Viagem Quinta pelo Riso

Assim como no ano anterior, comemoramos o dia Internacional da Mulher com poesia, que outra forma melhor para se homenagear um ser tão inspirador dos poetas? Foi por isso que levamos o papa da poesia americana, com assento no panteão poético universal, Walt Whitman, com Esta é a Forma Fêmea:

Esta é a Forma Fêmea

*Walt Whitman

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Sempre procuramos postar, junto ao traduzido, o poema no seu original, para dar a sua verdadeira dimensão, força e beleza. Não foi fácil dessa vez,  o único encontrado pelas minhas pesquisas estava incompleto, então recorri a Adelaide, a nossa maruja garimpadora de perolas poéticas, para me ajudar. E aqui está o poema em Inglês completo: This is the female form , in  Leaves of Grass. 

This is the female form

A divine nimbus exhales from it from head to foot,
It attracts with fierce undeniable attraction,
I am drawn by its breath as if I were no more than a helpless
vapor, all falls aside but myself and it,
Books, art, religion, time, the visible and solid earth, and what was
expected of heaven or fear’d of hell, are now consumed,
Mad filaments, ungovernable shoots play out of it, the response
likewise ungovernable,
Hair, bosom, hips, bend of legs, negligent falling hands all dif
fused, mine too diffused,
Ebb stung by the flow and flow stung by the ebb, love-flesh swell-
ing and deliciously aching,
Limitless limpid jets of love hot and enormous, quivering jelly of
love, white-blow and delirious juice,
Bridegroom night of love working surely and softly into the pros-
trate dawn,
Undulating into the willing and yielding day,
Lost in the cleave of the clasping and sweet-flesh’d day.

This the nucleus—after the child is born of woman, man is born
of woman,
This the bath of birth, this the merge of small and large, and the
outlet again.

Be not ashamed women, your privilege encloses the rest, and is the
exit of the rest,
You are the gates of the body, and you are the gates of the soul.

The female contains all qualities and tempers them,
She is in her place and moves with perfect balance,
She is all things duly veil’d, she is both passive and active,
She is to conceive daughters as well as sons, and sons as well as
daughters.

As I see my soul reflected in Nature,
As I see through a mist, One with inexpressible completeness,
sanity, beauty,
See the bent head and arms folded over the breast, the Female
I see.

No ano anterior trouxemos Carlos Drummond de Andrade para homenagear a Mulher. Agora, em 2017,  revemos poema já lido anteriormente na Oficina,  de Vinicius de Moraes, A Mulher que Passa, uma entre várias celebrações desse poeta às mulheres.

A Mulher que Passa

Vinicius de Moraes

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

O nosso companheiro de viagens, Everaldo Soares Júnior, levou para a Oficina um grande poeta: Ezra Pound, famoso pelos seus poemas e pela influência sobre escritores e poetas famosos como James Joyce, T.S Eliot e muitos outros cardeais da Literatura.

Júnior levou uma pequena biografia do poeta para que nos familiarizássemos um pouco mais com ele, até porque ficou muito marcado pela sua posição política, principalmente, durante um dos períodos mais negros da nossa história que foi a Segunda Guerra MUndial.

Americano, nascido em Halley, Idaho, cresceu perto da Filadéfia e formou-se na Universidade da Pensilvânia. Durante algum tempo foi professor e em seguida viajou pela Espanha, Itália e França. O primeiro livro de poesias ele  publicou em Veneza, em 1908. Mudou-se para Londres onde fez um círculo de amizade com escritores importantes como Ford Madox, James Joyce, Yeats, T.S.Eliot, Windham Lewis, influenciando todos eles. Nesse período, publicou Personae e Exultations e um volume de ensaios sobre o Romance. Participou como coautor de Revistas em Londres e depois em Paris, para onde foi morar. Data de 1920 a publicação de textos críticos sobre Literatura. Conhecedor da Literatura Ocidental e Oriental, Pound, associou-se ao movimento Imagista, do qual foi o líder durante algum tempo. A ideia que circunscrevia esse movimento era que o poeta deveria explorar de forma disciplinada as potencialidades da imagem e da metáfora., consideradas a essência da poesia.  As origens desse movimento se encontravam na poesia chinesa e japonesa, na poesia latina, em poemas de tradição medieval inglesa. Pound escreveu Cantos, publicados ao longo de 1917/1949, e inacabados, onde pretendia fazer uma versão moderna da Divina Comédia de Dante.

Ao se mudar para a Itália, em 1924, as suas posições teóricas sobre política e economia o associaram ao fascismo, tendo inclusive feito pronunciamentos antidemocráticos numa radio italiana, durante a Segunda Guerra Mundial. Devido ao seu comprometimento com o fascismo foi preso em 1945 e solto pela pressão internacional dos artistas, quando foi repatriado. A defesa usou como argumento para que fosse libertado, que ele era mentalmente incapaz. Por conta disso, ao ser repatriado ele ficou internado num hospital psiquiátrico em Washington. Quando a acusação de traição, enfim,  foi retirada, em 1958, Pound voltou à Itália e continuou escrevendo os seus Cantos  até 1972, ano da sua morte.

Considerado um dos maiores poetas do século XX,  título que divide com Maiakóvski, a sua obra lírica, erudita, carregada de citações e alusões históricas, renovou a linguagem poética. Sendo o primeiro líder do modernismo dos Estados Unidos, sua influência fez-se sentir inclusive na poesia da Geração beat, que levou a extremos a ideia poundiana de que o poema deve reproduzir a ordem natural da sintaxe de uma língua (falada) e não afastar-se demais da música ou da própria língua falada, já que o poema deve soar natural ao ouvido se lido em voz alta. 

Pound classifica três maneiras de escrever poesia: uma voltada para as suas qualidades sonoras, pela sua melodia (melopeia); outra voltada para as imagens, para o visual (fanopeia), e outra para o que ele chamou de “a dança das ideias”, (logopeia).  Ele continua presente na poesia, ultrapassando as fronteiras da Europa e da língua inglesa.  No Brasil, a sua influência foi percebida no grupo da Poesia Concreta, na defesa pela economia verbal, sendo o exemplo mais claro João Cabral de Melo Neto.

Aqui estão as poesias trazidas por Everaldo Júnior no original e traduzidas, a exceção de Salvação que não consegui encontrar:

Envoi (1919)

Ezra Pound – tradução de Augusto Campos

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

 

Envoi

By Ezra Pound

Go, dumb-born book,
Tell her that sang me once that song of Lawes:
Hadst thou but song
As thou hast subjects known,
Then were there cause in thee that should condone
Even my faults that heavy upon me lie
And build her glories their longevity.

Tell her that sheds
Such treasure in the air,
Recking naught else but that her graces give
Life to the moment,
I would bid them live
As roses might, in magic amber laid,
Red overwrought with orange and all made
One substance and one colour
Braving time.

Tell her that goes
With song upon her lips
But sings not out the song, nor knows
The maker of it, some other mouth,
May be as fair as hers,
Might, in new ages, gain her worshippers,
When our two dusts with Waller’s shall be laid,
Siftings on siftings in oblivion,
Till change hath broken down
All things save Beauty alone.

E ASSIM EM NÍNIVE

Ezra Pound – tradução de Augusto Campos

“Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

“Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

“Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”

And Thus In Nineveh – Poem by Ezra Pound

Aye! I am a poet and upon my tomb
Shall maidens scatter rose leaves
And men myrtles, ere the night
Slays day with her dark sword.

‘Lo ! this thing is not mine
Nor thine to hinder,
For the custom is full old,
And here in Nineveh have I beheld
Many a singer pass and take his place
In those dim halls where no man troubleth
His sleep or song.
And many a one hath sung his songs
More craftily, more subtle-souled than I;
And many a one now doth surpass
My wave-worn beauty with his wind of flowers,
Yet am I poet, and upon my tomb
Shall all men scatter rose leaves
Ere the night slay light
With her blue sword.

‘It is not, Raana, that my song rings highest
Or more sweet in tone than any, but that I
Am here a Poet, that doth drink of life
As lesser men drink wine.’
Ezra Pound

SAUDAÇÃO

Ezra Pound – tradução de Mário Faustino

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.

Foi um dia muito intenso na Oficina, além dos poetas referidos, lemos uma peça teatral de Moliére, As Preciosas Ridículas . Dividimos os papéis e ficou muito interessante a leitura, momento de descontração incrível por perceber o drama dos burgueses querendo apresentar uma cultura que eles não tinham.

Molière  (1622/1673) foi um dramaturgo francês, além de encenador e ator. Ele foi considerado um mestre no teatro, especialmente na comédia satírica que, até então, era muito dependente das tragédias gregas. Ele inaugurou uma nova forma de fazer teatro, em que a crítica aos costumes da época era a tônica. Foi considerado o fundador da Comédie -Française . As Preciosas Ridículas chamou a atenção da crítica para Moliére, mas não foi um sucesso absoluto, na época. Só muitos anos depois a peça começou a figurar entre as grandes obras do autor.

Não houve tempo para se discutir mais a peça nem o seu autor porque havia se esgotado o tempo e nem nos déramos conta.

Lourdes Rodrigues

 

 

Viagem Quarta pelo Riso

Às vésperas do Carnaval, os rufos dos tambores já sendo ouvidos muito próximos, a batucada no ar, a cuíca gemendo, alguns viageiros já alhures para não cederem a apelos tão fortes, nós navegantes que permanecemos a velejar vestimos as  fantasias e fizemos um carnaval literário com direito a muitos poemas, teatro e cantos. E festejamos a chegada do novo viageiro Sarmento que se diz disposto a enfrentar os mares das palavras com toda paixão que eles exigem. Salve, navegante! . 

O Momento Poético começou com Zodíaco,  de Daniel Lima, escolhido pela nossa viageira Adelaide Câmara que, infelizmente, não pôde estar presente  embora muito o quisesse. Só a saúde bombardeada por uma tosse inimiga atroz a impediria de ali estar para ela mesma ler o seu poeta. O poema escolhido fala mesmo do carnaval, do mês de fevereiro:

ZODÍACO
5 – Janeiro e fevereiro

                                                                                      Daniel Lima       

             E ao chegar fevereiro
             ainda serás imortal
            da trágica imortalidade dos palhaços
            das colombinas e dos arlequins.
 
                Fevereiro é o Brasil,
               já vem gingando.
             (e o que é gingar?
               Não perguntes,
           não se diz,
               não se explica:
                              só se vendo (ou se fazendo)
             Fevereiro desfila
                      gosta de ser fevereiro.
 
Ele se adora.
 
           E porque se adora,
              fevereiro samba e ri
              e se cobre todo de miçangas.
 
              Há borboletas que não vejo
                         no jardim de rosas que não tenho.
 
          Mas fevereiro cria
as rosas e o jardim
              e as borboletas.
 
                   Fevereiro não gosta de Scarlatti
               mas gosta de escarlate
                         e azul
                   e cores misturadas.
 
                  Fevereiro é ligeiro,
            um vôo de pássaro encantado,
                     um relâmpago no céu inesperado
                (o relâmpago e o céu),
                    o céu de fevereiro,
          a luz fugaz de um fósforo aceso.
 
            A alegria que levas de reserva
        colheste-a por certo em fevereiro,
         para queimá-la talvez a vida inteira.
 
               Mês leviano, essencial
                eterno e contingente.

               Fevereiro é geral, não te pertence.
         Universal riso puro
             de todos e ninguém.
 
          Fevereiro é Brasil.
       Viva Macunaíma!
      Ai, que preguiça!
     Do jeito que ora está
  Ninguém aguenta.
    Vou embora pra Bahia
Hoje mesmo,
Que ninguém é de ferro.
E a vida vai comigo.
E fevereiro fica.
Não te esqueças:
Dize:”adeus , fevereiro!”
E outra vez mais:
“Viva Macunaíma!
Ai que preguiça!”
                          Poemas,2011.

E os viageiros  quiseram saber mais de Daniel Lima. Nascido em Timbaúba, foi sacerdote, diretor da Gazeta de Nazaré, um Jornal literário de Recife durante mais de 20 anos, lecionou Psicologia e Filosofia na UFPE. Até 2011 havia escrito 27 livros, 13 de poesia e 14 de Filosofia. Modesto, recusava-se a publicar suas obras, uma de suas alunas levou os originais de Poemas para a CEPE que o editou. Com este livro ele conquistou o primeiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimarães da Biblioteca Nacional. Morreu às vésperas de completar 96 anos, em 2012.

 

Outros poemas de Daniel Lima:

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus olhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Nada será jogado no vazio.
Nem mesmo o vazio da vida,
porque é vida.

Nem mesmo o gesto inútil,
pois-que é gesto.

Nem mesmo o que não chegou a realizar-se,
pois-que é possível.

Nem mesmo ainda o que jamais se realizará,
porque é promessa.

E o próprio impossível
é vontade absurda de existir.
E nisso existe.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Os pássaros são sábios.
Não discutem: cantam.
Cantar é o jeito mais puro de entender
a vida.

Em seguida foi lido o poema Apego, da nossa viageira-poeta Salete Oliveira:

Apego

Salete Oliveira

Ah pego
Apego
Afeição
Ah pego
Simpatia
Gosto
Ah pego
Amor
Enamorar-me
Ah pego
Zelo
Paixão
Ah pego
Admiração
Enternecimento
Ah pego
Porque não sou uma pedra
E mesmo as pedras,
Vestem-se de multicoloridos limos

Após o Momento Poético, dirigimo-nos ao teatro para assistir o poema lírico em formato de peça teatral Máscaras, de Menotti Del Picchia, que fala do encantamento de dois homens muito diferentes, Arlequim e Pierrot, por uma mesma Mulher, Colombina.

Paulo Menotti del Picchia, paulista (1892/1988), poeta, ficcionista, ensaísta, editor, jornalista, industrial, banqueiro, deputado estadual e federal, escultor.  Ficou conhecido ao projetar a Semana de Arte Moderna de 1922, da qual fez um diário na imprensa entre 20 e 30, tendo sido membro das Academias Paulista e Brasileira de Letras. Ao completar 85 anos, Menotti concedeu entrevistas das quais transcrevemos um trecho que pensamos traduzir bem a sua escrita:

Em matéria de arte não admito pressão externa: a arte deve ser pessoal, independente e livre; é ela que tira o ser humano da animalidade. (Folha de S.Paulo, 20 mar.1982).

O texto foi escrito em 1920 período  de extrema  efervescência cultural no Brasil. Os personagens, entretanto, já eram conhecidos, vieram da Commedia dell”arte,  século XVIII, na Itália, também chamada de Comedia de Ofício e Comédia Artesã porque nasceu nos berços da cultura popular, com roteiros simples,  os personagens usavam máscaras durante a encenação para não serem identificados. Tratava-se de uma espécie de resposta ao teatro clássico, ao teatro dos grandes e nobres salões. Na ocasião lemos um texto que falava de cada personagem, de como ele surgiu, de suas características Quem são o Pierrô, o Arlequim e a Colombina?

Na leitura da peça, Salete foi a Colombina que Paulo-Arlequim e Eleta-Pierrot tentaram conquistar.  Foi muito engraçado, principalmente quando Colombina se confessava em dúvida com qual dos dois ficar. Foram horas muito divertidas.

Após a leitura, Sarmento disse que sempre havia gostado muito do tema, embora jamais houvesse pesquisado sobre as suas origens, disse ter gostado muito das informações e análises que foram levadas naquela tarde. Ele, inclusive, falou de  uma marchinha de carnaval que havia feito há alguns anos, usando os personagens, e nós tivemos que insistir para que ele a cantasse..

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Lemos ainda trechos de um artigo que analisa sob o ponto de vista psicanalítico e um pouco literário este poema e dá uma breve biografia do seu autor, As máscaras de Menotti del’Picchia: Arlequim, o desejo − Colombina, a mulher − Pierrot, o sonho, de Stetina Trani de Meneses Dacorso. A epigrafe deste trabalho, retirada de uma música de Chico Buarque e Edu LObo, diz muito dos conflitos amorosos, triangulares ou não:

Mesmo sendo errados os amantes, 
Seus amores serão bons.
 
(Choro Bandido,Chico Buarque/Edu Lobo)

 

E encerramos nossos trabalhos.

Jaboatão dos Guararapes, carnaval de 2017.

Lourdes Rodrigues

 

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Viagem Terceira pelo Riso, por Juan Rulfo, digo, João Gratuliano

Registro de nosso encontro em 15 de fevereiro de 2017
por Juan Rulfo, digo, Gratuliano.

Vim a oficina porque me disseram que aqui vivia uma musa, uma tal de literatura. Minha amiga me disse.

Aquele era o tempo do verão, quando o ar de fevereiro sopra quente, envenenado pelo odor apodrecido dos esgotos do Recife. No portão Lu me recebeu com seu cordial boa tarde. Estou aqui esperando dona Lurdinha, para ajudar com as sacolas. Ela vem sempre tão carregada. A porta está aberta. Pode entrar.

Agora eu estava aqui, nesta sala ainda sem os risos. Ouvia meus passos caírem sobre a cerâmica que empedrava o chão. Meus passos ocos, repetindo seu som no eco das paredes tingidas pelo cartazes de seminários do Traço.

Naquela hora, fui andando para o meu lugar. Olhei as cadeiras vazias; apenas quatro estavam ocupadas: Everaldo, Eleta, Cacilda e Salete. Uma bolsa feminina indicava que mais alguém estaria por ali e não tardou para que Anita aparecesse com sua elegância habitual.

Lourdes telefonou nos autorizando a começar a leitura das poesias. Como era mesmo o nome daquele fulano que Eleta nos apresentou? Walt Whitman! Sim, esse senhor um tanto barbudo, que bem poderia ser Pedro Páramo…


Walt Whitman (Huntington, 31 de maio de 1819 – Camden, 26 de março de 1892) foi um poeta, ensaísta e jornalista norte-americano, considerado por muitos como o “pai do verso livre”. Paulo Leminski o considerava o grande poeta da Revolução americana, como Maiakovsky seria o grande poeta da Revolução russa.

Eleta fez uma bela introdução sobre o escritor. E lemos dois poemas curtos:

A um Estranho

Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

To a Stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking, (it comes to me, as of a dream,)
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me, or a girl with me,
I ate with you, and slept with you—your body has become not yours only, nor left my body mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass—you take of my beard, breast, hands, in return,
I am not to speak to you—I am to think of you when I sit alone, or wake at night alone,
I am to wait—I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

A Você

Estranho! se, ao passar, você me encontrar e desejar falar comigo, por que não falar comigo?
E por que eu não falaria com você?

To You

Stranger! if you, passing, meet me, and desire to speak to me, why should you not speak to me?
And why should I not speak to you?

Chegaram nesse meio tempo, Saló, Lourdes e Luzia carregando a tal bagagem que Lu estava esperado para ajudar.

Dando continuidade ao Momento Poetico, Anita lembrou que o Riso, tema dos nossos trabalhos este ano, também faz poesia e leu o Poema Matuto, Eu e Maria:

POEMA MATUTO

*DO LIVRO ‘CANTIGAS QUE VÊM DA TERRA”

EU E MARIA

Nasci no sítio Belém
Lá nasci e me criei
E desde novo eu jurei
De num casar com ninguém
Por arte num sei de quem
Com Maria me encrontei
Quebrei tudo que jurei
Passei dois mês namorano
Passei três me ajeitano
Com quatro mês me casei
Me casei com muita fé
Mas pro pintura do diacho
Lá perto morava um macho
Inludidô de muié
Um tal de Joca Romeu
E esse um dia apareceu
No rancho que nós vivia
Com um jeitão muito estranho
Um oiá desse tamanho
Reparando pra Maria
Depois de um mês de casado
Eu notei que tinha um sócio
Ela inventou um negócio
De nós drumir apartado
Inventava um bucho inchado
Dô de cabeça e de ouvido
Um tal de corpo doído
Umas fireira no pé…
Essas manha de muié
Que quer dexá o marido
Eu só vivia dizeno:
Talvez nunca me acostume
Eu morrendo de ciúme
E os amô dela cresceno
Sempre aquelas coisa, eu veno
Ela toda diferente
Ele metido a valente
E pra terminar a novela
Tratou de vim buscá ela
Na outra noite da frente
Inda vi eles sainno
Ele perguntou por mim
Ela arrespondeu assim:
O bestaião tá drumino
Eu aquelas coisa ouvino
Fui me levantei também
Ela dizia: Ele vem
Mas num vá temê acocho
Que aquele meu véi é frôxo
Nunca brigou com ninguém
Isso era de madrugada
Quaje amanheceno o dia
Quando eu oiei, eles ia
Já descambando a chapada
Larguei os pés na estrada
Pra ver se ela me atendia
Gritava: Vem cá, Maria
Vorta pronde tu morava!
Mas quato mais eu gritava
Mais a danada corria
Mas sabe o que aconteceu
Com a vida de nós dois?
Com uns dez anos depois
Maria me apareceu
Deixou o Joca Romeu
Voltou toda diferente
Com oito fios na frente
Uns com tosse, outros com gogo
E eu tenho comido é fogo
Pra sustentar tanta gente

*Lançado em 2002 por Geraldo Amâncio e Wanderley Pereira

Após os poemas contamos algumas piadas, rimos muito, mas a coordenadora colocou ordem na casa. Fizemos uma rápida reprogramação da agenda e deixamos a leitura de As Preciosos Ridículas para o próximo encontro.

Lemos um conto de humor, O homem que nem é dental, de João Gratuliano (estranho falar de si mesmo na terceira pessoa) e depois lemos Ele? de Guy de Maupassant. Júnior fez ótimas pontuações sobre a doença que afligiu Guy.

Salete comentou sobre a sessão de leitura do livro de Anita e comentou que pelo prefácio havia descoberto um João Gratuliano menos irônico e mais romântico. E me desafiou a mostrar esse lado. Então eu aproveitei que a audiência estava pequena. Everaldo e Saló já tinham vazado, e li um do meu vasto repertório de três ou quatro poemas meu.

Assim nos despedimos no clima habitual de alegria entre os leitores e escritores de boa vontade. Fomos em paz e que Clarice nos acompanhe.

Viagem Segunda pelo Riso

 

*Anita Dubeux

Esta postagem refere-se à nossa segunda viagem , a que foi realizada no dia 08 de fevereiro de 2017, após zarparmos do cais de nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas e delicioso banquete.

Ancoramos no Traço Freudiano para mais um encontro de confraternização literária que iniciou com a leitura do cordel de autoria da viageira Salomé, escrito num momento muito especial de sua vida, em 2009,  e que ela dedicou ao marido. Trata-se de um belo e pungente cordel, porque fala do resgate do sorriso  que se perdeu em consequência de uma grande perda.

O RISO PEDE PASSAGEM

**Salomé Barros

Sessenta e três bem vividos
Trinta e sete para cem
Na caminhada da vida
Não sobra para ninguém
E mantendo o alto astral
Vai virar Matusalém

Com esse humor escrachado
Palhaçadas a granel
São tantas as trapalhadas
Que não cabem num cordel
Já conquistou doutorado
E até virou coronel

A manutenção do riso
Faz bem, é fundamental
Existir o ano todo
E não só no carnaval
No seu caso, sobretudo
É energia vital

Não permita que a tristeza
Invada o seu coração
Ela entra atravessada
Errada e na contra mão
Se você não der guarida
Some feito um furacão

Você escolhe na vida
De que lado quer ficar
Altos e baixos existem
Pra gente se equilibrar
Na corda bamba dançando
O riso a contagiar

Em seguida eu li dois poemas de Esman Dias, bem como uma breve biografia desse grande poeta que nos deixou em 2015. Foram eles:

 

FUSÃO

Santo Anjo do Senhor
Tyger! Tyger! burning bright
Meu zeloso guardador
In the forests of the night
Se a Ti me confiou
What immortal hand or eye
A piedade divina
A divina piedade
A mão, o olho imortal
Que deu forma e simetria
Terrível, meu Anjo, Tigre
A Ti, labareda clara
Dá-me teu fogo claro e me incendeia!
Dá-me tua espada à noite e me defende!
Meu santo Anjo do Senhor, meu Tigre!
E minha espada, espada, espada, espada!

 

ALUVIÃO 

Com as mesmas palavras
Girando ao redor do sol
Que as limpa do que não é faca.
João Cabral de Melo Neto

 

Parto in time aspre, et di dolcezza ignudo.
Petrarca

 

Falo do que não falo quando falo:
falo do meu silêncio,
bem mais claro
que as vozes incessantes dos que falam.
Falo do que não falo: do que sou:
bicho da terra — surdo — e mau cantor.
Falo do que não falo: tão pequeno
a destilar a noite o seu veneno.
Falo, não para o mundo dos sentidos:
falo somente para o inteligível.
Falo do que percebo: coisas claras
aéreas superfícies, copos d’água.
Falo na muda fala da batuta,
clara e precisa, do maestro à música.
Falo da pedra dura, da aspereza
de pedra sobre a pedra desta mesa.
Falo de mim em tudo de que falo.
Falo dos meus espelhos, quando calo,
Falo como quem vai a julgamento
sem esperar o indulto do seu tempo.
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

 

Breve biografia do poeta:

ESMAN DIAS nasceu no Cariri – sertão da Paraíba. Ainda criança veio com os pais para Pernambuco. Morou em Olinda até a adolescência e desde então mora no Recife. Seus primeiros poemas foram publicados no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio, em 1963. Em 1964, publicou “Os Retratos Marinhos”; em 1965, com Everardo Norões e Orley Mesquita, participa da coletânea “Clave”, ilustrada pelos artistas plásticos Anchises Azevedo, João Câmara, José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Também em 1965, em parceria com Orley Mesquita, assina a coluna “Poesia e Tempo”, no Jornal do Commercio. Com Alberto da Cunha Melo colabora na realização do documentário “Simetria Terrível”, dirigido por Fernando Monteiro. Vários de seus poemas foram traduzidos para o francês e publicados na coletânea Recife/Nantes. Participa da antologia “46 Poetas Sempre”, organizada por Almir de Castro Barros. É professor de Literatura Anglo-americana no Departamento de Letras da UFPE e foi professor visitante da Universidade de Birmingham, no Alabama e na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign.

Muito riso provocaram as tirinhas humorísticas selecionadas para o encontro: As Rebordosas, Garfild, Ferrato Pessoa.

O conto AMOR, do autor persa SAADI, poeta e contista “divino” que viveu no período de 1184 – 1291 — em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda — ensejou intensa polêmica e interpretações as mais diversas. Promete ser objeto de muitos escritos dos viageiros.

Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, que vivia em uma mesquita abandonada, e  que quase havia sido dizimada todos os ratos que por ali viviam. Aparentemente a ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Mantendo certa distância, para não tornar-se o seu alvo, a ratinha tenta conversar  e acaba se apaixonando seriamente por ele. Vamos aguardar as resenhas que advirão.

Continuando o encontro, foi lido o segundo capítulo do conto de Bergson, O RISO, abordando o tema do humor do ponto de vista psicanalítico.

O navio permanece ancorado, à espera do próximo encontro.

* Anita Dubeux é economista, poeta, ensaísta, contista. Brevemente terá um livro de poemas, Círculo de Seda, publicado pela Chiado Editora, de Lisboa.

** Salomé é psicóloga, cordelista, cronista.

 

 

 

 

 

 

 

Programação 2017 – 1º trimestre


​Viageiros e viageiras,

o cheiro da maresia já nos convida ao mar, vamos içar as velas e partir? Marujos, estiquem as canelas, encham os seus baús que é hora de embarcar.

Excepcionalmente, o cais de embarque será o da nossa querida maruja Adelaide Câmara, que inaugurará a nossa viagem, quebrando o champagne da partida. É importante que todos os que forem embarcar na quarta-feira avisem para que ela nos receba com todas as guirlandas necessárias.

Na Carta de Navegação está escrito Do Riso ao Trágico: um mar de Palavras. Sim, serão muitas mil milhas a navegar para dar conta dessa Carta de Marear, com a licença poética de nossa viageira Roberta Aymar. As aliterações estão aí para acordar  nossos poetas que rangerão os dentes ao lê-las.

Bom, para darmos conta de tal roteiro precisamos conhecer um pouco mais da hidrografia do Riso. Afinal, o que vamos encontrar? O grande timoneiro Ariano Suassuna disse: No meu entender o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: O sonho e o riso. E o bruxo do Cosme Velho foi ainda mais enigmático ao referir-se a ele : Há pessoas que não sabem, ou não se lembram, de raspar a casca do riso para ver o que há dentro.

É importante que todos conheçam o plano traçado e que façam as suas propostas de correções de rumo antes ou durante a viagem. Ei-lo:

Ementa:

Saudação Poética – O Momento Poético iniciado em 2016 tornou-se essencial para a nossa viagem pelos mares das palavras. Além de estimular a criação poética particular dos poetas embarcados, encantou os viageiros de tal forma que todos eles levaram seus poetas preferidos para apresentá-los aos companheiros.

Carrossel Literário – O compartilhamento de livros embora tenha perdido um pouco de espaço para a saudação poética em 2016, continua importante para a transferência literária entre os participantes, tanto pela identificação de interesses como pela ampliação do conhecimento de autores ainda não conhecidos.

Escrita Criativa – O estímulo à criatividade em 2016 resultou na publicação de Escrituras III. Novos estímulos serão oferecidos em 2017 como faíscas para incendiar a criatividade dos marujos, desde o conto infantil a desafios e jogos de releituras e recriações.

Leitura Crítica – A opção pelos textos curtos (contos) tornou intensa a movimentação literária em 2016, culminando com a produção de muitas resenhas e algumas releituras. Assim, vamos intensificar este ano a leitura de contos.

Leitura Informativa –  Ensaios sobre o riso, a comédia, a farsa, técnicas literárias.

HQs ou Charges – A inovação das tirinhas de quadrinhos e charges para a nossa viagem, além de buscar o riso, contribuirá para a construção de Personagem, para a análise da crítica social e política.

Composição do Romance Coletivo – Iniciado em 2015, não caminhou em 2016. Os marujos deverão bater o martelo se devem continuar ou parar.

Objetivo geral:

Buscar o riso na Literatura, como expressão maior de uma sociedade, desde os gregos, romanos, até os tempos atuais, tentando apreender sua complexidade, grandiosidade, abrangência e, principalmente, sua interface com a dor, a tristeza, a tragédia.

Objetivos específicos:

• Contatar o seu eu mais profundo pela leitura de poemas na Saudação Poética;
• Compartilhar obras literárias relevantes no Carrossel Literário;
• Desenvolver o fazer literário diferente, fugindo do convencional, da mesmice, dando asas céleres ao absurdo e inimaginável com a Escrita Criativa;
• Realizar a Leitura Crítica  de textos literários, preferencialmente formas breves, desconstruindo a hegemonia da história aparente pela identificação da história contada em paralelo;
• Estimular a realização de resenhas e resumos dos textos lidos, a partir da leitura crítica particular e dos instrumentos de análise literária;
• Compartilhar tirinhas em quadrinho e charges para análise de personagem, identificação de objetivo, natureza;
• Participar como crítico ou autor da construção coletiva do Romance Coletivo iniciado em 2015;
• Alimentar o blog da Oficina com a produção dos participantes;
• Desenvolver projeto de publicação da Oficina.

PÚBLICO ALVO:

Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelo riso através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras formando novos sentidos; escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e ler.

METODOLOGIA:

• Leitura de poema no início dos trabalhos de três das quatro quartas-feiras;
• Exercícios de escrita para estimular a criatividade. Iniciaremos com a provocação com texto infantil. Os textos produzidos serão lidos e comentados.
• Leitura crítica de contos que desafiem a percepção crítica e as emoções dos participantes, de acordo com o tema trabalhado. Iniciaremos com um Conto Infantil e um Conto Sobre o Riso. As resenhas elaboradas serão lidas e comentadas.
• Apresentação de tirinhas de quadrinho ou charges.

RECURSOS DIDÁTICOS :

Trabalhos em grupo e individual de escrita, utilizando papel e caneta, computador ou tablet. Leituras de poemas e contos no notebook, tablet, celular ou impressos.

PERIODICIDADE:
Toda quarta-feira de 14h:00min às 16h:00min.

LOCAL E CONTATOS:

Excepcionalmente, na casa da nossa querida maruja Adelaide, que ainda se recupera de alguns problemas de saúde.
Depois, no Traço: Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 –  Recife- PE –Fone: 3265-5705 (Luciene)

www.traco-freudiano.org/blog ou oficinaclaricelispector@googlegroups.com.br

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Bibliografia inicial:

O riso, Henri Bergson
Gargantua e Pantagruel, François Rabelais
Batracomiomáquia, Homero
Amor, Saadi
O Misantropo, Menandro
O Humor Judaico, Abrasha Rotemberg
Humor (temas abordados na Palestra do J. Maestro)
Alice Através do Espelho, Lewis Carol

Aguardo vocês  com ansiedade no ancoradouro.

Lourdes Rodrigues

 

Escrituras III – Manuscritos de Viagem

A Paixão pelas Palavras
Lourdes Rodrigues

Mais de uma década ao mar. Viagens longas, viagens curtas, sempre de olho no Traço-Porto-Seguro para fugir das arrebentações, das tormentas. Poder voltar sempre foi o que nos deu coragem de içar velas e enfrentar as ondas numa nova viagem.

Escrituras I e II mapearam as rotas dos oito primeiros anos, suas aventuras, suas emoções. Escrituras III – Manuscritos de Viagem representa as milhas náuticas percorridas em 2016. E a celebração pelo retorno das nossas estrelas guias que durante dois anos não navegaram; pela chegada dos novos viageiros, recebidos com guirlandas de flores em volta do pescoço pelos navegantes; e pelos marujos que se mantiveram firmes e indiferentes aos cantos das sereias, de olhos voltados para as águas turbulentas até o final da travessia.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem registra o resgate da alegria dos primeiros tempos, de novos impulsos criadores, da exacerbação do sentir tudo de todas as maneiras, como dizia Fernando Pessoa, na poesia de seu heterônimo Álvaro Campos.

Os nossos viageiros são seres muito especiais que navegam pelos mares das palavras e das artes plásticas. Todas as imagens são de Anita Dubeux e de Paulo Tadeu, da capa às cortinas separadoras dos textos. Quase todos fazem poesia, líricas, com rimas, sem rimas, de cordel, prosa poética: Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salomé Barros, Salete Oliveira. E nossas tardes se enchem de encanto! Adelaide Câmara garimpa pérolas poéticas, com a poesia na alma, de olhos e ouvidos atentos para que não lhe escape um grande poema, embora teime em dizer que prefere a prosa ao verso, como modo de arte. Todos são ficcionistas, a prosa é a praia deles e escrevem com muito apuro.

Everaldo Soares, marujo dos primeiros tempos, nosso Ismael, transita com desenvoltura pelos mares das palavras não ditas, em face do seu perfil de psicanalista, com escuta especialmente arguta. Escreveu o conto O Feio, da releitura do Patinho Feio, trazendo à tona mal-estar imprevisível, interior, daquele que se sente diferente, quer pela feiura ou seus desconcertos, mas que mantém posição e não procura assemelhar-se ou desassemelhar-se com sua tribo. O seu patinho, apesar dos percalços vividos, não arreda pé de não cantar. Na temática do duplo, defendeu a ideia de que o duplo tem a ver com a constituição do eu e do outro, usando para isso o Estádio do Espelho de Lacan. O duplo é um outro perseguidor, geralmente do mesmo sexo, paranóico e destrutivo, que fracassa onde as pessoas comuns são vitoriosas, segundo Freud. Everaldo diz que a constituição do eu é erótica e mortífera, e a morte é fundamental para criação de símbolos: a palavra mata a coisa. Para ele, assim como para nós, a subjetividade é essencial ao trabalho da ficção. Por isso, a Psicanálise e a Literatura andam sempre juntas.

Cacilda Portela é resenhista, ensaísta, aqui e ali mergulha na escrita de um conto. O melhor crítico literário é João Gratuliano, nada escapa ao seu olhar. É o nosso Harold Bloom. Teresa Sales voltou, para a nossa alegria, a escrever suas prosas, contos e crônicas. Roberta Aymar, viageira de alguns portos, sempre a trazer contribuições inestimáveis.

Traçar cartas náuticas com esses viageiros tão destemidos e criativos nas artes e na literatura é saber que vamos mergulhar em mares profundos e fazer grandes e intensas viagens em que o riso, a alegria será sempre a bandeira hasteada. Mesmo quando o tema é difícil, o riso escapa para quebrar a tensão.

A Carta de Navegação 2016 põe em evidência a complexidade do ser humano, a partir de coordenadas fornecidas pela poesia, pela criatividade dos viageiros e pelos mergulhos entre linhas e silêncios dos escritos de autores selecionados pela sua alta conta na Literatura. Os escritores, como bem disse Freud, são seres que conhecem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.

No eixo Poesia, criou-se o Momento Poético, ocasião em que líamos os poetas preferidos ou as nossas próprias criações. Mais que um batismo para iniciação de cada percurso da viagem, tornou-se o instante em que cada viageiro pode mergulhar no mais profundo de seu ser e fazer a sua travessia muito particular. Grandes poetas por ali passaram. Começamos por Charles Baudelaire, lendo Gênio do Mal, tradução de Delfim Guimarães, que Adelaide Câmara descobriu, após exaustivas pesquisas, não existir na obra do poeta com esse título, embora inserido em As Flores do Mal sob o número XXV. Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema traduzido para o português com a obra no original, permitindo-nos descobrir divergências, infidelidades e refletir sobre a definição de poesia de Robert Frost: That which is lost in translation.  Se na ficção é importante ver o original, porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores ao se empolgarem e se afastarem muito do texto, na poesia, em que a sonoridade, às vezes a rima, a subjetividade, as metáforas, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução pode significar desvio e perdas substanciais. Entretanto, o tradutor e nós leitores não descobrimos sentidos, apenas nós os construímos.

Sonetos de William Shakespeare, Camões, poemas de Emily Dickinson, Lautréamont, Paul Valéry, Wislawa Szymborska, Sylvia Plath, Li Po, William Butler Yeats, Elizabeth Barrett Browning , Elizabeth Bishop, Benjamim A.S.M. M’Bakassy , Mia Couto, Cesare Pavese, Calderon de La Barca, Paul Verlaine, Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Florbela Espanca foram lidos com variadas doses de emoção pelos viageiros. Da Irlanda foi trazida uma poesia do Século VIII, Donal OG (no original, em Gaélico), Broken Wows (tradução inglesa), Votos Partidos (Português), com tradução belíssima de Lady Gregory que muitos já conheciam do filme Os Vivos e os Mortos, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Muitas leituras vieram acompanhadas de vídeos, com excelentes interpretações, como foi o caso de Vincent Price, em O Corvo, de Edgar Allan Poe. As leituras de poemas pelo próprio poeta a exemplo de Sylvia Plath, Paul Verlaine, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, assim como a interpretação de Maria Betânia de poemas de Sophia Breyner e de José Régio encantaram-nos. Para comemorarmos o Dia Internacional da Mulher, a nossa viageira Adelaide presenteou-nos com poesias de Emily Dickinson, Florbela Espanca, Sylvia Plath, Sophia de Melo Breyner e o poema Mulher de Carlos Drummond de Andrade.

Para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela… Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa que se possa prever nossa vã pretensão…

Poetas brasileiros, além de Carlos Drummond, que estiveram presentes uma e mais vezes no nosso recital poético: Ferreira Gullar, Mário Quintana, Manuel Bandeira, José Régio (Cântico Negro, lindo!), Carlos Pena Filho, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Affonso Romano de Sant’Anna, Daniel Lima, Paulo Leminsky, Andrea Campos, Augusto dos Anjos. A viageira Luzia Ferrão nos trouxe o poeta das ruas, mais precisamente, dos semáforos, Lenemar Santos, natural de Gameleira, que vende seus livrinhos, feitos de forma artesanal, em Piedade.

Os nossos poetas também nos prestigiaram com suas criações. Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salete Oliveira e Salomé Barros trouxeram seus poemas para leitura na nossa nau, cada uma com um estilo muito próprio, dividindo conosco suas percepções poéticas. Salete ilustrou os seus com imagens bem sugestivas.

Quando trabalhávamos o tema erotismo, poemas antigos surgiram: Salomão (Cânticos dos Cânticos), Ovídio (A Poética do Sexo), Bocage, (Sonetos), Juan de La cruz (Eros Místico) e Apuleyo (Metamorfose).

Enfim, a poesia presente no início de cada milha náutica navegada em 2016 – bem ao estilo de Autran Dourado que dizia ler um poema todos os dias, antes de começar a escrever – preparou-nos o espírito para grandes viagens na criatividade e nas leituras que se sucederam.

Os primeiros desafios criativos foram a releitura de O Patinho Feio, de Christian Andersen; as escolhas difíceis, no limite do absurdo e do insuportável, A Escolha de Sofia, por exemplo, em que uma mãe se vê obrigada a escolher entre um filho e outro e a traição a uma amiga por ter se apaixonado pelo marido desta. Os marujos correram da parada da Escolha de Sofia, apenas Luzia Ferrão resolveu enfrentá-la e construiu texto muito interessante, Trindade, em que o personagem faz sua escolha. Salete Oliveira enfrentou o desafio da quebra de ética e escreveu Vizinhos. Apenas a faísca criativa de O Patinho Feio atingiu quase todos os viageiros e eles fizeram suas releituras a partir de narradores e personagens diferentes, pontos de vista, tempo e espaços narrativos diversos. Interessante exercício literário.

No eixo das leituras, a opção pelas viagens curtas deveu-se à certeza de que elas têm sobre os grandes percursos a vantagem da intensidade de efeito. Edgar Allan Poe decidido a falar sobre o seu processo criativo em A Filosofia da Composição, texto que lemos para dar suporte à nossa decisão, diz que:

Se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído.

Além do efeito, a narrativa curta permite-nos o retorno a ela, seguidas vezes, para apreensão das entrelinhas que escapuliram às primeiras vistas, para preenchimento de silêncios carregados de vozes que passaram quase despercebidas, deixando no ar suspeitas de murmúrios a serem identificados. São tantos os olhares que se debruçam sobre ela que cada qual vai fazer uma leitura e julgá-la do seu lugar, com sua visão de mundo, com as suas percepções muito particulares.

A segunda opção foi que a nossa viagem seria temática, procuraríamos seguir roteiro que nos permitisse dar conta das pegadas desse ser complexo que é o homem.

O primeiro tema escolhido foi O Duplo. Temática instigante e intrigante da qual muito se fala e pouco se entende. Na visão mitológica o rastro atravessa milhares de anos, presente em muitas civilizações do passado. Talvez a mais antiga versão seja a de Doppelganger, palavra germânica que significa “duplo frequentador” e refere-se a um fantasma ou aparição que lançou sombras e é uma réplica ou duplo de uma pessoa viva. Considerado um mau presságio, indício de azar ou sinal de morte. Em termos de Psicanálise, o mais próximo que se chega para explicar é o Unheimliche de Freud, uma instância onde algo pode ser familiar e ao mesmo tempo estranho, e essa ausência de certeza traz profundo desconforto. O Duplo traz à superfície questões ligadas à identificação, ao narcisismo e ao medo da morte. Na verdade à própria essência do ser humano.Na Literatura, desde sempre esteve presente. Entre os gregos, com Narciso apaixonando-se pelo seu reflexo na água; no Egito, com Ka, espírito duplo, tangível. Nos tempos mais recentes, inúmeros autores trabalharam o tema em seus livros, entre eles Dostoievski, Borges, Edgar Allan Poe, Carlos Fuentes, Robert Stevenson entre muitos outros.
William Wilson, de Poe, é uma referência para qualquer estudo literário sobre O Duplo, por isso, a nossa escolha recaiu sobre ele. Em Escrituras III, o tema foi contemplado sob a forma de cordel, resenhas e contos.

Seguindo a mesma trilha, veio a Loucura como tema, conscientes da importância, seriedade e beleza dele, pois o que seria de nós sem ela, diz Fernando Pessoa: Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria? Graham Greene, diferente de Fernando Pessoa, contrapõe aclamando as artes plásticas, a música, a literatura como forma de fazer sinthoma para salvar o homem da loucura.

Às vezes cogito como é que todos os que não escrevem, não compõem ou não pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico inerente à condição humana.

Foram nossas leituras a fábula de Jean de La Fontaine, O Amor e a Loucura, a pequena novela ou conto de Gogol, Diário de um Louco, os contos O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, O Coração Delator, ambos de Edgar Allan Poe e mais adiante o excelente e terrível conto de Nabokov, Signos e Símbolos. Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã não foi concluído, o que lamentamos pela excelente qualidade da obra.

Os viageiros não escreveram seus textos, quem sabe cautelosos com os riscos que o tema representa para aquele que resolve enfrentá-lo, verdadeiro campo minado. Quando ainda decidíamos que caminho seguir, Humor ou Loucura, apesar das dúvidas, venceu a última, para receio de alguns.

O Erotismo veio a seguir e provocou gargalhadas estrondosas durante o seu percurso, pela forma bela e irreverente como foi tratado por alguns clássicos da literatura e, também, pelos rubores e desconcertos dos viageiros em algumas passagens mais licenciosas. Tempos inesquecíveis dessa viagem, afastando temores e fantasmas deixados pelos temas anteriores.

Começamos com o Banquete (O amor e o Belo) de Platão, no trecho em que Aristófanes, dirigindo-se a Erixímaco, explica o poder do Amor, expondo a natureza humana e suas vicissitudes. E vai desenvolvendo a sua tese, dizendo que antes existiam três gêneros da humanidade, o homem, a mulher e um terceiro, andrógino aos dois. E por aí segue… Depois dele lemos A Metamorfose, de Lúcio Apuleio; A Poética do Sexo, de Ovídio; Cânticos dos Cânticos, de Salomão (atribuído, não questionamos a propriedade); Eros Místico, de Juan de La Cruz; Sonetos, do irreverente Bocage; De como Panurgo se apaixonou por uma grande dama de Paris, de Rabelais; A Sedução Criativa, de Giácomo Casanova e o Canto V, do Inferno, de Dante, onde estão aqueles que cometeram o pecado da Incontinência Sexual.

Depois veio o Marquês de Sade, impossível não considerá-lo, logo ele, representante maior do erotismo e da obscenidade. Do autor foram lidas duas obras,   O Marido que recebeu a Lição, texto levíssimo e bem humorado; De Monges e Virgens, de sua obra bem conhecida Justine, um texto em que a perversão está bem explícita. Finalmente, Bataille, em O Olho do Gato.
Em termos de erotismo na Literatura brasileira, embora existam grandiosas contribuições, escolhemos exatamente dois autores que não são conhecidos por essa temática: Clarice Lispector, nossa madrinha, em A Via Crucis do Corpo; e Carlos Drummond de Andrade, em A moça Mostrava a Coxa. A bem da verdade, após a sua morte, descobriu-se que ele era um mestre na literatura erótica. Vejamos o trecho a seguir do autor:

Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos
No momento certo, entre uivos e gritos litúrgicos,
Quando a língua é falo, e verbo a vulva,
E as aberturas do corpo, abismos lexicais onde se restaura
A face intemporal de Eros,
Na exaltação de erecta divindade
Em seus templos cavernames de desde o começo das eras
Quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a
inocência de viver.

O Erotismo é um campo vasto, apenas tocamos ao de leve por importantes literaturas dele, o caminho foi aberto para quem quiser segui-lo e, quem sabe, até mergulhar mais profundamente nas suas águas.

Da escritora portuguesa, Lídia Jorge, lemos o conto Marido que muito bem representa a servidão humana levada às últimas consequências. É uma narrativa tão forte que ao concluir a sua leitura todos ficaram mudos, olhando uns para os outros sem palavras. Quando o silêncio foi quebrado, todos quiseram falar ao mesmo tempo e por para fora o engasgo que os havia deixado sem fala. A autora, ao abordar um tema tão difícil e ao mesmo tempo tão presente em todas as épocas, utiliza, com maestria, a forma literária mais lírica e bela que se possa imaginar. Escrituras III – Manuscrito de Viagem apresenta duas resenhas sobre esse conto e dois textos ficcionais.

De Lígia Fagundes Telles, que bem deveria ter recebido o Nobel este ano, lemos a Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, conto apaixonante e que se insere na temática da obsessividade. Enredo simples, contado com perícia/perfeição literária, muito rico em possibilidades de releituras, com outros pontos de vista e de finalização.O desfecho fica em aberto para o leitor continuar. Jovem candidata a rainha de um baile encontra rapaz e se enamora dele. Daí em diante ela não lhe dá trégua, criando inúmeras possibilidades de encontro, sendo sempre rejeitada por ele. Trata-se de um autêntico caso de obsessão amorosa, em que a pessoa observa no outro um ideal de amor, de relacionamento que só existe para ela. Duas resenhas e duas outras versões da história, além de outro final, estão neste livro.

Menina a Caminho, de Raduan Nassar, foi outra obra prima literária que mobilizou os navegantes a fazerem suas resenhas, cada qual com um olhar diferente do olhar do outro, conforme pode se observar nos escritos dos viajeiros.Uma menina magricela anda pelas ruas, sem pressa, e testemunha várias cenas que a fazem transitar entre o mundo infantil e o mundo adulto.

A última leitura que fizemos foi de O Búfalo, de Clarice Lispector, conto que levou a muitas interpretações, mas não houve tempo para a produção de resenha.
E mais contos e poemas participam desse livro como resultado de novas viagens realizadas pelos navegantes desgarrados de cartas de navegação, ao sabor do vento e do cheiro das águas.

Outro eixo importante da Carta de Navegação 2016 foi a criação do Carrossel Literário, espaço para compartilhamento das obras favoritas dos viageiros, que culminou num processo de transferência entre os seus participantes, pela identificação de interesses e paixões literárias. Importantes e desconhecidos autores, por alguns viageiros, desfilaram no carrossel e foram lidos com avidez e interesse.

Do Romance Coletivo foi concluída a primeira parte de três. Não houve fôlego para dar conta das duas restantes, devendo voltar à programação do próximo ano.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem é um livro de contos, resenhas e poesias, formas de expressão literária que nós marujos encontramos para expressar o nosso sentir diante do mundo de fantasias que surgiram de nossas leituras dos textos aqui mencionados. Aos seus leitores, desejamos que também se lancem ao mar e façam suas próprias viagens.

Jaboatão dos Guararapes, 25 de novembro de 2016

O Duplo

OFICINA_DE CRIAÇÃO_LITERARIA. (3)Trabalhamos na Oficina a temática do duplo tão bem utilizada por Poe, Saramago, Borges, Dostoievsk e tantos outros mais. O grande mestre Poe ficou célebre com o conto William Wilson que nós lemos a propósito do tema. Este  conto é referência em todos os estudos sobre o duplo e é sobre ele que falarei aqui.

O conto traz a narrativa na primeira pessoa. O narrador, num tom confessional,  diz se chamar William Wilson, sugerindo que se trata de um pseudônimo, porque não gostaria de se comprometer revelando o próprio nome. A estrutura da narrativa é circular, começa pelo final quando o personagem aparentemente moribundo Próximo a atravessar o sombrio vale, tenta seduzir o leitor para que se penalize do seu drama ou talvez como uma forma de confissão diante da morte que se aproxima, lançando no seu coração  o que ele chama de influência benéfica de arrependimento e de paz :

Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!

Com esse apelo, não há quem resista. Fisgado, o leitor quer saber o que aconteceu para que o personagem se sinta tão desgraçado. Então, ele se torna avaro, diz que não vai contar todas “as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível  porque o que lhe aconteceu num período recente da vida extrapolou toda as dimensões da torpeza e que lhe seria quase impossível descrevê-las. E acrescenta, vou simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade, porque perverso sempre se considerou, os pais até haviam desistido dele por conta disso, abandonando-o ao seu livre arbítrio, senhor absoluto de todas as ações, numa idade em que poucas crianças pensam ainda em sair do regaço materno. Mas o que aconteceu estava fora dos seus limites até então de perversão. Às vezes ele chega a duvidar se tudo não fora um sonho.

William Wilson começa a trazer as suas lembranças intercaladas com pedidos de desculpas por estar falando tanto de certos cenários do seu passado como da sua casa, da aldeia, do colégio onde tudo começou porque essas recordações são o seu único prazer hoje, quando está mergulhado na desgraça.  Realmente,acho que ele foi muito longe nessas descrições e eu perguntei aos viageiros se eles não achavam que esses cenários poderiam ter sido mais econômicos, porque, na minha opinião, tanta descrição distraíam um pouco o leitor da tensão que inicialmente havia sido criada.Diferente de mim, eles acharam que os cenários tão detalhados criavam a atmosfera necessária ao tom misterioso da narrativa. Penso um pouco diferente, como boa seguidora de Poe e Charles Baudelaire quando eles falam  do conto e da sua imensa vantagem sobre os outros tipos de narrativa, face à sua brevidade que acrescenta muito à intensidade do efeito. Apresentado como uma leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, o conto prevalece sobre o romance pela imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego. 

Após algumas páginas descritivas do cenário da escola onde ele estudava e exercia certa liderança entre os colegas, surge o momento onde tudo começou: alguém no grupo não lhe dá o lugar distinto e ascendente que os outros dão. É quando ele se dá conta de que aquele aluno sem ter qualquer parentesco com ele tinha o mesmo nome de batismo e de família. Aquela rebelião o incomodava, até porque ele não

podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo, como uma prova de verdadeira superioridade, porque, pela minha parte, não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua altura.

Embora ninguém parecesse perceber esse duelo que era travado, numa cegueira inexplicável aos olhos dele, e nem William, o seu duplo, demonstrasse qualquer ambição, mais parecendo que o seu objetivo consistia apenas em contradizê-lo, assustá-lo, atormentá-lo, mesmo assim não deixou de notar com certo espanto que o rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade, os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo.

Este tipo de duplo que Cacilda muito bem chama de duplo perseguidor, é o que está mais presente nas narrativas literárias e representam a luta feroz que o indivíduo trava com os seus desejos mais profundos que ameaçam o ser social que ele julga ser. Angústia alucinante resultado dessa luta ferrenha entre o chamado eu-ideal e o ideal do eu. A fronteira entre realidade e fantasia parece se dissolver e esse encontro com  a própria imagem resulta na fantasia de um duplo como alguém estranho que me olha e me ameaça; Eu sou objeto de um outro..Eu vejo a mim como um estranho que vem de fora de mim.  

Alguns viageiros escreveram para expressar a sua visão do duplo. Cacilda Portela, por exemplo, fez algumas reflexões sobre o duplo de Edgard Allain Poe e de Dostoievski e apresentou-as sob o título de Notas:

39_rackham_poe_williamwilson Algumas Notas sobre William Wilson (Edgar Allan Poe)

Cacilda Portela

William Wilson substitui o próprio eu (self) por um estranho. Visão angustiante de si mesmo como outro. Resultado de um lento  processo  de mútua aproximação e reconhecimento no outro até alcançar sua identificação. Uma relação entre o ser e a consciência.

O duplo surge para William Wilson como recusa de uma angústia existencial  para que possa conviver com o benefício e a dificuldade. Transforma a vida num turbilhão de sentimentos e ações desencontradas. É o duplo como perseguidor, vivendo no pesadelo, na alucinação, nos erros e nos horrores. Metáfora da consciência que atormenta, persegue e aterroriza com sua voz sussurrante, com seus conselhos fraternais e com sua  elevação moral.

Escravo de circunstancias superiores ao controle humano, William Wilson se intimida com o risco de ver seu Ego empobrecido e tornar-se inadaptado ao mundo. Na impossibilidade de exorcizar o outro, o jeito é assimilá-lo para que deixe de ser outro. Uma decisão firme de não mais ser escravizado. Perde a luta para si mesmo.

downloadAlgumas Notas sobre O Duplo (Dostoiévski)

Cacilda Portela

“A duplicidade é o traço mais comum das pessoas… não inteiramente comuns”. É a consciência intensa… a exigência de um dever moral perante si mesma e a humanidade”. Dostoiévsky.

Golyádkin substitui o eu self por um outro Godyádkin estranho. Uma visão angustiante como o outro, que nele se reconhece na alucinação, na luta entre sonhos e realidade, ambições e humildade, desejos e fracassos.

Funcionário pobre e sem brilho externo, e com um profundo sentimento de solidão e desordenados devaneios, busca um outro “eu” poderoso para dar sentido a sua própria identidade. Como Golyádkin segundo, ele revela todos os aspectos sombrios de sua consciência, o que acaba sento fatal para o senhor Golyádkin primeiro.

Acredita, desesperado, ter inimigos cruéis que juraram arruiná-lo… Os inimigos de sempre eram o próprio senhor Golyádkin.  O duplo adversário que desafia ao combate o próprio Golyádkin é o mesmo que o sr. Golyádkin criara em seu imaginário doentio para realizar todos os seus sonhos.

Golyádkin transforma a vida num turbilhão de sentimentos desencontrados. Caminha entre o bem e o mal e é o emblema moral da consciência que o levou até a loucura.

Salomé Barros, nossa poeta cordelista, também escreveu o seu duplo com muita propriedade e esmero.

 

O QUE FOR SERÁ

Salomé Barros

Sempre fui independente
Não dependo de ninguém
Jurei, berrei de pé junto
Que jamais serei refém
Minha posição é firme
E alguém que não confirme
Não me trate com desdém

De uns tempos para cá
Tenho ficado assustado
Não mudei de opinião
Mas estou desesperado
Não sei bem como explicar
É um fato singular
Que me faz desconfiado

Faço tudo direitinho
Como manda o figurino
Jamais fui considerado
Mentiroso ou libertino
Mas com essa novidade
Aumenta a ansiedade
E me leva ao desatino

Tem um outro me instigando
Dia e noite sem parar
Já estou me sufocando
E não consigo afastar
Me chama o tempo inteiro
Parece um bisbilhoteiro
Que veio me atanazar

Pra piorar ele exige
Uma reciprocidade
Ameaçando instalar
Um clima de inimizade
Entre a cruz e a espada
Dou resposta salteada
E preservo a identidade

Foi chegando de mansinho
Assim sem querer, querendo
Aos poucos foi me cercando
A insistência crescendo
E eu anestesiado
Fui ficando abobalhado
E sem querer fui cedendo

O mistério desse encosto
É mesmo de arrepiar
Tem um raio de ação
Que chega a qualquer lugar
Seja aqui ou no Japão
Transmite a informação
Na hora, sem reclamar

E me vendo sem saída
Fiquei meio acomodado
Parece que esse outro
Está no corpo moldado
Dorme e acorda comigo
Acho que já é castigo
Será que estou viciado?

Fiz então uma pesquisa
Passando a observar
Pessoas que encontrava
Na rua, em qualquer lugar
E todas, sem exceção
Tem a mesma obsessão
Bem difícil de largar

E foi assim que o outro
Ganhou popularidade
E implantou nas pessoas
Um quê de dubiedade
Se para uns é progresso
Pra outros é retrocesso
E interfere na amizade

Também nas artes plásticas a figura do duplo é muito comum. Morreu esta semana Tunga, pernambucano, artista plástico da maior importância. Fizemos uma pequena homenagem a esse grande mestre que partiu tão cedo ainda na sua capacidade criativa. Além de lermos um pouco da sua biografia, falar de Inhotim seu espaço artístico, vimos pela internet algumas “instaurações” como ele chamava certas obras suas. Escolhemos para deixar aqui nesse blog as “Xifópagas Capilares” que trazem a problemática do duplo.

moledão xifópagas2

O Gênio do Mal

Ontem, 17 de fevereiro de 2016, recomeçamos os trabalhos da Oficina. A nossa carta de navegação estava pronta  para iniciarmos a viagem. Os viageiros presentes –  éramos dez, dois não puderam participar, um porque não havia chegado ainda de viagem (Luzia), outro (Paulo) porque iria fazer parte de um mesa de defesa de tese de mestrado – ansiosos pelas mudanças que havíamos feito nos nossos roteiros, Levei um texto sobre o Conto, extraído do Prefácio de Charles Baudelaire ao livro de Edgard Allan Poe Contos de Imaginação e Mistério, para reforçar a importância dele entre os gêneros literários e tranquilizar uma viageira que teme ser a viagem curta não tão admirável quanto os longos cruzeiros que o romance permite. A opção pelas narrativas mais curtas este ano deveu-se à necessidade de reforçar o crítico literário que existe em cada um de nós, de certa forma comprometido pelas leituras longas quando o interesse pelo que está sendo contado pelo narrador prevalece sobre o como está sendo contado, ansiosos que ficamos, como Nabokov disse, pelo e depois? E depois?

EXTRAÍDO DO PREFACIO DE CHARLES BAUDELAIRE AO LIVRO DE EDGAR ALLAN POE CONTOS DE IMAGINAÇÃO E DE MISTÉRIO

 SOBRE O CONTO

Entre os domínios literários onde a imaginação pode obter os resultados mais curiosos, pode colher tesouros, não os mais ricos e preciosos (esses pertencem à poesia), mas os mais numerosos e variados, está um particularmente querido a Poe, o conto. Ele tem sobre o romance de grandes proporções a imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, deixa no espírito uma marca muito mais poderosa que uma leitura intermitente, muitas vezes interrompida por problemas de negócios e preocupações com interesses mundanos. A unidade da impressão, a totalidade do efeito é uma vantagem imensa que pode dar a esse gênero de composição uma superioridade muito especial, no sentido de que um conto muito curto (o que é, sem dúvida, um defeito) seja ainda melhor que um conto muito extenso. O artista, se é hábil, não acomodará seus pensamentos aos incidentes; mas, tendo concebido deliberadamente, a seu bel-prazer, um efeito a produzir, inventará os incidentes, arranjará os eventos mais apropriados para conduzir ao efeito desejado. Se a primeira frase não for escrita de forma a preparar a impressão final, a obra é deficiente desde o começo. Ao longo da composição não se deve soltar uma única palavra que não seja uma intenção, que não tenda, direta ou indiretamente, a percorrer o plano traçado.

Há um ponto no qual o conto é superior até mesmo ao poema. O ritmo é necessário ao desenvolvimento da ideia de beleza, que é o maior e mais nobre objetivo do poema. Ora, os artifícios do ritmo são um obstáculo insuperável ao desenvolvimento minucioso de pensamentos e expressões que tenham por objetivo a verdade. Pois a verdade pode muitas vezes ser a meta do conto, e o raciocínio a melhor ferramenta para a construção de um conto perfeito. Eis a razão pela qual esse gênero de composição, que não é tratado com tanta elevação quanto a poesia pura, pode fornecer produtos mais variados e mais acessíveis ao gosto do leitor comum. Além disso, o contista tem à sua disposição uma enorme quantidade de tons, de nuances de linguagem – o tom reflexivo, o sarcástico, o humorístico, que repudia a poesia – e que são como dissonâncias, ultrajes à ideia de beleza pura. E é pelo mesmo motivo que o escritor que busca uma única meta de beleza em um conto trabalha em grande desvantagem, sendo privado do instrumento mais útil, o ritmo. Sei que, em todas as literaturas, foram feitos esforços, muitas vezes felizes, para criar contos puramente poéticos; o próprio Edgar Poe fez alguns muito bonitos. Mas são lutas e esforços que servem apenas para demonstrar a força dos verdadeiros recursos adapta­dos às metas correspondentes; não seria arriscado afirmar que para alguns autores, os maiores nos quais podemos pensar, essas tentações heroicas viessem de um desespero.

A saudação poética foi com Gênios do Mal, de Charles Baudelaire que tão bem já havia nos falado sobre o conto. A escolha do poema, entre tantos outros incríveis do poeta, se deu principalmente porque era assim que ele era chamado “Gênio do Mal”  devido ao seu comportamento transgressor e por envolver nas suas narrativas elementos do mal. Charles Baudelaire ficou sem pai muito cedo, aos seis anos de idade, e a mãe casou com um militar de carreira ascendente (tornou-se general, senador, embaixador)  que se incompatibilizou com o enteado de prima. Nada mais agressivo ao gênio poético e livre do garoto do que a rígida disciplina militar. Cansado das contendas, o padrasto exportou-o para a Índia na esperança de ver-se livro do rapaz. Baudelaire não iria deixá-lo sossegado assim tão fácil. Encontrou uma forma de punir o padrasto desembarcando antes de chegar ao seu destino, voltando à Paris livre do jugo doméstico,  lançando-se na boemia, drogas e todo tipo de excessos. Com a maioridade conseguiu tomar posse da herança deixada pelo pai e começou a lapidar a fortuna até sua mãe interditá-lo na justiça, provando a sua prodigalidade e impondo-lhe um tutor. Menos rico, porém tão livre quanto antes, Charles Baudelaire continuou a sua vida desregrada no mundo das artes, da literatura. Em 1857, com trinta e seis anos de idade, publica a sua obra prima Flores do Mal.  A Justiça nem sempre sensível às artes, preocupada que sempre esteve em manter a ordem e os costumes, por mais ultrapassados e medíocres que possam sugerir, condenou o poeta e a editora que o publicou a pagar multas precisamente por causa de seis (6) poemas entre os cem  (100) do livro por atentarem à moral. Baudelaire não se fez de rogado, fez novos poemas, ainda mais belos, segundo ele, e trocou-os. O livro foi liberado. Com a sua morte, dez anos depois, o livro foi publicado com os poemas originais.

Baudelaire, apesar de transgressor, tentou acomodar-se ao status quo  da sociedade parisiense candidatando-se à Academia Francesa. Não há uma opinião formada sobre as razões que o levaram a fazer isso, dizem que para agradar a mãe e ela poder soltar mais dinheiro, ou porque pretendia resgatar a estima do publico devido às sérias críticas da burguesia à sua obra. Talvez o patinho feio quisesse o seu dia de cisne, quem sabe.

Charles Baudelaire é considerado o precursor do Simbolismo, além de fundador da tradição moderna em poesia, ao lado de Walt Whitman. Escreveu poesias e ensaios e as suas obras teóricas influenciaram além da literatura, as artes plásticas do século XIX. Traduziu vários volumes da obra de Edgard Allan Poe e os prefácios que escreveu tornaram-se peças teóricas de referência para a literatura e artes plásticas. Charles Baudelaire morreu jovem ainda, aos quarenta e seis anos, de sífilis, após sofrer sérios ataques nervosos. Os seus biógrafos dizem que morreu nos braços da mãe, com quem morava após a morte do padrasto.

Segundo o poeta, Edgard Alan Poe achava que não era poeta quem não soubesse tocar o intangível. Baudelaire sabia-o muito bem, mesmo quando escreve um poema como este Gênio do Mal que revela uma dor de cotovelo bem tangível. Para Baudelaire Genus irritabile vatum! Que os poetas (vamos utilizar a palavra em seu sentido mais extenso, compreendendo todos os artistas) sejam uma raça irritável é bem sabido; mas o porquê  não me parece tão claro. Bendita irritação que o fez criar poemas que atravessam séculos.

Imagem CB

Gênio do Mal

Charles Baudelaire

Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”
Tradução de Delfim Guimarães  – Obtido em Wikisource

Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema ou narrativa traduzidos para o português com a obra original. Se na ficção é importante porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores e empolgados afastam-se do texto, na poesia onde a sonoridade, muitas vezes a rima, a subjetividade, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução é desviar-se substancialmente do autor e aproximar-se do tradutor, havendo perdas substanciais. Eu e Salete tentamos encontrar este poema em Francês e quase varamos uma noite completamente em vão. Não conhecendo suficiente a língua para uma busca mais rigorosa desisti de prosseguir by myself e não ousava insistir com Salete que já havia dedicado bom tempo para encontrá-lo. Coube à nossa viageira Adelaide Câmara a tarefa hercúlea e ela a fez com uma dedicação e determinação admirável. Apoiada pelo marido fez o périplo por quase 1000 páginas da obra de Baudelaire, lendo one by one até encontrar o poema em Francês e o remeter para mim dizendo Segue o poema que “não existe existindo” cuja tradução superparafraseada por Delfim Guimarães me fez vasculhar céus e terras virtuais.. Sim, eles chegaram a duvidar que existisse, que talvez fosse um daqueles casos em que se atribui a obra a um escritor famoso e depois se descobre que não é de sua autoria e sim de um anônimo. Com esse título Gênio do Mal  ele não existe, mas é de Baudelaire e está em Flores do Mal. Segundo Adelaide, a ligação amorosa com a judia Sarah, dita Louchette,  que lhe inspirou um poema truculento e, em certas passagens, poderosamente original (“Não tenho por amante senão…”), bem como o poema XXV (que é este chamado de Gênio do Mal, aqui)de As flores do mal .

À Adelaide, aquela que segunda a própria, nunca se imaginou”fuçadoura” de Baudelaire,  e Câmara,  os nossos agradecimentos maiores.

Eis o poema:

Tu mettrais l’univers entier dans ta ruelle,

Femme impure! Le’ennui rend ton âme cruelle.

Pour exercer tes dents à ce jeu singulier,

Il te faut chaque jour un coeur au râtelier.

Tes yeux, illuminés ainsi que des boutiques

Et des ifs flamboyants dans les fêtes publiques,

Usent insolemment d’un pouvoir emprunté,

Sans connaître jamais la loi de leur beauté.

Machine aveugle et sourde, en cruautés, féconde!

Salutaire instrument, buveur du sang du monde,

Comment n’as-tu pas honte et comment n’as-tu pas

Devant tous les miroirs vu pâlir tes appas?

La grandeur de ce mal où tu te crois savante

Ne t’a donc jamais fait reculer d’épouvante,

Quand la nature, grande en ses desseins cachés,

De toi se sert, ô femme, ô reine des péchés,

— De toi, vil animal, — pour pétrir un génie?

O fangeuse grandeur! sublime ignominie!

A tradução de Ivan Junqueira enviada por Adelaide:

Porias o universo inteiro em teu bordel,

Mulher impura! O tédio é que te torna cruel

Para teus dentes neste jogo exercitar,

A cada dia um coração tens que sangrar.

Teus olhos, cuja luz recorda a dos lampejos

E dos rútilos teixos que ardem nos festejos,

Exibem arrogantes uma vã nobreza,

Sem conhecer jamais a lei de sua beleza.

Ó monstro cego e surdo, em cruezas fecundo!

10 Salutar instrumento, vampiro do mundo,

Como não te envergonhas ou não vês sequer

Murchar no espelho teu fascínio de mulher?

A grandeza do mal de que crês saber tanto

Não te obriga jamais a vacilar de espanto

Quando a mãe natureza, em desígnios velados,

Recorre a ti, mulher, ó deusa dos pecados

— A ti, vil animal —, para um gênio forjar?

Ó lodosa grandeza! Ó desonra exemplar!

 Outro poema inspirado em Sarah, La Louchette

Sarah la louchette

Je n’ai pas pour maîtresse une lionne illustre :
La gueuse de mon âme, emprunte tout son lustre ;
Invisible aux regards de l’univers moqueur,
Sa beauté ne fleurit que dans mon triste coeur.

Pour avoir des souliers elle a vendu son âme.
Mais le bon Dieu rirait si, près de cette infâme,
Je tranchais du Tartufe et singeais la hauteur,
Moi qui vends ma pensée et qui veux être auteur.

Vice beaucoup plus grave, elle porte perruque.
Tous ses beaux cheveux noirs ont fui sa blanche nuque ;
Ce qui n’empêche pas les baisers amoureux
De pleuvoir sur son front plus pelé qu’un lépreux.

Elle louche, et l’effet de ce regard étrange
Qu’ombragent des cils noirs plus longs que ceux d’un ange,
Est tel que tous les yeux pour qui l’on s’est damné
Ne valent pas pour moi son oeil juif et cerné.

Elle n’a que vingt ans, la gorge déjà basse
Pend de chaque côté comme une calebasse,
Et pourtant, me traînant chaque nuit sur son corps,
Ainsi qu’un nouveau-né, je la tête et la mords,

Et bien qu’elle n’ait pas souvent même une obole
Pour se frotter la chair et pour s’oindre l’épaule,
Je la lèche en silence avec plus de ferveur
Que Madeleine en feu les deux pieds du Sauveur.

La pauvre créature, au plaisir essoufflée,
A de rauques hoquets la poitrine gonflée,
Et je devine au bruit de son souffle brutal
Qu’elle a souvent mordu le pain de l’hôpital.

Ses grands yeux inquiets, durant la nuit cruelle,
Croient voir deux autres yeux au fond de la ruelle,
Car, ayant trop ouvert son coeur à tous venants,
Elle a peur sans lumière et croit aux revenants.

Ce qui fait que de suif elle use plus de livres
Qu’un vieux savant couché jour et nuit sur ses livres,
Et redoute bien moins la faim et ses tourments
Que l’apparition de ses défunts amants.

Si vous la rencontrez, bizarrement parée,
Se faufilant, au coin d’une rue égarée,
Et la tête et l’oeil bas comme un pigeon blessé,
Traînant dans les ruisseaux un talon déchaussé,

Messieurs, ne crachez pas de jurons ni d’ordure
Au visage fardé de cette pauvre impure
Que déesse Famine a par un soir d’hiver,
Contrainte à relever ses jupons en plein air.

Cette bohème-là, c’est mon tout, ma richesse,
Ma perle, mon bijou, ma reine, ma duchesse,
Celle qui m’a bercé sur son giron vainqueur,
Et qui dans ses deux mains a réchauffé mon coeur.

PROGRAMAÇÃO 2016

Imagem BrasilEscola

Imagem BrasilEscola

A paixão pelas palavras

O eu não é senhor em sua própria casa – Freud

Data de início – 17/02/2016

Período: 2016

Horário – `Quartas-feiras de 14:00  às 16:00

Local; Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise – Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 –  Recife- PE

Contatos –Fone: 3265-5705 (Luciene). Blog: www.traco-freudiano.org/blog                                 Email: oficinaclaricelispector@bol.com.br

 A Oficina pretende em  2016 manter o foco na complexidade dos sentimentos humanos. Ela deverá possibilitar aos seus participantes viagens através da poesia, compartilhamentos de obras literárias e exercícios de desbloqueio criativo para desenvolver habilidade na escrita. Também serão realizadas leituras críticas de contos clássicos, com especial atenção para as entrelinhas e silêncios narrativos, visando potencializar o crítico literário inerente a cada um. Os participantes poderão participar da construção coletiva de um romance iniciado em 2015, como autor ou crítico.

Mais especifidades:

  • · Contato com a linguagem poética através da leitura de poesia;
  • · Compartilhamento de obras literárias sob a forma de empréstimo;
  • · Estímulo ao fazer literário diferente, fugindo do convencional, da mesmice;
  • · Descobrir habilidades na escrita;
  • · Facilitar a expressão na escrita;
  • · Fortalecer o estilo próprio de escrita;
  •  ·Exercícios intensos de escrita criativa a partir de linhas de história, jogos de     palavras, associações livres, releituras de narrativas clássicas, mudanças de   ponto de vista, alterações de cenário, tempos de narrativas, diálogos;
  • · Leituras críticas, desconstruindo histórias aparentes, possibilitando a               reconstrução a partir dos não ditos, das metáforas;
  •   Fortalecimento do senso crítico a partir da leitura particular e dos                 instrumentos de análise literária;
  •  Participar como crítico ou autor da construção coletiva do romance iniciado  em 2015;
  • Postagens no blog da Oficina da produção dos participantes.

Como vai funcionar:

Trabalhos em grupo e individual de escrita, utilizando papel e caneta, computador ou tablet. Leituras de poemas e contos no computador, tablet, celular ou impressos.

Possíveis participantes:

Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelas emoções através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras formando novos sentidos; potenciais escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e ler.

Bibliografia:

Carmelo, Luís .Manual de Escrita Criativa – V.II – Portugal,2007
D’Onofrio, Salvatore – Forma e Sentido do Texto Literário – Atica, São Paulo, 2007
Goldberg, Natalie – Escrevendo com a Alma – Martins Fontes, São Paulo, 2008
Kohan, Silvia Adela – Os Segredos da Criatividade –  Gutenberg, São Paulo, 2009
Lodge, David.A Arte d a Ficção- L&PM, Porto Alegre, 2009
Llosa, Mario Vargas – Cartas a um Jovem Escritor
Moisés, Massaud– A criação Literária –Cultrix, São Paulo
Prose, Francine – Para ler como um escritor,
Wood, James. Como Funciona a Ficção – COSACNAIFY,São Paulo, 2011

Sugestões de bibliografia para Contos:

Casares, Adolfo Bioy, Gomes, Jorge Luis -e Silvina – Antologia da Literatura Fantástica, COSACNAIFY, São Paulo.
Costa, Flávio Moreira – Os Melhores Contos de Loucura – Ediouro, 2007
Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, Ediouro, 2001
Os 100 Melhores Contos de Erotismo da Literatura Universal, Ediouro
Os Melhores Contos da América Latina, Agir, 2008
Gomide, Bruno Barreto (Org.) – Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), Ed.34, São Paulo.
Mansfield, Katherine – K. Mansfield, COSACNAIFY, São Paulo
Poe, Edgar Allan – Contos de Imaginação e Mistério, Tordesilhas, 2012
Renner, Rolf G e Backes, Marcelo – Escombros e Caprichos – O Melhor do Conto Alemão no Século 20
Wilde, Oscar – As Obras Primas – Ediouro, 2000
Woolf, Virgínia – V. Woolf, COSACNAIFY, Sâo Paulo
Coordenação:

Lourdes Rodrigues publicou dois livros de contos: Bandeiras Dilaceradas e Situação-Limite pela Bagaço.Participou de algumas Antologias de Contos da UBE, de Benito Araújo e da Oficina de Raimundo Carrero, da qual fez parte por mais de 10 anos. Organizou e prefaciou o livro Escrituras, publicação que contemplou os textos literários dos participantes da Oficina relativos ao período 2006/2009.  Organizou, prefaciou e participou com contos e ensaio de Escrituras II, que abrangeu os trabalhos literários dos oficineiros de 2010 a 2013. Coautora de A Criação Literária à Luz do livro Incidentes em um Ano Bissexto de Luiz-Olintho Telles da Silva. Outra importante área de seu interesse sempre foi a Psicanálise, tornando-se membro do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise em 2003, onde participa de estudos de Arte e Psicanálise e de Literatura. Desde 2006 coordena no Traço  a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, primeiro dividindo o leme com outros colegas viageiros dos mares das palavras, depois num trabalho coletivo com os seus integrantes. Decorrente desse vínculo com o Traço foi coautora do livro rodopiano e publicou vários ensaios na Revista Veredas, participando há dois anos do conselho editorial da Revista.

Os céus estão escuros, mas as estrelas permanecerão.

Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por que?

            *MIKHAIL BULGAKOV, O exercito branco

Navegantes,

é chegada a hora de aportarmos após mais uma longa viagem pelo vasto e misterioso mundo das letras.

Longa e difícil travessia…

Cheguei a temer que não chegaríamos ao seu término, tantos mares revoltos, tantas tempestades. Manteve-nos na rota o fato de não sermos apenas marujos de navegação de cabotagem. A audácia da navegação por mares estrangeiros deu-nos a couraça para seguir em frente sem largar o leme, movidos pela certeza de que as estrelas continuavam lá encobertas pelas sombras da noite que atravessávamos, e se fechássemos ouvidos para os cantos das sereias e erguêssemos olhos para os céus, os nossos marujos-estrelas Júnior e Adelaide certamente continuariam ali para nos iluminar.Como foi difícil essa jornada sem vocês, minhas estrelas guias!

Outros viageiros atracaram para dar à luz vida nova, como a nossa viageira Diva Helena, ou para ajudar a sua cria a fazer isso, feito Luzia. Não guerreamos para ter Diva de volta, o seu Páris a merece bem mais do que nós, mas guardamos o seu lugar com muito carinho, para quando ele lhe permitir voltar. Luzia está chegando ao fim da sua linda missão, outras viagens quem sabe já contaremos com ela. A maruja Teresa partiu num foguete para curtir novo amor nas serras das Minas Gerais, e cá ficamos a tocar as nossas cítaras para alegrar Eros e assim ele manter para sempre a sua felicidade. A navegante Monica está voltada para parir seu filho-livro e nós reverenciamos muito esse momento, enquanto aguardamos seu retorno.

Alguns viageiros não fizeram boa viagem pela saúde abalada, o coração triste e nós ficamos mal por isso, mas concentraremos sempre as nossas energias, os nossos pensamentos para eles, para que voltem aos seus melhores dias com a força do motor de popa do nosso amor.Salve, Teresinha! Salve, César!

Alguns partiram silenciosamente, quem sabe cansados do cheiro de maresia, quem sabe ansiosos pelo cheiro de casa, mesmo respeitando tais decisões, guardamos a esperança de um dia eles voltarem à nossa embarcação.

Apesar do peso esmagador das ausências, seguimos em frente porque os marujos que ficaram são muito bons navegantes, salve Salete, Salomé, Eleta, Paulo Tadeu, Cacilda, Teresinha,Cesar e eu, não arrefecemos o amor e a vibração pela viagem.
E foi uma longa e profícua jornada.

42691740A carta de navegação amarrotada tantas vezes pelo seu traçado incerto levou-nos à Irlanda com Os Mortos, de James Joyce. O cenário da narrativa é uma ceia de Natal, o personagem principal, Gabriel Conroy deixa transparecer em todos os seus diálogos e fluxos de pensamentos grande desencanto com a sociedade, total estranhamento diante das pessoas e dele próprio. O conflito maior da trama acontece quando ele e a esposa já se encontram no hotel e Gabriel vê fracassada a sua expectativa de uma noite de amor, diante da revelação de Gretta de que a música que ela ouvira no final da festa trouxera-lhe lembranças de um jovem que amou na adolescência e que morrera por sua causa ao se deixar ficar ao relento numa noite de chuva porque ela iria partir no outro dia e ele já não queria mais viver sem ela. Uma semana depois da sua partida, chega a notícia de que ele morrera. Gabriel atordoado com a força dessa revelação e com a dureza do desencontro para uma noite tão esperada, dirige-se à janela em silêncio. A magia da neve caindo intensamente, as rememorações de momentos excitantes do casal o haviam feito antecipar noite luxuriante, sequer a luz das velas ele permitira que o empregado do hotel trouxesse, deixando apenas as luzes dos lampiões da rua quebrarem a escuridão da madrugada. Todo o seu desejo ardente se fora com a presença da lembrança daquele jovem morto.

Mais tarde, enquanto a esposa dorme, ele continua a refletir, e as lágrimas começam a se acumular mais densamente em seus olhos e ele pensa estar vendo a silhueta do jovem embaixo de uma árvore, numa das cenas mais belas do conto:

Outras silhuetas estavam próximas. Sua alma havia se aproximado daquela região por onde vagam os vastos anfitriões dos mortos. (…) A neve caía, também, sobre todas as partes do cemitério solitário na montanha onde Michel Furey estava enterrado. Ela espalhava-se densamente sobre as cruzes tortas e os túmulos, as pontas do pequeno portão, os espinhos estéreis, A alma de Gabriel desmaiou devagar enquanto ele ouvia a neve caindo levemente sobre todo o universo e levemente caindo, como a descida ao seu fim derradeiro, sobre todos os vivos e os mortos.

Os Mortos, embora faça parte da coletânea de contos do livro Dublinenses, é um conto que devido a sua grandeza tem sido publicado de forma isolada por grandes editoras. Assistimos na Oficina o filme baseado na obra do cineasta John Huston, Os Vivos e os Mortos, uma espécie de homenagem a James Joyce feita por ele que era profundo admirador seu.

42235675Também fizemos a leitura de outra obra da língua inglesa, agora do norte americano naturalizado inglês, Henry James., A Lição do Mestre. Paul Over, escritor iniciante, cultiva profunda admiração por Henry St. George, escritor renomado, cujas obras recentes vêm revelando perda de qualidade literária. O triângulo se forma com Marian, jovem apaixonada por Literatura, que fala com muito entusiasmo do livro de Paul Over a St. James que, embora casado, parece estar apaixonado pela jovem, que parece estar começando a se envolver com Paul Over, tudo muito sugerido, nada muito explícito. St. James convida Paul Over à sua casa e após elogiar profundamente a sua escrita, vaticina futuro brilhante para ele na literatura desde que se dedique inteiramente à sua arte. Eis um trecho da excelente resenha postada no blog por Cacilda Portela, viageira e resenhista de primeira linha; que dá a dimensão da lição do mestre:

Depois de ter lido uma pequena parte da obra do jovem escritor, St. George vai até ele e afirma que o jovem é mesmo surpreendentemente bom; e que precisa realmente manter o nível como escritor. Confessa ao jovem seus sentimentos, medos e anseios e lhe apresenta sua Lição de Mestre: “…Não se transforme  no que me transformei na velhice: o exemplo de quem cultuou os deuses do mercado, dinheiro, luxo, a sociedade, a mulher, os filhos… A!h! as coisas mesquinhas que nos obrigam a fazer. Uma perdição do ponto de vista da arte. O artista nada tem a ver com o relativo, deve ter afinidade apenas com o absoluto. Não poderá fazer alguma coisa realmente boa sem sacrifício.  Fazer algo, e algo que seja divino é a única coisa em que o artista tem que pensar”. Ou desistir da ideia de perfeição. Paul responde “não; eu sou um artista – não há como evitar”.

Paul Over após ouvir o seu pai-poético não titubeia, determinado pela arte, assume a solidão e parte da Inglaterra, deixando Marian sem muitas explicações. Meses depois, toma conhecimento da morte da esposa de St. George, a quem conhecera no mesmo dia em que fora apresentado a Marian. Quando volta, toma conhecimento de que St. George e Marian estavam de casamento marcado. Ele começa a se dar conta de que foi alvo de um golpe de mestre do seu pai-poético..

Montaigne-Os-ensaiosEntre essas duas obras foram lidos Os Ensaios de Montaigne, motivados pelo interesse de conhecer o mestre desse modelo de escrita. Muito bons ensaios foram lidos, entre eles, A força de Imaginação, Solidão e Sobre os Canibais. A publicação da Penguin com tradução e notas de Rosa Freire D’Aguiar está muito boa e se baseia na edição póstuma de 1595, a mesma que serviu de base para a Gallimard publicar em 2007. Além de divertidos pela forma como Montaigne apresenta as suas teses “muito pessoais”, são textos reflexivos que permitem viajar pelo mundo das ideias e ideais com muito prazer. O mais importante, contudo, foi a desmistificação do ensaio enquanto modelo acadêmico. O ensaio de Montaigne não tem compromisso com a verdade, a cientificidade, o saber intelectual ou a historicidade. Para ele é apenas a oportunidade de expressar seus pensamento sobre o assunto que lhe interessa e estimula.

download (1)A terceira obra que foi lida este ano, Os Moedeiros Falsos, de André Gide, datada dos anos 20, época da efervescência nas artes, na literatura, na cultura em geral traz muitas inovações tanto em termos de técnicas como de forma. Mais uma vez eu recorro a Cacilda Portela que a resenhou para dizer que o romance traz o contraponto entre o mundo real e a representação que é feita dele, cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo e do outro. “E o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.
Parece um romance experimental onde o novo e o velho convivem harmoniosamente. Fazendo uso de recursos modernistas, o mise–en-abyme, termo utilizado pela primeira vez por André Gide para explicar a narrativa dentro da narrativa (narrativas encaixadas). O leitor se perde algumas vezes, não sabe qual dos romances está lendo, se o de Édouard ou se a narrativa que o envolve, duas histórias totalmente ligadas entre si, uma contendo a outra. São cartas, diários, ensaios, monólogos e diálogos diretos e indiretos que tornam a leitura senão excitante porque os personagens não criam cenas fortes, à exceção da cena da morte de Bóris, mas certamente rica em termos do aprendizado do fazer literário. Verdadeiro caleidoscópio ou quebra cabeça com uma quantidade enorme de personagens que dão voltas às nossas cabeças para construirmos suas árvores genealógicas, tarefa que nos foi facilitada por Adelaide que as encontrou na web e foram redesenhadas por Mônica.

O narrador de Os Moedeiros Falsos ora posa de onisciente, invadindo os pensamentos e sentimentos mais profundos dos personagens, ora é apenas um observador inocente, dizendo não saber sequer se o personagem jantou ou não. Esse primeiro narrador, sempre na terceira pessoa, quebra o pacto de confiança com o leitor, porque não lhe dá certeza de nada. O segundo, ora na primeira pessoa do singular, ora na primeira pessoa do plural tenta criar um relação com o leitor baseada na cumplicidade, como se ambos estivessem vendo aquela história juntos pela primeira vez e está tão surpreso quanto ele com o desenrolar da história. Ele não posa de senhor sabe tudo, pelo contrário, declara muito ousadamente que sequer sabe se o personagem jantou ou não aquela noite, entre muitas outras dúvidas. Aqui e ali ele toma partido, aparece, se compromete com algumas críticas, cria cumplicidades ao fazer afirmações usando com desenvoltura o nós.

André Gide escreveu um diário para ajudá-lo na escrita de Os Moedeiros, para ir amarrando e desamarrando as linhas e a tal ponto foi importante essa escrita que ele chegou a considerar que estava mais interessado no diário, nas ideias que ali apresentava para o romance do que mesmo em escrever a sua obra. E confessou que se debatia muito contra a tentação de colocar tudo que sabia em Os Moedeiros, daí os ensaios existentes na obra que muitas vezes chegávamos a dizer, aqui André Gide está exibindo os seus pontos de vista:

…seria uma loucura , sem dúvida, agrupar num só romance tudo o que a vida me ensina e me apresenta. Por mais denso que eu pretenda esse livro, não posso incluir tudo nele. E é no entanto esse desejo que ainda me embaraça.

Para conter o desejo de colocar tudo no romance, André Gide usou o diário para tentar identificar os elementos de tonalidades demasiados diferentes, discrepantes. Mesmo assim, como bem diz Cacilda Portela, o romance não tem um tema predominante que se concretize na ação, permitindo variações, desvio ensaístico que ele não quis ou não conseguiu evitar. Outro fator importante que se observou em Os Moedeiros Falsos é a relação estreita entre a ficção e a biografia do autor.São muito evidentes os traços biográficos. Em seu diário, André Gide diz que criaria um personagem que diria tudo que ele gostaria de dizer. No caso, o escritor Édouard.

Os Moedeiros Falsos é um livro grandioso não apenas pelo tamanho, mais de quatrocentos páginas, também pelas suas qualidades técnicas e literárias. Valeu a pena a jornada.

Além das leituras incríveis que foram feitas, trabalhamos também técnicas literárias relativas ao ensaio e à estrutura actancial das narrativas. Esta última foi fundamental para o desenvolvimento da outra pilastra da Oficina: a nossa escrita.

O nosso projeto de escrita desse ano foi ambicioso, mas não impossível. Decidimos elaborar um romance coletivo Se não conseguimos terminá-lo, não era o nosso propósito, quase encerramos a primeira parte. Desenvolvemos um roteiro baseado em três momentos fundamentais da narrativa,: Introdução ou Momento 1, Desenvolvimento ou Momento 2, Conclusão ou Momento 3, com as suas respectivas estruturas actanciais bem definidas. A discussão ajudou-nos a definir tempo narrativo diferentes, cenários rural e urbano e todos os actantes envolvidos no conflito como protagonistas ou auxiliares. Para que os estilos fossem respeitados adotamos modelo similar ao de William Faulkner em Enquanto Agonizo, em que cada capítulo é dedicado a um personagem, permitindo as mudanças de estilos sem dissonância do seu todo.

O primeiro Momento do romance está praticamente concluído. Ele foi desenvolvido por três oficineiros: Paulo Tadeu, Salete Oliveira e eu. A minha parte é a única ainda incompleta, mas ela estará sendo fechada logo, logo. No inicio da elaboração do personagem Jeremias, a nossa viageira Teresa ainda estava conosco e havia participado, mesmo com a sua total permissão para recriar o personagem Paulo Tadeu manteve alguns traços fundamentais do seu perfil.

Deu-me prazer imenso vê a qualidade da escrita realizada pelos meus parceiros, a riqueza dos detalhes contribuindo fundamentalmente para dar verossimilhança à história que estava sendo contada. Os fluxos de consciência, as características dos personagens, os cenários, os flashs backs , os tempos narrativos se alternando entre passado e presente foram escritos com o rigor próprio dos artesãos das palavras experientes e sensíveis.

O Momento 2 e o Momento 3 serão desenvolvidos no próximo ano por Luzia, Salomé, Paulo Tadeu, Eleta, Cacilda que já estão pensando em seus roteiros. Participantes do Momento 1 voltarão com os seus personagens, como Salete e eu,.

Em 2015 criamos o Momento Poético que inicia as oficinas a cada semana e o Carrossel de Livros para a nossa feira de troca de livros.

O Momento Poético aconteceu por uma sugestão de Paulo Tadeu, marujo experiente pelos mares das palavras, mas carente de poesia igual a todos nós. Tão importante foi a criação desse momento que ele passou a ocupar tanto tempo dos nossos trabalhos da Oficina que tivemos de interromper agora nos últimos dias sob pena de não concluirmos a nossa leitura de Os Moedeiros Falsos, de André Gide.

Vários poetas tiveram as suas poesias lidas: Charles Baudelaire, Luís Camões, Sylvia Plath, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa, Sophia Brayner, Murilo Mendes Campos ,Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes, Mario Quintana, Cecília Meireles, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Leminsky, Calderon de La Barca, Manoel de Barros, Daniel Lima. Alguns voltaram mais vezes, como Fernanco Pessoa, Vinícius de Moraes e Carlos Pena Filho.

Estão no blog todos os poemas lidos nas quartas-feiras, além de dados biográficos dos poetas, vídeos com entrevistas e poemas. Como eles o enriqueceram! Este ano o blog foi revitalizado não apenas com os poemas ali postados, mas com a produção de poemas e ensaios dos nossos escritores: Eleta Ladoski, Salete Oliveira, Luzia Ferrão, Cacilda Portela, Salomé. Agradecimento especial a Adelaide que trouxe e leu muitos poesias para nós, além de endereços eletrônicos de poemas primorosos, como o do vídeo com poema lido por Sylvia Plath.

O Carrossel de Livros foi outra criação do final de 2015 que surgiu da leitura de um poema de Paulo Leminsky. Ao ler a sua biografia, descobri que ele havia traduzido Pergunte ao Pó, de John Fante e o título me interessou. Paulo Tadeu que era um leitor antigo de John Fante mo emprestou e eu gostei tanto que quis ler outro livro do autor: O Vinho da Juventude, de contos, muito interessante. Surgiu-me a ideia de iniciar na Oficina essa troca de livros, vez que os viageiros e viageiras têm boas bibliotecas. O nome Carrossel de Livros foi dado por Salete, a nossa oficineira- poeta, muito apropriado. Graças ao Carrossel de Livros conheci autores que há muito desejava conhecer e outros que sequer imaginara ler um dia. No primeiro caso Joyce Carol Oates e Roberto Bolaño; no segundo, Ivo Ándrítich e Modiano. Apesar do curto espaço de tempo, quase trinta livros já passaram pelo carrossel, demonstrando que a nossa iniciativa bem criativa e oportuna, diante da escassez do dinheiro, mais do que isso, tirou das bibliotecas livros importantes que estavam ameaçados pelo mofo e esquecimento. Agora eles circulam alegremente pelo carrossel e saem para passear e alegrar as nossas vidas.

É tempo de aportar, como eu disse no início. O balanço final traz de volta as emoções da viagem! Feliz Natal a todos. Que em 2016 os céus estejam limpos e os mares mansos, são os meus maiores desejos.

Jaboatão dos Guararapes, 15 de dezembro de 2015
Lourdes Rodrigues

  • Epígrafe retirada do livro O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon.,