azul e de muito frio. Estava mergulhada,coincidentemente,em pensamentos sobre o homem, sua história, sua vida e sua morte; sobre a repetição daquilo que é universal, mas que se faz, a cada um e a cada tempo, de maneira singular, nunca igual. Impactada diante de um risco no chão:um sinal,um marco,mais que isso - uma linha pintada no asfalto que mantém viva a construção que já não mais existe e que ali se ergueu por muitos anos, separando a vida e a morte de irmãos.
            A notícia me trouxe da memória um presente, a almofada de bilro e o seu comentário: “...agora você vai aprender a tecer, como uma mulher rendeira. Afinal, é isso o que a gente faz: tece...”
Não foi fácil aceitar a responsabilidade de hoje, aqui,representar outros nesta homenagem. Como comentar a escrita de um homem que para falar de Psicanálise, falava com tal intimidade de literatura, arte, filosofia, teologia e história? Alguém que, verdadeiramente, lia e conhecia o texto freudiano e o discurso de Lacan.
            Lembrei-me do primeiro texto que ele me pediu para “comentar e corrigir os erros onde houver”. Foi há muito tempo. Era uma leitura acerca do Seminário da Identificação, de Lacan, escrito para um encontro do CEF. O título “O TRAÇO que virou LETRA num OSSO que virou TORO”.
            Ao revê-lo, com o bilhete escrito a mão, ali encontrei o homem e o amigo, vivo, falante, preocupado com o quê – ao longo desses anos de convivência – me revelou ser importante no seu fazer diário: o sonho, o traço, o significante e o Nome do Pai. Eram essas as linhas que ele usava para tecer.
            Seu texto (que traz no título o TRAÇO que tomou corpo anos depois) começa com uma citação de Freud: “...como algum palimpsesto, o sonho revela, sob os seus caracteres superficiais sem valor, traços/vestígios de uma comunicação antiga e preciosa”.
            Assim ele impõe, desde o princípio, sua filiação e trata daquilo que Lacan descreve como ESTRUTURA SIGNIFICANTE, indo buscar na escrita freudiana os elementos que sustentam essa estrutura. Fala do Édipo (comentando Lacan) como “um entre dois...sujeito
remetido de um significante a outro”, cadeia, rede, tecitura que se limita e, paradoxalmente, faz o sujeito prosseguir.
            Édipo falado e construído em sua história na anterioridade, em sua pré-história, nomeado não pelo Pai, mas pelo Real de seu corpo. Édipo que tentando fugir ao que foi traçado para o seu destino, escapa e cumpre os seus desígnios, vivendo não o seu drama, mas a sua tragédia. “...trágico é o exílio.” O exílio do inconsciente, do saber que não se torna conhecimento e que permanece oculto.
             Outro escrito: “Nós trabalhamos para Posteridade”. No título, uma frase tomada de empréstimo a Daniel Gottfried Schreber, bisavô do nosso conhecido Presidente Schreber. Aqui encontro o Paulo que perseguia o enigma do que chamamos “PAI”. Garimpeiro, procura o ouro da filiação simbólica que fora suprimido na descendência Schreberiana. Encontra-o no Real, ao pé-da-letra, sem metáfora, não como o amor primordial ao Pai - identificação primeira e salvadora, mas como uma palavra de ordem que se perpetua, dura, crua, imperativa, sem promessas restauradoras, realizando-se delirantemente no depois.

            Esta procura por aquilo que Lacan chama de “Nome do Pai” e o “TRAÇO” - eis o que me trazem de volta Paulo. Foi também o que nos ligou em um trabalho solitário e inglório, no velho Hospital da Tamarineira. Dez anos desde a primeira vez em que lá esteve, comemoraríamos agora. Foi-nos falar inicialmente, sobre o “Nome do Pai”. Ia com um prazer de menino, sobretudo à visita que fazíamos, sempre, à enfermaria onde trabalho. Emudecia diante dos meus “loucos de todo dia”. Penso, agora, que ele foi o quarto a ser convidado para me ajudar naquela tarefa – o quarto termo – e que,  justamente, introduziu o “Pai a sua função” nos nossos encontros mensais sobre Psicanálise, falando-nos da ESTRADA PRINCIPAL e das veredas que, na ausência daquela, mostram um caminho outro, diferente e desamparado, mas possível a todo aquele que se refugia nessa “estranha defesa” que chamamos de Psicose.
            PAI/TRAÇO – apagado, morto, amado: um traço que dá sustentação à ex-sistência do sujeito.
            Sinto falta daquele homem preocupado com a transmissão de um saber, do saber sobre a Psicanálise, o saber inconsciente. Mas, também, do homem que gostava de conversar sobre a vida, sobre o gramado de sua casa, sobre Rosa – a arara; sobre os sagüins, os seus gatos e seus cachorros. Do amigo que, atento e carinhoso, viu crescerem as minhas filhas. Um dia, em frente ao TRAÇO FREUDIANO, na calçada da Rua Flor de Santana, um pedido singular e inusitado: “...você vai me prometer uma coisa...nunca me deixar fora da vida das meninas...”
            É dele que sinto mais saudade. Volto ao dia em que partiu, longe e frio, sem que pudéssemos nos despedir. Ficou nítida e viva a imagem do risco pintado sobre o chão de Berlin, diante do Portão de Brandemburgo – traço que guarda, de forma invisível, o peso de um muro – um dos muros mais singulares de nossa História.  

Malu, maio de 2008.

 

 

 

 

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