Filme de Fernando Meirelles, 360

Revista: Lola Magazine  Edição 23 Agosto 2012,  Ed Abril

 Culpa, desejo

É quase sempre a culpa que nos faz puxar o breque e nos impede de realizar os nossos desejos. Por que tem que ser assim? É que, graças a ela, parece haver ordem no mundo

Por Fernando Meirelles

Durante o lançamento de um filme, em geral, a primeira pergunta que é feita a um diretor é “o que lhe interessou na história?”. Não sabia exatamente o que havia me fisgado em 360, que lanço agora dia 17 de agosto, mas depois de 10 dias viajando para promovê-lo e de tantas tentativas de resposta, acho que finalmente comecei a entender o que gostei neste roteiro. Gostei do fato de a história não ter antagonistas. O antagonista neste filme, se é que existe, está dentro de cada personagem. Identifiquei-me com esta situação. Um diretor é também uma espécie de analista dos seus personagens, precisa desvendá-los para conseguir colocá-los em ação de maneira crível e elaborada. No meu caso, ao tentar compreendê-los, acabo sempre aprendendo muitas coisas sobre mim mesmo. Tem algo de narcisista nesta profissão. Eu sei.

Explico melhor: 360 não conta uma história, mas 10 histórias sobre 10 personagens diferentes. Todos são gente boa, querem fazer a coisa certa, querem ser bons maridos, boas esposas, bons pais ou bons cidadãos, mas se defrontam com alguma coisa dentro deles – seus instintos ou paixões, – que os levam para outros lugares. É sobre isso o filme, sobre esta briga entre o nosso lado racional, o que queremos ser e o quanto disso conseguimos conquistar já que somos o tempo todo desviados pelo nosso lado mais primitivo. Com este conflito em vista, todos os personagens se veem diante de uma bifurcação no próprio caminho e precisam fazer uma escolha. Essas escolhas afetarão não só suas vidas, mas também a de outros personagens, em uma reação em cadeia de causas e efeitos que vai cruzando fronteiras e continentes. Essa seria uma boa sinopse de 360.

Ao optar por ser uma esposa fiel, a personagem da Rachel Weisz, por exemplo, estará ao mesmo tempo matando alguma coisa dentro dela, aplicando um golpe em seus impulsos mais profundos, deixando de ser o que ela quer ser para ser o que ela imagina que deveria ser. Alguém vê aí uma situação familiar? Como escapar dessa armadilha?

Esse conflito entre a nossa razão e as nossas pulsões não é nenhum tema original, 82 anos depois de Freud ter escrito sobre isso em seu Mal estar na civilização, parece que ainda não conseguimos superar este dilema apesar de sermos hoje bem mais tolerantes em relação ao direito que cada um possui de viver seus próprios desejos. Em seu texto, Freud mostrou que há uma barreira intransponível entre as nossas pulsões e o mundo civilizado ou culto. Para que se possa construir uma civilização, uma sociedade ou mesmo uma família, o indivíduo deve reprimir seus desejos. Não há outra saída. O princípio da realidade deve prevalecer sobre o princípio do prazer. A plena gratificação das nossas nescessidades deve ser sacrificada e estamos, assim, condenados a viver esta infelicidade. Freud indica os caminhos que em geral usamos para aplacar este sofrimento e buscar uma relativa felicidade, já que a plenitude nos é impedida. Mergulhar no trabalho é um dos caminhos, as fantasias, o uso das drogas, os diturbios neuróticos que substituem os desejos não realizados ou a sublimação, uma boa saída para aliviarmos a tensão das pulsões reprimidas. Nós sublimamos nossos desejos inconscientes, transformando esta tensão em arte, ciência, filosofia, religião, instituições sociais, enfim, em cultura ou em civilização. Neste raciocínio, civilização e felicidade são mesmo incompatíveis, já que uma nasce da repressão da outra. Mas se é assim mesmo que funciona, o que nos faz optar quase sempre por este caminho? Essa é uma pergunta que sempre me fiz e em 360. Usei mais uma vez meus personagens para pensar numa resposta.

Há no filme um muçulmano que se apaixona por uma mulher casada e não muçulmana. Ele está desesperado porque não sabe se segue seu Imam, que evidentemente condena seu pecado, ou se ouve sua analista, que lhe diz que há gente que consegue levar uma vida perfeitamente normal sem religião. O caminho a seguir parece óbvio, mas ele não vê assim. O muçulmano não consegue encontrar uma saída para o seu problema, mas há também outra coisa que pesa em sua cabeça e na de todos os personagens: a culpa.

É quase sempre a culpa que puxa o breque e nos impede de realizar nossos desejos. Creio que a culpa tem uma enorme função na nossa relação com o mundo. Graças a ela, parece haver ordem. Vivemos culpados o tempo todo e isso acontece até mesmo quando conseguimos renunciar as nossas pulsões, pois a ação ou a simples intenção de fazer algo errado não fazem grande diferença para provocar culpa em nossa cabeça. Lembro-me de um curso de catequese que frequentei quando era criança em que ouvi pela primeira vez que também era possível pecar em pensamento. Foi cheque-mate para mim, pois aos 10 anos eu imaginava que reprimir as ações fosse até viável, mas tentar controlar o pensamento não tinha jeito. Então, só me restava mesmo aceitar a culpa e me arrepender; o que, por sorte, podia ser feito numa confissão pelo preço módico de algumas ave-marias. Mas na vida adulta as ave-marias não resolvem mais.

De todas as histórias do filme talvez a de um rapaz que acabou de sair da cadeia após cumprir pena por estupro seja a que mais me tocou. Um estuprador não costuma ser um personagem com o qual nos simpatizamos mas, com a ideia de mostrar a luta de cada personagem consigo mesmo, esforcei-me muito para tentar humanizá-lo. O Tyler, vivido pelo fenomenal ator norte-americano Ben Foster, está arrependido de ter feito o que fez e não quer voltar para a prisão, quer ser um bom cidadão. A culpa é seu tema central. Ao se ver em liberdade pela primeira vez depois de sete anos, percebe o quão difícil será vencer o vulcão que traz dentro de si. Por sentir-se tão culpado, para onde olha encontra outros olhares, que parecem a ele como acusadores. Ele então se isola. É neste momento que ele cruza acidentalmente com a personagem da nossa Maria Flor, a Laura, que vem no movimento contrário. A Laura foi certinha a vida toda e está agora no momento em que precisa deixar ser levada por sua onda interna para ver onde vai parar. Claro que o encontro dessas duas pessoas indo em rotas opostas só pode terminar em acidente.

Mas não quero contar todo o filme aqui, nem as conclusões a que cheguei ao terminá-lo, até por que ainda não cheguei a muitas conclusões sobre o que é o 360. Sei que é sobre pulsões, escolhas, culpa, conexões.

De qualquer maneira, nunca consigo parar de agradecer por ter esta profissão, que é uma maravilha. Sou pago para manipular a vida de outras pessoas livremente e usar suas experiências para pensar no que me interessa. Sendo diretor, nem preciso viver ou sofrer tudo na vida, tenho meus personagens, que podem sofrer por mim enquanto eu aprendo por eles. Dirigir filme permite a mim viver muitas vidas. Que fantasia boa. Como eu sou sortudo.

 

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