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Comemoração da vida de Paulo Robeto Medeiros

Homenagem de Alduisio M. de Souza

Réquiem

Não viemos aqui para prantear Paulo Roberto Medeiros, mas para comemorar a vida que partilhamos com ele. Comemorar um amigo, um colega, um mestre, um homem de cultura que se vai, encantado pela morte que o colheu para si quando ele descuidou de seu viver. Sim! A morte é isto: nós nos descuidamos e aí somos colhidos por ela, já que parte silenciosa de nossa própria vida. É o meio-dizer da Verdade não dita ou mal-dita e que para não nos constranger ela fala num ímpeto de generosidade expondo seu silêncio de maneira a nos lembrar da própria vida sendo outro e nos silenciando para sempre.
Se prantearmos a morte é para celebrar a vida. O mistério da existência pelo qual somos humanos. É o despertar do que estava em sono profundo em nosso repouso. Ela chega subitamente ou de mansinho e generosamente presta testemunho da vida que foi vivida por aquele a quem ela colhe: “a gente morre para provar que viveu”.
É nossa própria morte com a morte de Paulo que nos obriga a reverenciá-lo, reverenciando sua vida no que ele nos legou e que está presente na recordação de cada um de nós. “A afeição que dedicávamos a ele não se debilita, mas é afetada porque nós mesmos morremos um pouco com ele”. Vivemos para não perder nada do encantamento que se deu, já que uma perda desse quilate “só cabe no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas”.
Conjugo aqui palavras do texto sagrado dos Upanishades; da busca do escritor Marcel Proust e do gênio de Guimarães Rosa para comemorar aquele que viveu em função da palavra, pela palavra e com a palavra: o nosso Paulo Roberto Medeiros.
Serão então com palavras, conceitos, traduções, transcrições, transliterações, ou seja, com trabalho, que pretendo comemorar a vida de Paulo com vocês. Falarei de psicanálise, da prática clínica e da importância de darmos conta com nosso discernimento das traduções do ensino de Lacan, ao que Paulo se dedicou com afinco, até o dia de seu encantamento. É a isso que me dedicarei nos quinze minutos que me são concedidos.

1. A PROPÓSITO DO NAZÔMETRO [PIFFOMÈTRE].

Respondo aqui, reverenciando a Paulo, àqueles que me interrogaram a respeito, ciente de que este seria o espírito dele diferente na forma: seria o cheiro do analista, seu odor ou perfume um objeto pulsional? Haveria então uma pulsão odorífica ou olfativa? Seria a presença alucinatória de seu objeto um índice de final de análise? Ou seria um índice de uma derrapagem na condução de tal análise? No texto de Lacan de 1958, A direção da cura [tratamento] e os princípios de seu poder, ele responde por antecipação de cinqüenta anos algumas questões teóricas e éticas que surgiram recentemente em Recife e que insistem de forma sintomática: a questão do cheiro como objeto a e a questão do cheiro do analista como final de uma análise. O termo nazômetro é do próprio Lacan, como verão no que segue:

Não há limite para os desgastes da técnica por sua desconceituação. Já fizemos referência aos achados de certa análise selvagem a respeito dos quais foi doloroso nosso espanto de que nenhum controle fosse acionado. Poder sentir o odor [cheiro] do analista apareceu num trabalho como uma realização a ser tomada ao pé da letra, para assinalar a saída exitosa da transferência.(...) Podemos discernir aí uma espécie de humor involuntário que é o que dá valor a esse exemplo. Ele teria encantado Jarry. Trata-se apenas, em suma, da conseqüência previsível de tomar ao real o desenvolvimento da situação analítica: e é verdade que, afora a gustação, o olfativo é a única dimensão que permite reduzir a zero (nil) à distância, dessa vez no real. O indício a encontrar nele para a direção do tratamento e os princípios de seu poder é mais duvidoso. (...) Mas, que um odor de galinheiro vagueie por uma técnica que se conduz “pelo faro” [piffomètre = nazômetro], como se costuma dizer, não é apenas um traço ridículo. Os alunos de meu seminário estão lembrados do odor de urina que marcou o momento decisivo de um caso de perversão transitória, no qual nos detivemos em prol da crítica dessa técnica. (Jacques Lacan, Escritos, p. 615/616.)

A referência a um possível encantamento de Alfred Jarry, criador do teatro burlesco de marionetes, Pai Ubu, e suas derivações ou desventuras, culmina na criação da ciência de soluções imaginárias de conhecimentos bizarros e extravagantes, a Pataphysique [Patafísica] em 1897/1898. A referência quase em anti-frase é um bom índice da altíssima consideração que Lacan dá ao trabalho em questão sobre o nazômetro, já que era um leitor assíduo de Jarry, que era um mestre na manipulação da língua para seus ditos espirituosos. O que está escrito entre as aspas “pelo faro” é o piffomètre, nosso nazômetro: a arte do conhecer a bizarrice de um ato que desconhece sua razão, tornando-se assim extravagante. Assim, Lacan situa essa percepção do cheiro do analista [odor, perfume] como um acting-out possivelmente comandado por uma passagem ao ato da analista, tanto que de uma condução de um tratamento foi feito um caso.
Por ter sido dito, não está aí à importância, o homem dos miolos frescos também falou de suas papilas gustativas, o que não deixou de ser um acting exemplar comandado pelo analista. É uma questão que, enquanto analistas, nós devemos sempre nos perguntar: será que perceber um jeito, uma maneira, um odor, um atributo qualquer, mesmo da indumentária, não é querer reduzir a zero a distância do real aí, representada pela posição de um e Outro? Um desejo de anulação do analista, de sua alteridade? Mais ainda, o odor ou cheiro não seria uma maneira de quebrar o semblante, conferindo uma realidade unívoca ao próprio analista? Um ser como... ser como eu, ou ele, perfazendo assim um par odorífico: uma relação de ego a ego ou de iguais e por fim partilhar um sintoma, que será sempre obviamente o do analista.
O analista por se autorizar pela posição da verdade como um saber de seu próprio inconsciente, quando na posição de semblante ele é e não é de acordo com o desejo de seu cliente. O lugar de semblante é a garantia de sua palavra, pois, ao lidar com a verdade que o sustenta com seu meio-dizer, é a única posição plausível de sustentação, já que o analisante também lida com o meio-dizer de sua verdade. A passagem ao ato do analista que comanda um acting-out do analisante é a tentativa de adição das meias verdades na ilusão de que poderiam enfim juntos falar TODA VERDADE, esquecendo-se de que a VERDADE FALA POR NÃO PODER SER FALADA nem em parceria.
Creio que uma dedução se impõe: o semblante, ser-não-ser, é a única posição sustentável, preservando o meio-dizer da verdade de cada um. Mas se um acting-out como resposta força uma posição de sentido unívoco, de um cheiro, uma significação, uma mania, uma característica física, um hábito de cuidados corpóreos, é simplesmente condená-lo ao insustentável. Como então ficaria a relação transferencial?
Vejamos alguns detalhes teóricos doutrinais facilmente explicáveis e que se não forem sanados inviabilizam a prática da psicanálise.

2. O MEIO-DIZER DA VERDADE = POSIÇÃO DE SEMBLANTE.

Eu pergunto a todos: diante da verdade que só podemos meio-dizê-la, qual é nossa única posição que não seja absurda logicamente? A resposta me parece cristalina: a posição é de semblante, pois conjuga ser e não ser. A impropriedade clínica e ética da tradução do semblante como faz-de-conta retira toda a relação com a interpelação da verdade em causa no discurso analítico, colocando-o ao nível do discurso universitário, podendo então gerar uma prática da clínica como explicativa, compreensiva, na qual o suposto analista reduz-se a um mero participante de um acordo recíproco de compreensibilidade, senão de cumplicidade, mais próxima de uma reeducação de ortopedia subjetiva. Um faz-de-conta que ensina [ou que analisa], e o outro faz-de-conta que aprende [ou que se analisa].
Mais, ainda, mais, quando Lacan diz que: A mulher não existe, o advérbio aí se trata de uma negação discordancial que incide sobre o artigo e não sobre o substantivo mulher, pois inscreve sua existência. Quando enuncia que: Não há relação sexual, é o pressuposto do humano para a psicanálise, tratando-se de uma negação forclusiva que recai sobre o conceito matemático de relação que, ao ser negado, engendra a prática sexual. Temos em ambos os casos, pela negação, a inscrição do próprio argumento da função. O mesmo princípio se aplica ao corpo em sua inscrição subjetiva: ele só é corpo [pulsional] pelo descontínuo de sua superfície, pois em sua tópica tórica ele é um contínuo.

3. A TOPADA COM O NADA [rien = coisa alguma] DO OBJETO (a).

A tradução de rencontre de l´objet [encontro, topada, achado do objeto] por re-encontro do objeto não é uma contrafação? Se não quisermos simplesmente traduzir rencontre por encontro, escolhamos outra palavra que não seja uma contrafação. Temos muitas opções que não mutilam o dizer de Lacan: Uma topada! Um achado! Imaginemos se se tratasse de um re-encontro, qual seria o destino humano? O que seria a subjetividade? A noção de objeto a em Lacan? A episteme das relações de objeto, das pulsões e da montagem da fantasia? A psicanálise lacaniana não seria o que ela é e nos situaríamos num campo de realidade onde a presença alucinatória seria uma simples ilusão no sentido o mais psicológico do termo. A forclusão seria uma escotomização e mesmo a própria psicanálise nada mais seria que uma especialização da medicina ou da psicologia, já que o objeto deixa seu estatuto ético para se tornar ôntico, ou seja, fazer-se ser. Será por que nada é feito, se reconhecemos os erros e suas conseqüências? Mais, ainda, do ponto de vista da clínica, o que define a estrutura é a maneira de lida com o encontro do objeto. Só podemos falar em neurose, psicose ou perversão pela lida do sujeito com o ENCONTRO, também chamado de ACONTECIMENTO [ou EVENTO]. O objeto é um representante do Outro com o qual o sujeito se identifica e o identifica como causa de seu desejo: o objeto oral, anal, escópico e invocante. É pelo encontro, com o que nada mais é que puro vazio ao qual é conferida uma forma que remete ao corpo próprio em sua falta, onde temos a confluência de dois aspectos que implicam a noção de objeto a: um traço do Outro, causa, que o sujeito transforma ao se reconhecer ali fazendo causa de seu desejo e cujo movimento em devir será o a-mais-para-gozar do mais, ainda mais da repetição que então se faz, como diz Lacan, re-petição.
Basta introduzirmos um efeito de bom senso para sacarmos: a noção de complemento e de suplemento implicada aí para os diferentes tipos de gozo, e veremos que contrafação estará sendo introduzida. Se falarmos de re-encontro o que há é busca de um complemento.

4. UMA BATERIA MÍNIMA DE OPERADORES:

É necessário termos elementos para poder enunciar claramente o que num trabalho analítico é tributário de uma bateria mínima de operadores teóricos: Outro [A], , $, a, Φ, – φ etc. Vejamos o que disse Lacan no tempo da conceitualização do objeto, no Seminário d´A Angústia:
A constituição mamífera, o funcionamento fálico do órgão copulatório, a plasticidade da laringe humana para com a marca natural fonemática, o valor antecipador da imagem especular pela prematuração neonatal do sistema nervoso são fatos anatômicos que se conjugam para a função do objeto (a). (Jacques Lacan, A Angústia, p.266, Ed. CEF.)

Desdobremos o barroquismo lacaniano:

─ Trata-se de um mamífero;
─ Seus órgãos sexuais, por sua atividade copulatória, vai para além de sua função reprodutiva ou instintual, o que determina seu gozo como fálico, gozo do significante.
─ Apresenta possibilidades foniátricas com maior plasticidade para emissão e a diferenciação de sons do que o comum dos animais;
─ Sua maturação fetal não está mielinizada e suficientemente desenvolvida para que possa suprir suas necessidades vitais no momento que vem à luz, o que o torna particularmente sensível à imagem do outro, no qual busca se reconhecer, para se fazer aceito, querido, amado e por fim se alienar, já que dele depende para sua sobrevivência. Há de início uma desarmonia das sensações intero, próprio e exteroceptivas, gerando dificuldades da postura, de controle dos esfíncteres, da visão binocular, da audição etc. Aí está a base do estádio do espelho.
Pois bem, vamos desdobrar um pouquinho mais:
─ Quem gesta é uma Mulher, supostamente adulta e para a qual aquilo que Lacan está chamando de fatos anatômicos fragilizados para ela não existe, senão não poderia ser Mãe e fazer de sua cria um Filho.
─ E além do que ela porta o feto por nove meses, em seu interior, seu ventre, como parte de si, já que envolto numa placenta e alimentado por um cordão umbilical.
─ Ao sair do corpo da Mãe e vir à luz, esta se torna Outro [Autre] para ele, que então é Filho, e no transitivismo de então ele também terá função de Outro para ela, a Mãe; o Filho então receberá um nome que se escreverá no literal de seu corpo; no sentido, pelo fônico implicado, e terá uma marca primária na subjetividade parental, primeiro esboço de poder vir ocupar um lugar no desejo do Outro. Haveria um apólogo que diria: Eu sou por Ti [Tu] e se Tu te ausentas serás Ela (e) para mim [Eu] e no ato Eu serei Ele(a) para ti [Tu]. Temos aí o sustentáculo da Santíssima Trindade existencial dos pronomes naturais e seu entorno.
─ Se do ponto de vista do real ela, a Mãe, responde como doadora de vida e cuidados necessários à sobrevivência, sua efígie abre a possibilidade do Campo do Outro, já que a incógnita de seu desejo, evidenciada pelo ritmo de sua presença-ausência – cf. o jogo do Fort-Da – ela se destaca de um corpo unívoco para abrir a possibilidade de significações e sentidos diversos, já que, ao reconhecer a Lei, de não incorporação de sua cria e da interdição do incesto, ela funda uma instância tércia no que pode responder ao enigma, x, de seu desejo, o Φ, que responde sua carência e ordena uma palavra tércia que é a invenção de um Pai. Por isso Pai é um Nome: P.A.I.
─ A cria então dispõe de recursos de representação, inicialmente em sons indeterminados, depois fonemas, semantemas e palavras [o nome Mãe é um Nome do Pai], ele não mais precisará atirar e recolher o carretel ou bobina [ou outro objeto de realidade qualquer], pois pode chamá-la de Mãe. Chamá-la de Mãe já é exercício da função paterna, e então estamos no umbral do Simbólico e dos jogos dos significantes. O Simbólico, ao ser tomado por um qualquer [como no estádio do espelho], constitui o Imaginário.

Como mulher gestando ela mantém a onipotência de sua completeza, e, após dar à luz a seu rebento, ela será Mãe: como ela poderá suportar o buraco deixado pela ausência do feto que então se torna Filho? Temos o esboço da função do falo como indicador da castração da Mãe, isto é, de seu desejo <> Φ e as diversas possibilidades do ENCONTRO [do objeto]. Em francês encontro se equivoca entre o bom-encontro [bon-heurt [bonheur]] = [que é felicidade] e mal-encontro [mal-heurt [malheur]] = [que é infelicidade], ambos fazendo parte da noção de tiquê.
Vejamos então: a castração da Mãe é o que ordena o sujeito como desejante. Lacan deixa isso claríssimo em A Significação do falo, e na observação clínica, na direção de uma cura [tratamento], temos a evidência nas formações do fetiche e do objeto fóbico. Lacan deixa também claríssimo no seminário As relações de objeto. Aí nós temos às identificações e particularmente a identificação com o traço-unário.

 

O vazio da ausência de uma resposta unívoca ao que busca a cria humana, cria uma distância, uma abertura, um buraco, ao qual o sujeito deve conferir borda para não soçobrar. A esse espaço aberto, buraco, hiância, o que falta ao ser, mas que lhe é intrínseco pelo movimento que produz – cf. o contorno em circuito da pulsão –, Lacan atribuirá uma letra, a, um aquém do significante que, para ser suportado, cria um além como travessão sobre o buraco para a travessia do sujeito. Ele é pura fulguração, um luzir que marca presença e quando se o quer já não mais está. Ele se forma pelo traço do Outro, ao qual o sujeito se identifica e o identifica como causa de seu desejo. Aí temos que esses traços tomam sua origem do ponto de vista daquilo que o sujeito quer pelo fazer Oral e Anal, que se furtando ao plano da visão, da realidade, cria o Olhar e a Voz, como aquilo a que o sujeito, não podendo lhe conferir imagem, cria, inventa. O nazo, piff, nariz, cheirador fazendo parte da oralidade. A erogenidade da respiração estando presente em vários síndromas, entre os quais o acesso histérico, a asma, a epilepsia e, inclusive, nos espasmos do orgasmo que Lacan postula ser um afeto partícipe do campo epistêmico da Angústia.

Conceito = forma referencial de retenção num determinado tempo e contexto de um objeto, um fato, acontecimento, elevando-o ao nível de representação e generalização, implicando na lógica proposicional a negação, a conjunção, a disjunção e a implicação, o que, para o contexto, constitui a inscrição de um particular. Hegel dizia ser o conceito o tempo da coisa. Mas como conceituar aquilo que não tem substância, nem representação e nem ser? É a lógica a mais primária que nos responde com a existência da inexistência: – postulando um contínuo, um potencial! Sua inscrição é o que refuta o contínuo da generalização ou sua pretensão universal, produzindo um ato assertivo pontual. Exemplo: o conceito de objeto a = maneira de conferir um tempo à existência da carência, ou do buraco aberto por uma perda ou separação qualquer e a tomada de um objeto nega o contínuo do potencial e se torna efetivo, ou seja, existente. Essa definição do conceito funciona como se fosse um contínuo, um potencial, o que pode se escrever como [ x], mas, pontualmente, [ x]; ao nível do existencial temos a própria escrita da função com o argumento que lhe convém: . Se a função que podemos, em termos genéricos, chamar de carência é a condição do desejo, a inscrição de um contínuo de carência responde à existência possível de uma variável que virá ocupar o lugar vazio da interrogação sobre o objeto: aí temos, de maneira privilegiada, os objetos que respondem à posição da demanda, anal e oral, e aqueles que respondem à posição do desejo, o escópico e o invocante. Sua inscrição a partir do formal do nó borromeano dar-se-á nos três registros:
Objeto a → no Simbólico [S],nós temos o Φ [falo], o que responde à incógnita do desejo, inicialmente, como fundação, o x do desejo materno [escrevendo a metáfora paterna].
Objeto a → no Imaginário [I], temos a relação entre o impossível e a impotência que escreve um limite −φ [castração imaginária ou falo materno].
Objeto a → no Real [R], o impossível do objeto pulsional, que, por definição da própria pulsão como perene e inibida em seu fim, ele somente poderá ser contornado por uma borda equivalente à borda dos buracos do corpo.

Temos já os traços para um esboço da equação: $ <> a, maneira que tem o sujeito para sustentar a falta do Outro que lhe vem como divisão, à qual padece, e, para não soçobrar, inventa um travessão para segurar a barra [a] de sua própria castração, para escrever algo que dê sustentação a sua carência, para sua travessia ou travessura, senão ele será a própria barra do Outro. Bem, aí o que temos quando o sujeito faz de seu corpo uma oferenda ao Outro? ─ É a clínica da teoria analítica que nos responde: na melhor das hipóteses, a angústia e no limite o suicídio. O sujeito se subtrai no Real.
A cria para então sobreviver terá de se relacionar com este Outro, que detém os meios e inclusive poderá também gostar dele, ou seja, amá-lo. O que aí se apresenta como meios deverá justificar seus fins: se a Mãe detém o poder de resposta às necessidades essenciais, reais, imaginárias e simbólicas, seja para seu acesso ou seus diferentes sentidos, se os meios forem por demais investidos, entramos no domínio do que se chama de perversão ou fobia: escolha de objetos fetiche ou temor de objetos fóbicos, inclusive a própria realidade [agorafobia e gozo paradoxal de meios extravagantes elevados à condição de um emblema]. Com a castração da Mãe escrito na falta do Outro [ ], temos a separação como segue.
Antes, ele era adito corporalmente e logo após vir à luz estará adito por suas necessidades existenciais mínimas: alimentação, higiene, cuidados variados, mas... ela, a Mãe, ausenta-se e ele a busca, já que carece, e continua a buscar, pois a quer, ela tem voz, tem olhar, e faz barulhos constantes que quase sempre decorrem de um incômodo dele. Ele por sua vez se acomoda, imita, começa a identificar a forma, o toque, o cheiro, a voz, o olhar e os sons. Quando de fato ele a tem, por sua presença cessará a busca? Não! Agora não se trata da relação com o Outro Real [materno], mas com o Simbólico, com a pós- imaginarização do corpo da Mãe, sua interdição e a submissão à combinatória significante que o ex-centra sempre, pois estará sendo lidado pelas possibilidades de condensação e deslocamentos próprios da fala. E o que tem ele: um corpo que recebe e a única coisa que tem para dar é o xixi e cocô, alguns puns, arrotos, irritação das mucosas, assaduras, grunhidos, o que foi chamado com muita propriedade, por nosso colega Silvia, de manhês etc. Inicia-se uma lógica de dons e dádivas que, ao se estabilizarem, pode ser um dia-a-logo [díade do saber da carência]. Aí começa a lógica do objeto. Primeiramente, quando ela, a Mãe, se ausenta, ele carece, e de sua carência ele aos poucos associa com esta ausência e com a incógnita que aí se forma. Temos então o esboço da função paterna: há um elemento fora que é desconhecido, mas que poderá responder ao x da incógnita do desejo da Mãe. Sua carência é então obturada por certos objetos, principalmente orais, anais, de olhar e barulhos, mas mesmo assim ele vai ficar desconfiado: o que de tão importante, mais importante que ele, é procurado pela Mãe em sua ausência? Aí então há a posta em jogo de um objeto sempre misterioso, incógnito, mas que responde à Mãe, ele é tão importante que deve ser o objeto de seu Desejo, e, para ele, a este objeto, para continuar o mistério, foi dado o nome de Φ [falo], na realidade nosso artista, o que ele vê, é alguém que é nomeado de Pai, ao qual busca e às vezes ele responde, e o ai da surpresa da ausência, somado a papa que come, dada pela Mãe, ele vai começar a articular sons estranhos: pa, pa, pa, papa, papa, papai! Mas, se ele come papa, e a Mãe, o que come ela? Hahaha! Às vezes teme ser comido pela Mãe, quando ela lhe dá algumas mordiscadas. Ele então começa a ficar espirituoso, percebe que a Mãe o aperta, beija, quase o sufoca e ele então pensa que ele também pode ser um elemento misterioso, incógnito, faz barulhos, a Mãe acode, chora, a Mãe o nina, mas mesmo assim sente inveja de poder ser Aquele, mas, não sendo Aquele, ele, no entanto, pode ser um: ─ φ, ele não é como Aquele, mas ele também tem seus encantos, e esta Mãe, que se ausenta, parece com outras, elas são mulheres e nem todas são do Pai. Começa então a imaginarizar o corpo da Mãe, até poder dizer: Ah! Existem outras que não é minha Mãe em quem posso me aconchegar de maneira segura. Será que para elas poderia ser como Aquele [Pai]? O que ele busca nessas outras, ou nesta uma-outra: um respondente a seu movimento vital de existir e não cair no vazio da pura ausência. Ele faz borda, muro, e daí ele escreve que, para não cair no buraco da ausência pura, do vazio abissal, ele deve se agarrar a alguma coisa a partir de traços que ele aprendeu a identificar no Outro [o fora dele] e, ao gostar de um desses traços, ele o elege como causa de seu próprio movimento de desejar: surge então a tabuada, mas que na verdade é uma tábua, que foi tabu e que tem um som que ele sabe identificar e repetir: ha ha ha ha ha ha ha – ele imita o demiurgo que criou o mundo com sete gargalhadas, criando o seu com sete gritos indeterminados e faz da tabu-a-da, uma tábua que lhe permite surfar no mar da vida e assim escrever um... objeto a. Se ela, a Mãe, pensava que, por ter no tércio PAI seu Φ, ela teria tudo, não é verdade, ela só dispõe de um nome próprio e ela deixa de ser A para ser uma – A MULHER é barrada –, ele inventa formas de suplência para este Φ e que não seja só de carência da Mãe, ─ φ, mas o que ele cria a cada vez que é confrontado com o vazio da ausência. Mas se a Mãe também tem carência, a primeira foi quando ele saiu dela e deixou um buraco, esta Mãe na verdade, para ela mesma, falta alguma coisa, pois, quando chega, o procura, toma-o nos braços, esfrega-lhe e não será ele que irá responder como aquilo que falta à Mãe. Ele então produz simulacros, a Mãe então poderá ser grafada assim: . Esse traço horroroso riscando o A, que é a inicial de Outro na língua francesa, é o limite, a falta, e irá também reaparecer nele mesmo quando ,arriscando cair no buraco, ele se agarra a alguma coisa, e ao invés de cair-cria, e se não pode criar se agarra ao que tem, ou seja, seu corpo, e temos a Angústia. Ou seja, o medo de ser reduzido unicamente ao seu corpo. Lacan dirá: a falta da falta no campo do Outro, e o sujeito se agarra a seu corpo como se fosse Outro. Ele poderá ser também escrito como aquele para quem sempre faltará algo: . Bem, chega de desdobrar, pois quem cobre a cabeça poderá descobrir os pés, pois assim é a vida: Outro, , $, a, Φ, ─ φ. Ela é escrita e sua clínica é do escrito, o que temos é de conferir-lhe enredo ao transcrevê-la, traduzi-la e transliterá-la.


A questão do nazômetro, quando dita aqui numa jornada, somente eu critiquei, e recebi retruco de críticas de todos os lados, que, segundo me diziam, era pela forma [a minha], mas não há distinção entre forma e conteúdo a não ser que agreguemos uma questão sentimental. Mas, mesmo assim, sendo considerado como polêmico, ninguém quis assumir a paternidade de uma crítica necessária, crítica a mais primária e deu no que deu, aí... passado algum tempo já se está falando da percepção do cheiro do analista como final de análise. Periga virar um preceito ético.

─ Sejamos rigorosos, pois não há, a meu ver, melhor maneira de comemorar a vida de quem dedicou toda a sua ao rigor da palavra: a Paulo Roberto Medeiros nossa gratidão pela sua maestria com o VERBO [as palavras].

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