A VISTA ENCANTADA

A arte construída de palavras

Lourdes Rodrigues

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia

Cadáver adiado que procria? 

Quando eu li A Vista Encantada, senti uma emoção muito forte. Obra escrita por dois escritores iniciantes no fazer literário, que contrariava completamente o adjetivo atribuído aos seus autores. Ao entrarem na Oficina, há cerca de dois anos, eles haviam confessado jamais terem escrito um conto. Elizabeth havia organizado, sob a forma de livro, alguns textos em memória do seu pai. E Fernando, escrito poemas no ardor da paixão por sua mulher, Adriana. Afora isso, apenas escritos esparsos.  Assim, tudo era novo e o desafio grande, diziam. E ali estava uma novela que me encantava a ponto de parar seguidas vezes a sua leitura para dizer: gente, que criatividade! Mais pareciam dois escritores experientes brincando com as palavras.

O que aconteceu? Escrever ficção é uma tarefa difícil. Não estou querendo dizer que o escritor é um ser ungido pelos deuses para exercer tal missão. Ou detentor de capacidade cognitiva superior ao normal. Longe de mim querer deificar aquele que escreve. Até porque o escritor está mais próximo do operário e do artesão na labuta incessante, no eterno recomeço, assim como Sísifo, do que de um ser iluminado pelos céus ou cérebro privilegiado. Fazer ficção é difícil porque é um trabalho insano, esse de escrever e reescrever, indefinidamente, em busca de um ideal inalcançável, de um Ideal do Eu para sempre perseguido e jamais atingido. E ainda ter que enfrentar a expectativa angustiante da reação dos ávidos leitores-juízes-críticos literários após a publicação, para enfim fechar o ciclo da sua peregrinação.  Sim, porque o ato criador, em si, é incompleto e abstrato, como bem o diz Sartre. Para se materializar ele precisa do receptor, do leitor. Só existe arte por e para outrem. Virgínia Woolf é ainda mais contundente quanto a esse momento ao dizer, em seu diário, que o pior da escrita é ficarmos tão dependentes de louvores. Na verdade, por trás dos supostos louvores está a consolidação da obra. Para aliviar a sua própria angústia diante da espera e ao mesmo tempo dar a verdadeira dimensão da Literatura para aquele que escreve, ela diz: …o fato essencial permanece inalterável, que é o fato do meu próprio prazer na arte. O prazer na arte construída pelas palavras é o que torna alguém efetivamente escritor, o que o faz suportar o sofrimento e o esforço permanente que ela exigirá para sempre dele.

A Vista Encantada está sendo entregue ao leitor, agora, cumprindo a última etapa de uma trajetória que efetivamente começou quando o amor pela escrita fez Elizabeth Freire e Fernando Gusmão participarem de uma oficina de criação literária e extraírem dela motivação suficiente para começarem a escrever ficção. A oficina não os ensinou a escrever. Costumo repetir uma frase de Roland Barthes: só se escreve, porque se lê. Entretanto, não é qualquer leitura que leva alguém a ser escritor.Tantos leem, tão poucos escrevem. Mas, uma leitura particular, que aprisiona o leitor e torna-o desejoso de também ele escrever. Ávidos leitores, Elizabeth e Fernando desenvolveram um vir a ser escritor que pavimentou a estrada deles até a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector. A partir de uma intimidade maior com o conjunto de conhecimentos básicos da teoria literária, das ferramentas e técnicas oferecidas, das leituras instigantes de autores consagrados e dos próprios viageiros e viageiras que ali também navegavam, esses autores percorreram seus caminhos, destravaram possibilidades, criatividade, refinaram estilos, potencializaram talentos, identificaram suas vozes narrativas muito particulares.

O grupo que constitui a Oficina é bem mais do que uma soma de pessoas. Cada participante traz sua grupalidade anterior, suas tradições e seus costumes, as funções e posições particulares, as paixões, sua visão de mundo inclusive, suas contradições, e uma vez integrante do grupo, a partir da sua interação com ele, gera uma nova totalidade. A magia da fabulação, da fantasia, da Literatura, enfim, é o traço que une a todos. Quanto mais forte é esse laço, mais o grupo se consolida, inclusive nas suas diferenças. É desse encontro amoroso com a Literatura, desse intenso exercício de sensibilidade, que as armadilhas contidas nas palavras levam seus participantes a fazerem a travessia da leitura para a escrita, como um deságue natural.  E o êxito alcançado na construção de uma escrita é vivenciado por todos como se de cada um deles o fosse.

Elizabeth e Fernando fizeram uma criação conjunta e paralela que iniciou com uma brincadeira e acabou em coisa séria: uma novela. O tema trazido por eles, a loucura, veio de uma forma leve, agradável sem perder, em absoluto, a seriedade e profundidade que merece. Os personagens protagonistas são muito ricos. Como todo louco, eles detêm em seu interior a própria verdade.  Não têm dúvida de quem são. E assim são reconhecidos. Dionísio Mariano da Conceição acredita ter descendência estrangeira, ser parente distante de um imperador chinês. Diz-se proprietário de uma moto que usa o vento como combustível e de um cavalo que se alimenta de sonhos. É um homem feliz, que toca vários instrumentos musicais e canta, faz shows que os muitos amigos aplaudem calorosamente. A cidade o acolhe nas suas diferenças.  Usa sempre o mesmo paletó que não lava desde que a mãe morreu, guardando amorosamente nele suas lembranças.  Guarda-Roupa, tropeiro, comerciante, após uma refeição pantagruélica teve uma congestão que lhe abriu as portas para um universo de fantasias, fantasmas e espectrais. Guarda-roupa não tem dúvidas quando vê Dionísio montado em seu fogoso alazão de pelagem vermelha acastanhada. Dionísio não duvida, também, quando recebe das mãos de Guarda-Roupa uma carta escrita numa língua chinesa, supostamente o Mandarim, que ele domina, entre tantas outras. Além deles, outro personagem muito forte é o Amarelinho, que acompanha Guarda-Roupa e revela parentesco com Dionísio. Os três Mosqueteiros partem em busca da lâmpada de Aladim, para viverem uma aventura incrível cheia de episódios pitorescos, hilários.

Essa saída do mundo real para a fantasia, se é que se pode dizer que Dionísio e Guarda-Roupa já não haviam atravessado há muito tempo essa fronteira, por mais fantástica que seja, em que a realidade é transfigurada, dando-lhe um novo formato, o de uma realidade imaginária ficcional, tornou esses magos inventores em escritores. A atração que o tema exerce levou Foucault a afirmar que a loucura é um saber. Eu diria que, para os escritores em particular, a loucura, enquanto abismo da alma, é um vasto e profundo campo de criação poética e ficcional. Parabenizo Elizabeth Freire e Fernando Gusmão pela maestria com que eles trataram um tema tão profundo de forma tão literária. 

Quando eu li A Vista Encantada, senti uma emoção muito forte. Obra escrita por dois escritores iniciantes no fazer literário, que contrariava completamente o adjetivo atribuído aos seus autores. Ao entrarem na Oficina, há cerca de dois anos, eles haviam confessado jamais terem escrito um conto. Elizabeth havia organizado sob a forma de livro alguns textos em memória do seu pai. E Fernando escrito poemas no ardor da paixão por sua mulher, Adriana. Afora isso, apenas escritos esparsos.  Assim, tudo era novo e o desafio grande, diziam. E ali estava uma novela que me encantava a ponto de parar seguidas vezes a sua leitura para dizer: gente, que criatividade! Mais pareciam dois escritores experientes brincando com as palavras.

O que aconteceu? Escrever ficção é uma tarefa difícil. Não estou querendo dizer que o escritor é um ser ungido pelos deuses para exercer tal missão. Ou detentor de capacidade cognitiva superior ao normal. Longe de mim querer deificar aquele que escreve. Até porque o escritor está mais próximo do operário e do artesão na labuta incessante, no eterno recomeço, assim como Sísifo, do que de um ser iluminado pelos céus ou cérebro privilegiado. Fazer ficção é difícil porque é um trabalho insano, esse de escrever e reescrever, indefinidamente, em busca de um ideal inalcançável, de um Ideal do Eu para sempre perseguido e jamais atingido. E ainda ter que enfrentar a expectativa angustiante da reação dos ávidos leitores-juízes-críticos literários após a publicação, para enfim fechar o ciclo da sua peregrinação.  Sim, porque o ato criador, em si, é incompleto e abstrato, como bem o diz Sartre. Para se materializar ele precisa do receptor, do leitor. Só existe arte por e para outrem. Virgínia Woolf é ainda mais contundente quanto a esse momento ao dizer, em seu diário, que o pior da escrita é ficarmos tão dependentes de louvores. Na verdade, por trás dos supostos louvores está a consolidação da obra. Para aliviar a sua própria angústia diante da espera e ao mesmo tempo dar a verdadeira dimensão da Literatura para aquele que escreve, ela diz: …o fato essencial permanece inalterável, que é o fato do meu próprio prazer na arte. O prazer na arte construída pelas palavras é o que torna alguém efetivamente escritor, o que o faz suportar o sofrimento e o esforço permanente que ela exigirá para sempre dele.

A Vista Encantada está sendo entregue ao leitor, agora, cumprindo a última etapa de uma trajetória que efetivamente começou quando o amor pela escrita fez Elizabeth Freire e Fernando Gusmão participarem de uma oficina de criação literária e extraírem dela motivação suficiente para começarem a escrever ficção. A oficina não os ensinou a escrever. Costumo repetir uma frase de Roland Barthes: só se escreve, porque se lê. Entretanto, não é qualquer leitura que leva alguém a ser escritor.Tantos leem, tão poucos escrevem. Mas, uma leitura particular, que aprisiona o leitor e torna-o desejoso de também ele escrever. Ávidos leitores, Elizabeth e Fernando desenvolveram um vir a ser escritor que pavimentou a estrada deles até a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector. A partir de uma intimidade maior com o conjunto de conhecimentos básicos da teoria literária, das ferramentas e técnicas oferecidas, das leituras instigantes de autores consagrados e dos próprios viageiros e viageiras que ali também navegavam, esses autores percorreram seus caminhos, destravaram possibilidades, criatividade, refinaram estilos, potencializaram talentos, identificaram suas vozes narrativas muito particulares.

O grupo que constitui a Oficina é bem mais do que uma soma de pessoas. Cada participante traz sua grupalidade anterior, suas tradições e seus costumes, as funções e posições particulares, as paixões, sua visão de mundo inclusive, suas contradições, e uma vez integrante do grupo, a partir da sua interação com ele, gera uma nova totalidade. A magia da fabulação, da fantasia, da Literatura, enfim, é o traço que une a todos. Quanto mais forte é esse laço, mais o grupo se consolida, inclusive nas suas diferenças. É desse encontro amoroso com a Literatura, desse intenso exercício de sensibilidade, que as armadilhas contidas nas palavras levam seus participantes a fazerem a travessia da leitura para a escrita, como um deságue natural.  E o êxito alcançado na construção de uma escrita é vivenciado por todos como se de cada um deles o fosse.

Elizabeth e Fernando fizeram uma criação conjunta e paralela que iniciou com uma brincadeira e acabou em coisa séria: uma novela. O tema trazido por eles, a loucura, veio de uma forma leve, agradável sem perder, em absoluto, a seriedade e profundidade que merece. Os personagens protagonistas são muito ricos. Como todo louco, eles detêm em seu interior a própria verdade.  Não têm dúvida de quem são. E assim são reconhecidos. Dionísio Mariano da Conceição acredita ter descendência estrangeira, ser parente distante de um imperador chinês. Diz-se proprietário de uma moto que usa o vento como combustível e de um cavalo que se alimenta de sonhos. É um homem feliz, que toca vários instrumentos musicais e canta, faz shows que os muitos amigos aplaudem calorosamente. A cidade o acolhe nas suas diferenças.  Usa sempre o mesmo paletó que não lava desde que a mãe morreu, guardando amorosamente nele suas lembranças.  Guarda-Roupa, tropeiro, comerciante, após uma refeição pantagruélica teve uma congestão que lhe abriu as portas para um universo de fantasias, fantasmas e espectrais. Guarda-roupa não tem dúvidas quando vê Dionísio montado em seu fogoso alazão de pelagem vermelha acastanhada. Dionísio não duvida, também, quando recebe das mãos de Guarda-Roupa uma carta escrita numa língua chinesa, supostamente o Mandarim, que ele domina, entre tantas outras. Além deles, outro personagem muito forte é o Amarelinho que acompanha Guarda-Roupa e revela parentesco com Dionísio. Os três Mosqueteiros partem em busca da lâmpada de Aladim, para viverem uma aventura incrível cheia de episódios pitorescos, hilários.

Essa saída do mundo real para a fantasia, se é que se pode dizer que Dionísio e Guarda-Roupa já não haviam atravessado há muito tempo essa fronteira, por mais fantástica que seja, em que a realidade é transfigurada, dando-lhe um novo formato, o de uma realidade imaginária ficcional tornou esses magos inventores em escritores. A atração que o tema exerce levou Foucault a afirmar que a loucura é um saber. Eu diria que, para os escritores em particular, a loucura, enquanto abismo da alma, é um vasto e profundo campo de criação poética e ficcional. Parabenizo Elizabeth Freire e Fernando Gusmão pela maestria com que eles trataram um tema tão profundo de forma tão literária. 

Aos leitores dessa novela, desejo a vista encantada de Dionísio e Guarda-Roupa para que possam acompanhar com prazer a aventura desses heróis.

                      A Vista Encantada sob as minhas vistas
                                      O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é IMG-20181211-WA0044-CADERNO-2.jpg                                         
                                             Osvaldo Sarmento 
  
 Nunca tomei coragem para fazer alguma apreciação formal sobre qualquer obra literária. Na verdade, sinto que me faltam credenciais para escrever  resenhas, simples que sejam. Mas, dessa vez, sinto-me encurralado por uma determinação. Digo determinação porque   pedido de Lizá ou Fernando, para mim é uma ordem. Avaliem os dois juntos!
 Para piorar  o embaraço, encontro-me, coincidentemente, num período de rebeldia, de insatisfação com meus escritos pretensiosamente literários. Noto-os parecidíssimos, no jeitão de arrumar as palavras, com  meus antigos ofícios ao magnífico reitor. Tento desesperadamente mudar de padrão e quando, exausto, me debruço sobre o resultado desse esforço, deparo-me, não com um texto coerente, mas com um monte de palavras brigando entre si. Daí, volto ao estilo a que fui acostumado.
 Feita a confissão, passo sem mais delonga ao cumprimento da ordem de comentar A Vista Encantada. Da maneira que posso. Minha única certeza é a de que dessa pretensa mata literária não sairá coelho algum. Tampouco resenha, pela razão que já expus. Ainda não sei o que dizer, mas vou dizendo.
 I
 Imagino-me, neste momento, um caso singular de alteridade (será esse o nome mesmo?) com muitos alter egos. Assumirei agora a condição de um leitor, digamos, genérico,  provavelmente longe do ‘ leitor ideal’ dos autores de A Vista Encantada.
 A obra, de conformidade com o que consta na segunda capa, é uma fantasia, uma viagem que conta os acontecidos em périplo imaginoso para um destino incerto e não sabido. Essa chamada, não sei exatamente o porquê, levou-me a uma questão que sempre me incomoda e para qual não tenho obtido resposta: a linha divisória entre o que se convencionou denominar fantasia e realidade.
 Começo por afirmar, com convicção, que já voei: ou fazendo asas de meus braços,ou em cima de um tapete. Antes que me joguem pedra, devo dizer que essa graça alcancei enquanto dormia. Não há dúvida que foi uma  sensação maravilhosa.
 Consegui, também, escapar de areias movediças, frequentemente acordando, desesperado, quando já estava com a areia pelo pescoço. E não só isso. Abri, com uma simples palavra de ordem, portas de pedra de cavernas exuberantes, perigosas. Sobrevoei parte da África vendo elefantes, girafas, leões, hienas,  a conviverem pacificamente. E da mesma forma como tenho saudade de lugares que conheci em viagem de turismo, sinto falta desses meus devaneios, com a ajuda do qual degustei situações esplêndidas.
 E o que dizer dos tempos de menino e adolescência, quando, igualmente,  experienciei inúmeras “realidades”, em minhas ocasiões de solitude ou abandono? Não posso chamar isso tudo de fantasia. São coisas imateriais, é verdade, mas nem por isso deixei de sentir as mesmas emoções. É por essa razão que não aceito excluí-las do universo das realidades e fico feliz quando sou remetido a situações que me façam recordar esses momentos marcantes de minha vida. 
 Umas poucas vezes, duvidei de minha sanidade mental, mas finalmente me convenci de que que estou entre o imenso grupo de pessoas consideradas normais, as quais, como eu, têm sonhos similares e infância parecida nesse aspecto. E, em assim sendo, desconfio que, igualmente a mim, achem prazerosa a leitura de uma bem contada história de Trancoso.
 Se o propósito de Lizá e Fernando foi encantar leitores, com seu A Vista Encantada, no que me toca, foram bem sucedidos,. Embarquei fácil nas peripécias de Dido, Guarda Roupa, Amarelinho, Catota e, mais adiante, nas do gênio da lâmpada, narradas pelos dois primeiros personagens.  Comparo a leitura da obra a um deslizar de cisne em lago sereno. Nada de tropeços, solavancos, enfado; nada da necessidade de voltar lá atrás para colher um detalhe, um nome de pessoa, ou o que quer seja para que continuemos a compreender o enredo. Tampouco necessidade de reler longos parágrafos, necessidade essa por conta talvez da construção de extensas sentenças, prenhes de hipérbatos que rivalizem com nosso hino nacional, e escassez de pontuação, como nos escritos de Saramago. Em suma, para o leitor do meu tipo, A Vista Encantada é desses livros de se ler numa única sentada, levando em conta que a tarefa é um pouco facilitada por termos diante de nós apenas 147 páginas.
 II
 Agora, vou na gaveta da escrivaninha e pego, da coleção de crachás de identificação, o último que usei como servidor do Ministério Público Federal, no cargo de pericial em Economia. Minha função era dar pareceres em processos judiciais que envolviam assuntos de caráter econômico. Contudo, como a quantidade de trabalho em minha área era escassa, passava horas e horas lendo livros de Direito e processos que me pareciam interessantes. Ou então, tirando dúvidas com os colegas, quase todos com formação em Direito.  Minha intenção, segundo brincadeira dos companheiros de trabalho, era tornar-me o melhor rábula do Recife.
 Desempoeirei o crachá, pendurei-o, com certo orgulho, no peito e decidi reler A Vista Encantada. Não tão encantada assim, penso eu! Confesso que fiquei pasmado com a desfaçatez do que lá está. A obra descreve a ação de uma organização criminosa (ORCRIM), contada por dois meliantes do grupo – Dido e Guarda Roupa – com vistas a cometer ilícitos financeiros. No caso, um delito fazendário, sob encomenda de um tal de seu Ribeiro, o Brahma-Quente. A recompensa da quadrilha era ver realizado, por um gênio inescrupuloso, um número fixo de desejos de seus integrantes. E aí, numa primeira e incompleta análise, constatei que um diligente promotor de justiça vislumbrará vários outros ilícitos capitulados em lei como, por exemplo, formação de quadrilha, apologia ao crime, obstrução de justiça e por aí vai.
 As penas certamente serão diferenciadas de acordo com o papel da cada membro da quadrilha. Dido e Guarda-Roupa estarão sujeitos a castigo maior do que Amarelinho e Catota. Os dois primeiros, além de executantes do crime, são responsáveis pela contação de uma pérfida história, de maneira tal, que leva o inocente e desavisado leitor a torcer pelo sucesso da quadrilha. Dido é o mais perigoso dos dois contadores: uma carinha angelical, faz-se de doidinho inofensivo para gerar simpatia e comiseração. E não só isso: mostra-se astuciosamente um desinteressado em riqueza pessoal. Deixa a entender que abrirá mão do prêmio por sua participação na pilhagem do erário público em prol do povo de sua terra natal, Riacho Fundo, castigada pela seca. Que pedirá ao gênio pra fazer chover em sua região, para sempre e na hora necessária. Pura enganação do fingido! Primeiro, porque ele sabe que a chuva adicional que cairá em seu torrão, faltará, na mesma proporção, em outra localidade igualmente castigada. Ele, como Lavoisier, sabe que, na natureza, nada se cria e nada se perde. Segundo, o avanço das investigações provará que Dido, através de seu laranja a ser ainda identificado, é o verdadeiro proprietário de um alentado latifúndio daquela região e se locupletará com a regularidade das chuvas.  
 Catota, o cachorro falante, terá necessariamente uma punição acentuadamente menor, por conta de sua bem inferior expectativa de vida. Deverá cumprir pena em canil público apropriado. Seu Ribeiro pegará a maior das penas convencionais por ter sido o mandante do crime.
 Há o caso especial do Gênio da Lâmpada. Parece que não há provisão legal, no momento, para sancionar sua conduta reprovável. Isso  poderá ser resolvido através de projeto de lei para mudança do Código Penal. Uma proposta razoável de penalidade pelo mau uso de poderes mágicos poderá ser seu “reenlampadamento” por pelo menos dois milênios, sem direito, nesse período, a qualquer esfregão de lâmpada capaz de libertá-lo. 
 A culpabilidade dos autores da obra também não apresenta maiores dificuldades em configurá-la. Utilizaram a fabulosa criatividade que Deus lhes deu, com desvio de finalidade. Tiveram a astúcia de apresentar o dolo de forma edulcorada, como uma coisa inofensiva, e seus executores como figuras ingênuas, sonhadoras, incapazes de praticar qualquer maldade. Trata-se de um caso típico de bem pensada apologia ao crime: no caso, o de continuada sonegação fiscal. A penalidade para esse ilícito é de oito anos em regime fechado. Porém, dada a idade dos futuros apenados e o fato de serem réus primários, poderão cumprir a sentença em regime domiciliar, com as medidas cautelares de uso de tornozeleira eletrônica e apreensão do passaporte. Independentemente desse benefício, poderão encurtar a pena se usarem o inegável talento para escreverem uma nova fantasia mostrando, implícita e convincentemente,  a importância dos impostos para o bem-estar da sociedade. Nesse caso, poderão descontar dois  dias do castigo para cada página da futura obra, formatada no modelo A5, tamanho 148X210 (14,8x21,0), fonte Times New Roman, tamanho 12.
 Brincadeiras à parte, quero dizer que o livro A Vista Encantada me presenteou com bons momentos.Parabenizo os colegas por esse feito e fico no aguardo para escrever sobre a próxima publicação de vocês. Quando? Espero que em breve. Por favor, lembrem-se de que já passei dos oitenta.

VENDO VISAGENS

Everaldo Soares Júnior

Elizabeth e Fernando, li A Vista Encantada. Fiz uma viagem acompanhado de Dido e Guarda-Roupa e, também, do Amarelinho. Foi uma grande travessia, as novelas me deixaram deslumbrado, difícil foi sair dessa situação. Fiquei atravessado de muitas histórias incríveis. Gostaria de contar a vocês o que se passou comigo, mas isso não é tão fácil assim. Os amigos de vocês se encontram, ou já se conhecem, as afinidades logo e sem perder tempo os enlaçam. As propostas das aventuras são colocadas de imediato em andanças que precisamos de apressar o passo, senão ficamos para trás. Do Riacho fundo até os recantos mais encantadores da serra da Borborema são percorridos por palavras de vocês e pelos pés dos amigos andarilhos. Os novos cruzados tropicais esbanjam disposições românticas pelos lugares e muito respeito pelas pessoas, ricas ou pobres, são pregadores de uma nova vida, do cariri ao sertão. Convido aos leitores, novos ou experientes para caminhar com as letras de Fernando e Elizabeth. Próximo ano, quando for para Campina Grande trabalhar, darei uma esticada até Riacho Fundo, de tapete voador, vendo as belezas das visagens. Loucura coisa nenhuma! Passeio do bom mesmo.  Quem pode, pode! Abraços.

Ana Líbia Lyra

O livro prende a atenção por ser criativo e, também, engraçado. Caso não soubesse que eram 02 autores, não perceberia, pois há uma concatenação entre eles que se harmoniza.  A maneira como é contextualizada a história tem um “sabor de infância” para mim. Quando eu viajava com meus pais para o sertão, deparava-me com situações semelhantes, próprias dos personagens vivido nessa história, quer seja por sua sabedoria inata ou pela transparência das intenções. Embora os personagens se desloquem no contexto da história, o imaginário e a realidade se confundem. O que me parece engraçado, de fato deve ser complicado. A introdução e participação do Amarelinho na história, de pronto me deixou atenta para alguma ” aprontação”.

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