Viagem Segunda pelo Riso

 

*Anita Dubeux

Esta postagem refere-se à nossa segunda viagem , a que foi realizada no dia 08 de fevereiro de 2017, após zarparmos do cais de nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas e delicioso banquete.

Ancoramos no Traço Freudiano para mais um encontro de confraternização literária que iniciou com a leitura do cordel de autoria da viageira Salomé, escrito num momento muito especial de sua vida, em 2009,  e que ela dedicou ao marido. Trata-se de um belo e pungente cordel, porque fala do resgate do sorriso  que se perdeu em consequência de uma grande perda.

O RISO PEDE PASSAGEM

**Salomé Barros

Sessenta e três bem vividos
Trinta e sete para cem
Na caminhada da vida
Não sobra para ninguém
E mantendo o alto astral
Vai virar Matusalém

Com esse humor escrachado
Palhaçadas a granel
São tantas as trapalhadas
Que não cabem num cordel
Já conquistou doutorado
E até virou coronel

A manutenção do riso
Faz bem, é fundamental
Existir o ano todo
E não só no carnaval
No seu caso, sobretudo
É energia vital

Não permita que a tristeza
Invada o seu coração
Ela entra atravessada
Errada e na contra mão
Se você não der guarida
Some feito um furacão

Você escolhe na vida
De que lado quer ficar
Altos e baixos existem
Pra gente se equilibrar
Na corda bamba dançando
O riso a contagiar

Em seguida eu li dois poemas de Esman Dias, bem como uma breve biografia desse grande poeta que nos deixou em 2015. Foram eles:

 

FUSÃO

Santo Anjo do Senhor
Tyger! Tyger! burning bright
Meu zeloso guardador
In the forests of the night
Se a Ti me confiou
What immortal hand or eye
A piedade divina
A divina piedade
A mão, o olho imortal
Que deu forma e simetria
Terrível, meu Anjo, Tigre
A Ti, labareda clara
Dá-me teu fogo claro e me incendeia!
Dá-me tua espada à noite e me defende!
Meu santo Anjo do Senhor, meu Tigre!
E minha espada, espada, espada, espada!

 

ALUVIÃO 

Com as mesmas palavras
Girando ao redor do sol
Que as limpa do que não é faca.
João Cabral de Melo Neto

 

Parto in time aspre, et di dolcezza ignudo.
Petrarca

 

Falo do que não falo quando falo:
falo do meu silêncio,
bem mais claro
que as vozes incessantes dos que falam.
Falo do que não falo: do que sou:
bicho da terra — surdo — e mau cantor.
Falo do que não falo: tão pequeno
a destilar a noite o seu veneno.
Falo, não para o mundo dos sentidos:
falo somente para o inteligível.
Falo do que percebo: coisas claras
aéreas superfícies, copos d’água.
Falo na muda fala da batuta,
clara e precisa, do maestro à música.
Falo da pedra dura, da aspereza
de pedra sobre a pedra desta mesa.
Falo de mim em tudo de que falo.
Falo dos meus espelhos, quando calo,
Falo como quem vai a julgamento
sem esperar o indulto do seu tempo.
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

 

Breve biografia do poeta:

ESMAN DIAS nasceu no Cariri – sertão da Paraíba. Ainda criança veio com os pais para Pernambuco. Morou em Olinda até a adolescência e desde então mora no Recife. Seus primeiros poemas foram publicados no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio, em 1963. Em 1964, publicou “Os Retratos Marinhos”; em 1965, com Everardo Norões e Orley Mesquita, participa da coletânea “Clave”, ilustrada pelos artistas plásticos Anchises Azevedo, João Câmara, José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Também em 1965, em parceria com Orley Mesquita, assina a coluna “Poesia e Tempo”, no Jornal do Commercio. Com Alberto da Cunha Melo colabora na realização do documentário “Simetria Terrível”, dirigido por Fernando Monteiro. Vários de seus poemas foram traduzidos para o francês e publicados na coletânea Recife/Nantes. Participa da antologia “46 Poetas Sempre”, organizada por Almir de Castro Barros. É professor de Literatura Anglo-americana no Departamento de Letras da UFPE e foi professor visitante da Universidade de Birmingham, no Alabama e na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign.

Muito riso provocaram as tirinhas humorísticas selecionadas para o encontro: As Rebordosas, Garfild, Ferrato Pessoa.

O conto AMOR, do autor persa SAADI, poeta e contista “divino” que viveu no período de 1184 – 1291 — em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda — ensejou intensa polêmica e interpretações as mais diversas. Promete ser objeto de muitos escritos dos viageiros.

Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, que vivia em uma mesquita abandonada, e  que quase havia sido dizimada todos os ratos que por ali viviam. Aparentemente a ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Mantendo certa distância, para não tornar-se o seu alvo, a ratinha tenta conversar  e acaba se apaixonando seriamente por ele. Vamos aguardar as resenhas que advirão.

Continuando o encontro, foi lido o segundo capítulo do conto de Bergson, O RISO, abordando o tema do humor do ponto de vista psicanalítico.

O navio permanece ancorado, à espera do próximo encontro.

* Anita Dubeux é economista, poeta, ensaísta, contista. Brevemente terá um livro de poemas, Círculo de Seda, publicado pela Chiado Editora, de Lisboa.

** Salomé é psicóloga, cordelista, cronista.

 

 

 

 

 

 

 

Programação 2017 – 1º trimestre


​Viageiros e viageiras,

o cheiro da maresia já nos convida ao mar, vamos içar as velas e partir? Marujos, estiquem as canelas, encham os seus baús que é hora de embarcar.

Excepcionalmente, o cais de embarque será o da nossa querida maruja Adelaide Câmara, que inaugurará a nossa viagem, quebrando o champagne da partida. É importante que todos os que forem embarcar na quarta-feira avisem para que ela nos receba com todas as guirlandas necessárias.

Na Carta de Navegação está escrito Do Riso ao Trágico: um mar de Palavras. Sim, serão muitas mil milhas a navegar para dar conta dessa Carta de Marear, com a licença poética de nossa viageira Roberta Aymar. As aliterações estão aí para acordar  nossos poetas que rangerão os dentes ao lê-las.

Bom, para darmos conta de tal roteiro precisamos conhecer um pouco mais da hidrografia do Riso. Afinal, o que vamos encontrar? O grande timoneiro Ariano Suassuna disse: No meu entender o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: O sonho e o riso. E o bruxo do Cosme Velho foi ainda mais enigmático ao referir-se a ele : Há pessoas que não sabem, ou não se lembram, de raspar a casca do riso para ver o que há dentro.

É importante que todos conheçam o plano traçado e que façam as suas propostas de correções de rumo antes ou durante a viagem. Ei-lo:

Ementa:

Saudação Poética – O Momento Poético iniciado em 2016 tornou-se essencial para a nossa viagem pelos mares das palavras. Além de estimular a criação poética particular dos poetas embarcados, encantou os viageiros de tal forma que todos eles levaram seus poetas preferidos para apresentá-los aos companheiros.

Carrossel Literário – O compartilhamento de livros embora tenha perdido um pouco de espaço para a saudação poética em 2016, continua importante para a transferência literária entre os participantes, tanto pela identificação de interesses como pela ampliação do conhecimento de autores ainda não conhecidos.

Escrita Criativa – O estímulo à criatividade em 2016 resultou na publicação de Escrituras III. Novos estímulos serão oferecidos em 2017 como faíscas para incendiar a criatividade dos marujos, desde o conto infantil a desafios e jogos de releituras e recriações.

Leitura Crítica – A opção pelos textos curtos (contos) tornou intensa a movimentação literária em 2016, culminando com a produção de muitas resenhas e algumas releituras. Assim, vamos intensificar este ano a leitura de contos.

Leitura Informativa –  Ensaios sobre o riso, a comédia, a farsa, técnicas literárias.

HQs ou Charges – A inovação das tirinhas de quadrinhos e charges para a nossa viagem, além de buscar o riso, contribuirá para a construção de Personagem, para a análise da crítica social e política.

Composição do Romance Coletivo – Iniciado em 2015, não caminhou em 2016. Os marujos deverão bater o martelo se devem continuar ou parar.

Objetivo geral:

Buscar o riso na Literatura, como expressão maior de uma sociedade, desde os gregos, romanos, até os tempos atuais, tentando apreender sua complexidade, grandiosidade, abrangência e, principalmente, sua interface com a dor, a tristeza, a tragédia.

Objetivos específicos:

• Contatar o seu eu mais profundo pela leitura de poemas na Saudação Poética;
• Compartilhar obras literárias relevantes no Carrossel Literário;
• Desenvolver o fazer literário diferente, fugindo do convencional, da mesmice, dando asas céleres ao absurdo e inimaginável com a Escrita Criativa;
• Realizar a Leitura Crítica  de textos literários, preferencialmente formas breves, desconstruindo a hegemonia da história aparente pela identificação da história contada em paralelo;
• Estimular a realização de resenhas e resumos dos textos lidos, a partir da leitura crítica particular e dos instrumentos de análise literária;
• Compartilhar tirinhas em quadrinho e charges para análise de personagem, identificação de objetivo, natureza;
• Participar como crítico ou autor da construção coletiva do Romance Coletivo iniciado em 2015;
• Alimentar o blog da Oficina com a produção dos participantes;
• Desenvolver projeto de publicação da Oficina.

PÚBLICO ALVO:

Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelo riso através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras formando novos sentidos; escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e ler.

METODOLOGIA:

• Leitura de poema no início dos trabalhos de três das quatro quartas-feiras;
• Exercícios de escrita para estimular a criatividade. Iniciaremos com a provocação com texto infantil. Os textos produzidos serão lidos e comentados.
• Leitura crítica de contos que desafiem a percepção crítica e as emoções dos participantes, de acordo com o tema trabalhado. Iniciaremos com um Conto Infantil e um Conto Sobre o Riso. As resenhas elaboradas serão lidas e comentadas.
• Apresentação de tirinhas de quadrinho ou charges.

RECURSOS DIDÁTICOS :

Trabalhos em grupo e individual de escrita, utilizando papel e caneta, computador ou tablet. Leituras de poemas e contos no notebook, tablet, celular ou impressos.

PERIODICIDADE:
Toda quarta-feira de 14h:00min às 16h:00min.

LOCAL E CONTATOS:

Excepcionalmente, na casa da nossa querida maruja Adelaide, que ainda se recupera de alguns problemas de saúde.
Depois, no Traço: Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 –  Recife- PE –Fone: 3265-5705 (Luciene)

www.traco-freudiano.org/blog ou oficinaclaricelispector@googlegroups.com.br

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Bibliografia inicial:

O riso, Henri Bergson
Gargantua e Pantagruel, François Rabelais
Batracomiomáquia, Homero
Amor, Saadi
O Misantropo, Menandro
O Humor Judaico, Abrasha Rotemberg
Humor (temas abordados na Palestra do J. Maestro)
Alice Através do Espelho, Lewis Carol

Aguardo vocês  com ansiedade no ancoradouro.

Lourdes Rodrigues

 

Escrituras III – Manuscritos de Viagem

A Paixão pelas Palavras
Lourdes Rodrigues

Mais de uma década ao mar. Viagens longas, viagens curtas, sempre de olho no Traço-Porto-Seguro para fugir das arrebentações, das tormentas. Poder voltar sempre foi o que nos deu coragem de içar velas e enfrentar as ondas numa nova viagem.

Escrituras I e II mapearam as rotas dos oito primeiros anos, suas aventuras, suas emoções. Escrituras III – Manuscritos de Viagem representa as milhas náuticas percorridas em 2016. E a celebração pelo retorno das nossas estrelas guias que durante dois anos não navegaram; pela chegada dos novos viageiros, recebidos com guirlandas de flores em volta do pescoço pelos navegantes; e pelos marujos que se mantiveram firmes e indiferentes aos cantos das sereias, de olhos voltados para as águas turbulentas até o final da travessia.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem registra o resgate da alegria dos primeiros tempos, de novos impulsos criadores, da exacerbação do sentir tudo de todas as maneiras, como dizia Fernando Pessoa, na poesia de seu heterônimo Álvaro Campos.

Os nossos viageiros são seres muito especiais que navegam pelos mares das palavras e das artes plásticas. Todas as imagens são de Anita Dubeux e de Paulo Tadeu, da capa às cortinas separadoras dos textos. Quase todos fazem poesia, líricas, com rimas, sem rimas, de cordel, prosa poética: Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salomé Barros, Salete Oliveira. E nossas tardes se enchem de encanto! Adelaide Câmara garimpa pérolas poéticas, com a poesia na alma, de olhos e ouvidos atentos para que não lhe escape um grande poema, embora teime em dizer que prefere a prosa ao verso, como modo de arte. Todos são ficcionistas, a prosa é a praia deles e escrevem com muito apuro.

Everaldo Soares, marujo dos primeiros tempos, nosso Ismael, transita com desenvoltura pelos mares das palavras não ditas, em face do seu perfil de psicanalista, com escuta especialmente arguta. Escreveu o conto O Feio, da releitura do Patinho Feio, trazendo à tona mal-estar imprevisível, interior, daquele que se sente diferente, quer pela feiura ou seus desconcertos, mas que mantém posição e não procura assemelhar-se ou desassemelhar-se com sua tribo. O seu patinho, apesar dos percalços vividos, não arreda pé de não cantar. Na temática do duplo, defendeu a ideia de que o duplo tem a ver com a constituição do eu e do outro, usando para isso o Estádio do Espelho de Lacan. O duplo é um outro perseguidor, geralmente do mesmo sexo, paranóico e destrutivo, que fracassa onde as pessoas comuns são vitoriosas, segundo Freud. Everaldo diz que a constituição do eu é erótica e mortífera, e a morte é fundamental para criação de símbolos: a palavra mata a coisa. Para ele, assim como para nós, a subjetividade é essencial ao trabalho da ficção. Por isso, a Psicanálise e a Literatura andam sempre juntas.

Cacilda Portela é resenhista, ensaísta, aqui e ali mergulha na escrita de um conto. O melhor crítico literário é João Gratuliano, nada escapa ao seu olhar. É o nosso Harold Bloom. Teresa Sales voltou, para a nossa alegria, a escrever suas prosas, contos e crônicas. Roberta Aymar, viageira de alguns portos, sempre a trazer contribuições inestimáveis.

Traçar cartas náuticas com esses viageiros tão destemidos e criativos nas artes e na literatura é saber que vamos mergulhar em mares profundos e fazer grandes e intensas viagens em que o riso, a alegria será sempre a bandeira hasteada. Mesmo quando o tema é difícil, o riso escapa para quebrar a tensão.

A Carta de Navegação 2016 põe em evidência a complexidade do ser humano, a partir de coordenadas fornecidas pela poesia, pela criatividade dos viageiros e pelos mergulhos entre linhas e silêncios dos escritos de autores selecionados pela sua alta conta na Literatura. Os escritores, como bem disse Freud, são seres que conhecem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.

No eixo Poesia, criou-se o Momento Poético, ocasião em que líamos os poetas preferidos ou as nossas próprias criações. Mais que um batismo para iniciação de cada percurso da viagem, tornou-se o instante em que cada viageiro pode mergulhar no mais profundo de seu ser e fazer a sua travessia muito particular. Grandes poetas por ali passaram. Começamos por Charles Baudelaire, lendo Gênio do Mal, tradução de Delfim Guimarães, que Adelaide Câmara descobriu, após exaustivas pesquisas, não existir na obra do poeta com esse título, embora inserido em As Flores do Mal sob o número XXV. Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema traduzido para o português com a obra no original, permitindo-nos descobrir divergências, infidelidades e refletir sobre a definição de poesia de Robert Frost: That which is lost in translation.  Se na ficção é importante ver o original, porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores ao se empolgarem e se afastarem muito do texto, na poesia, em que a sonoridade, às vezes a rima, a subjetividade, as metáforas, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução pode significar desvio e perdas substanciais. Entretanto, o tradutor e nós leitores não descobrimos sentidos, apenas nós os construímos.

Sonetos de William Shakespeare, Camões, poemas de Emily Dickinson, Lautréamont, Paul Valéry, Wislawa Szymborska, Sylvia Plath, Li Po, William Butler Yeats, Elizabeth Barrett Browning , Elizabeth Bishop, Benjamim A.S.M. M’Bakassy , Mia Couto, Cesare Pavese, Calderon de La Barca, Paul Verlaine, Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Florbela Espanca foram lidos com variadas doses de emoção pelos viageiros. Da Irlanda foi trazida uma poesia do Século VIII, Donal OG (no original, em Gaélico), Broken Wows (tradução inglesa), Votos Partidos (Português), com tradução belíssima de Lady Gregory que muitos já conheciam do filme Os Vivos e os Mortos, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Muitas leituras vieram acompanhadas de vídeos, com excelentes interpretações, como foi o caso de Vincent Price, em O Corvo, de Edgar Allan Poe. As leituras de poemas pelo próprio poeta a exemplo de Sylvia Plath, Paul Verlaine, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, assim como a interpretação de Maria Betânia de poemas de Sophia Breyner e de José Régio encantaram-nos. Para comemorarmos o Dia Internacional da Mulher, a nossa viageira Adelaide presenteou-nos com poesias de Emily Dickinson, Florbela Espanca, Sylvia Plath, Sophia de Melo Breyner e o poema Mulher de Carlos Drummond de Andrade.

Para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela… Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa que se possa prever nossa vã pretensão…

Poetas brasileiros, além de Carlos Drummond, que estiveram presentes uma e mais vezes no nosso recital poético: Ferreira Gullar, Mário Quintana, Manuel Bandeira, José Régio (Cântico Negro, lindo!), Carlos Pena Filho, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Affonso Romano de Sant’Anna, Daniel Lima, Paulo Leminsky, Andrea Campos, Augusto dos Anjos. A viageira Luzia Ferrão nos trouxe o poeta das ruas, mais precisamente, dos semáforos, Lenemar Santos, natural de Gameleira, que vende seus livrinhos, feitos de forma artesanal, em Piedade.

Os nossos poetas também nos prestigiaram com suas criações. Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salete Oliveira e Salomé Barros trouxeram seus poemas para leitura na nossa nau, cada uma com um estilo muito próprio, dividindo conosco suas percepções poéticas. Salete ilustrou os seus com imagens bem sugestivas.

Quando trabalhávamos o tema erotismo, poemas antigos surgiram: Salomão (Cânticos dos Cânticos), Ovídio (A Poética do Sexo), Bocage, (Sonetos), Juan de La cruz (Eros Místico) e Apuleyo (Metamorfose).

Enfim, a poesia presente no início de cada milha náutica navegada em 2016 – bem ao estilo de Autran Dourado que dizia ler um poema todos os dias, antes de começar a escrever – preparou-nos o espírito para grandes viagens na criatividade e nas leituras que se sucederam.

Os primeiros desafios criativos foram a releitura de O Patinho Feio, de Christian Andersen; as escolhas difíceis, no limite do absurdo e do insuportável, A Escolha de Sofia, por exemplo, em que uma mãe se vê obrigada a escolher entre um filho e outro e a traição a uma amiga por ter se apaixonado pelo marido desta. Os marujos correram da parada da Escolha de Sofia, apenas Luzia Ferrão resolveu enfrentá-la e construiu texto muito interessante, Trindade, em que o personagem faz sua escolha. Salete Oliveira enfrentou o desafio da quebra de ética e escreveu Vizinhos. Apenas a faísca criativa de O Patinho Feio atingiu quase todos os viageiros e eles fizeram suas releituras a partir de narradores e personagens diferentes, pontos de vista, tempo e espaços narrativos diversos. Interessante exercício literário.

No eixo das leituras, a opção pelas viagens curtas deveu-se à certeza de que elas têm sobre os grandes percursos a vantagem da intensidade de efeito. Edgar Allan Poe decidido a falar sobre o seu processo criativo em A Filosofia da Composição, texto que lemos para dar suporte à nossa decisão, diz que:

Se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído.

Além do efeito, a narrativa curta permite-nos o retorno a ela, seguidas vezes, para apreensão das entrelinhas que escapuliram às primeiras vistas, para preenchimento de silêncios carregados de vozes que passaram quase despercebidas, deixando no ar suspeitas de murmúrios a serem identificados. São tantos os olhares que se debruçam sobre ela que cada qual vai fazer uma leitura e julgá-la do seu lugar, com sua visão de mundo, com as suas percepções muito particulares.

A segunda opção foi que a nossa viagem seria temática, procuraríamos seguir roteiro que nos permitisse dar conta das pegadas desse ser complexo que é o homem.

O primeiro tema escolhido foi O Duplo. Temática instigante e intrigante da qual muito se fala e pouco se entende. Na visão mitológica o rastro atravessa milhares de anos, presente em muitas civilizações do passado. Talvez a mais antiga versão seja a de Doppelganger, palavra germânica que significa “duplo frequentador” e refere-se a um fantasma ou aparição que lançou sombras e é uma réplica ou duplo de uma pessoa viva. Considerado um mau presságio, indício de azar ou sinal de morte. Em termos de Psicanálise, o mais próximo que se chega para explicar é o Unheimliche de Freud, uma instância onde algo pode ser familiar e ao mesmo tempo estranho, e essa ausência de certeza traz profundo desconforto. O Duplo traz à superfície questões ligadas à identificação, ao narcisismo e ao medo da morte. Na verdade à própria essência do ser humano.Na Literatura, desde sempre esteve presente. Entre os gregos, com Narciso apaixonando-se pelo seu reflexo na água; no Egito, com Ka, espírito duplo, tangível. Nos tempos mais recentes, inúmeros autores trabalharam o tema em seus livros, entre eles Dostoievski, Borges, Edgar Allan Poe, Carlos Fuentes, Robert Stevenson entre muitos outros.
William Wilson, de Poe, é uma referência para qualquer estudo literário sobre O Duplo, por isso, a nossa escolha recaiu sobre ele. Em Escrituras III, o tema foi contemplado sob a forma de cordel, resenhas e contos.

Seguindo a mesma trilha, veio a Loucura como tema, conscientes da importância, seriedade e beleza dele, pois o que seria de nós sem ela, diz Fernando Pessoa: Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria? Graham Greene, diferente de Fernando Pessoa, contrapõe aclamando as artes plásticas, a música, a literatura como forma de fazer sinthoma para salvar o homem da loucura.

Às vezes cogito como é que todos os que não escrevem, não compõem ou não pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico inerente à condição humana.

Foram nossas leituras a fábula de Jean de La Fontaine, O Amor e a Loucura, a pequena novela ou conto de Gogol, Diário de um Louco, os contos O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, O Coração Delator, ambos de Edgar Allan Poe e mais adiante o excelente e terrível conto de Nabokov, Signos e Símbolos. Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã não foi concluído, o que lamentamos pela excelente qualidade da obra.

Os viageiros não escreveram seus textos, quem sabe cautelosos com os riscos que o tema representa para aquele que resolve enfrentá-lo, verdadeiro campo minado. Quando ainda decidíamos que caminho seguir, Humor ou Loucura, apesar das dúvidas, venceu a última, para receio de alguns.

O Erotismo veio a seguir e provocou gargalhadas estrondosas durante o seu percurso, pela forma bela e irreverente como foi tratado por alguns clássicos da literatura e, também, pelos rubores e desconcertos dos viageiros em algumas passagens mais licenciosas. Tempos inesquecíveis dessa viagem, afastando temores e fantasmas deixados pelos temas anteriores.

Começamos com o Banquete (O amor e o Belo) de Platão, no trecho em que Aristófanes, dirigindo-se a Erixímaco, explica o poder do Amor, expondo a natureza humana e suas vicissitudes. E vai desenvolvendo a sua tese, dizendo que antes existiam três gêneros da humanidade, o homem, a mulher e um terceiro, andrógino aos dois. E por aí segue… Depois dele lemos A Metamorfose, de Lúcio Apuleio; A Poética do Sexo, de Ovídio; Cânticos dos Cânticos, de Salomão (atribuído, não questionamos a propriedade); Eros Místico, de Juan de La Cruz; Sonetos, do irreverente Bocage; De como Panurgo se apaixonou por uma grande dama de Paris, de Rabelais; A Sedução Criativa, de Giácomo Casanova e o Canto V, do Inferno, de Dante, onde estão aqueles que cometeram o pecado da Incontinência Sexual.

Depois veio o Marquês de Sade, impossível não considerá-lo, logo ele, representante maior do erotismo e da obscenidade. Do autor foram lidas duas obras,   O Marido que recebeu a Lição, texto levíssimo e bem humorado; De Monges e Virgens, de sua obra bem conhecida Justine, um texto em que a perversão está bem explícita. Finalmente, Bataille, em O Olho do Gato.
Em termos de erotismo na Literatura brasileira, embora existam grandiosas contribuições, escolhemos exatamente dois autores que não são conhecidos por essa temática: Clarice Lispector, nossa madrinha, em A Via Crucis do Corpo; e Carlos Drummond de Andrade, em A moça Mostrava a Coxa. A bem da verdade, após a sua morte, descobriu-se que ele era um mestre na literatura erótica. Vejamos o trecho a seguir do autor:

Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos
No momento certo, entre uivos e gritos litúrgicos,
Quando a língua é falo, e verbo a vulva,
E as aberturas do corpo, abismos lexicais onde se restaura
A face intemporal de Eros,
Na exaltação de erecta divindade
Em seus templos cavernames de desde o começo das eras
Quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a
inocência de viver.

O Erotismo é um campo vasto, apenas tocamos ao de leve por importantes literaturas dele, o caminho foi aberto para quem quiser segui-lo e, quem sabe, até mergulhar mais profundamente nas suas águas.

Da escritora portuguesa, Lídia Jorge, lemos o conto Marido que muito bem representa a servidão humana levada às últimas consequências. É uma narrativa tão forte que ao concluir a sua leitura todos ficaram mudos, olhando uns para os outros sem palavras. Quando o silêncio foi quebrado, todos quiseram falar ao mesmo tempo e por para fora o engasgo que os havia deixado sem fala. A autora, ao abordar um tema tão difícil e ao mesmo tempo tão presente em todas as épocas, utiliza, com maestria, a forma literária mais lírica e bela que se possa imaginar. Escrituras III – Manuscrito de Viagem apresenta duas resenhas sobre esse conto e dois textos ficcionais.

De Lígia Fagundes Telles, que bem deveria ter recebido o Nobel este ano, lemos a Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, conto apaixonante e que se insere na temática da obsessividade. Enredo simples, contado com perícia/perfeição literária, muito rico em possibilidades de releituras, com outros pontos de vista e de finalização.O desfecho fica em aberto para o leitor continuar. Jovem candidata a rainha de um baile encontra rapaz e se enamora dele. Daí em diante ela não lhe dá trégua, criando inúmeras possibilidades de encontro, sendo sempre rejeitada por ele. Trata-se de um autêntico caso de obsessão amorosa, em que a pessoa observa no outro um ideal de amor, de relacionamento que só existe para ela. Duas resenhas e duas outras versões da história, além de outro final, estão neste livro.

Menina a Caminho, de Raduan Nassar, foi outra obra prima literária que mobilizou os navegantes a fazerem suas resenhas, cada qual com um olhar diferente do olhar do outro, conforme pode se observar nos escritos dos viajeiros.Uma menina magricela anda pelas ruas, sem pressa, e testemunha várias cenas que a fazem transitar entre o mundo infantil e o mundo adulto.

A última leitura que fizemos foi de O Búfalo, de Clarice Lispector, conto que levou a muitas interpretações, mas não houve tempo para a produção de resenha.
E mais contos e poemas participam desse livro como resultado de novas viagens realizadas pelos navegantes desgarrados de cartas de navegação, ao sabor do vento e do cheiro das águas.

Outro eixo importante da Carta de Navegação 2016 foi a criação do Carrossel Literário, espaço para compartilhamento das obras favoritas dos viageiros, que culminou num processo de transferência entre os seus participantes, pela identificação de interesses e paixões literárias. Importantes e desconhecidos autores, por alguns viageiros, desfilaram no carrossel e foram lidos com avidez e interesse.

Do Romance Coletivo foi concluída a primeira parte de três. Não houve fôlego para dar conta das duas restantes, devendo voltar à programação do próximo ano.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem é um livro de contos, resenhas e poesias, formas de expressão literária que nós marujos encontramos para expressar o nosso sentir diante do mundo de fantasias que surgiram de nossas leituras dos textos aqui mencionados. Aos seus leitores, desejamos que também se lancem ao mar e façam suas próprias viagens.

Jaboatão dos Guararapes, 25 de novembro de 2016

PROGRAMAÇÃO 2016

Imagem BrasilEscola

Imagem BrasilEscola

A paixão pelas palavras

O eu não é senhor em sua própria casa – Freud

Data de início – 17/02/2016

Período: 2016

Horário – `Quartas-feiras de 14:00  às 16:00

Local; Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise – Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 –  Recife- PE

Contatos –Fone: 3265-5705 (Luciene). Blog: www.traco-freudiano.org/blog                                 Email: oficinaclaricelispector@bol.com.br

 A Oficina pretende em  2016 manter o foco na complexidade dos sentimentos humanos. Ela deverá possibilitar aos seus participantes viagens através da poesia, compartilhamentos de obras literárias e exercícios de desbloqueio criativo para desenvolver habilidade na escrita. Também serão realizadas leituras críticas de contos clássicos, com especial atenção para as entrelinhas e silêncios narrativos, visando potencializar o crítico literário inerente a cada um. Os participantes poderão participar da construção coletiva de um romance iniciado em 2015, como autor ou crítico.

Mais especifidades:

  • · Contato com a linguagem poética através da leitura de poesia;
  • · Compartilhamento de obras literárias sob a forma de empréstimo;
  • · Estímulo ao fazer literário diferente, fugindo do convencional, da mesmice;
  • · Descobrir habilidades na escrita;
  • · Facilitar a expressão na escrita;
  • · Fortalecer o estilo próprio de escrita;
  •  ·Exercícios intensos de escrita criativa a partir de linhas de história, jogos de     palavras, associações livres, releituras de narrativas clássicas, mudanças de   ponto de vista, alterações de cenário, tempos de narrativas, diálogos;
  • · Leituras críticas, desconstruindo histórias aparentes, possibilitando a               reconstrução a partir dos não ditos, das metáforas;
  •   Fortalecimento do senso crítico a partir da leitura particular e dos                 instrumentos de análise literária;
  •  Participar como crítico ou autor da construção coletiva do romance iniciado  em 2015;
  • Postagens no blog da Oficina da produção dos participantes.

Como vai funcionar:

Trabalhos em grupo e individual de escrita, utilizando papel e caneta, computador ou tablet. Leituras de poemas e contos no computador, tablet, celular ou impressos.

Possíveis participantes:

Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelas emoções através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras formando novos sentidos; potenciais escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e ler.

Bibliografia:

Carmelo, Luís .Manual de Escrita Criativa – V.II – Portugal,2007
D’Onofrio, Salvatore – Forma e Sentido do Texto Literário – Atica, São Paulo, 2007
Goldberg, Natalie – Escrevendo com a Alma – Martins Fontes, São Paulo, 2008
Kohan, Silvia Adela – Os Segredos da Criatividade –  Gutenberg, São Paulo, 2009
Lodge, David.A Arte d a Ficção- L&PM, Porto Alegre, 2009
Llosa, Mario Vargas – Cartas a um Jovem Escritor
Moisés, Massaud– A criação Literária –Cultrix, São Paulo
Prose, Francine – Para ler como um escritor,
Wood, James. Como Funciona a Ficção – COSACNAIFY,São Paulo, 2011

Sugestões de bibliografia para Contos:

Casares, Adolfo Bioy, Gomes, Jorge Luis -e Silvina – Antologia da Literatura Fantástica, COSACNAIFY, São Paulo.
Costa, Flávio Moreira – Os Melhores Contos de Loucura – Ediouro, 2007
Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, Ediouro, 2001
Os 100 Melhores Contos de Erotismo da Literatura Universal, Ediouro
Os Melhores Contos da América Latina, Agir, 2008
Gomide, Bruno Barreto (Org.) – Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), Ed.34, São Paulo.
Mansfield, Katherine – K. Mansfield, COSACNAIFY, São Paulo
Poe, Edgar Allan – Contos de Imaginação e Mistério, Tordesilhas, 2012
Renner, Rolf G e Backes, Marcelo – Escombros e Caprichos – O Melhor do Conto Alemão no Século 20
Wilde, Oscar – As Obras Primas – Ediouro, 2000
Woolf, Virgínia – V. Woolf, COSACNAIFY, Sâo Paulo
Coordenação:

Lourdes Rodrigues publicou dois livros de contos: Bandeiras Dilaceradas e Situação-Limite pela Bagaço.Participou de algumas Antologias de Contos da UBE, de Benito Araújo e da Oficina de Raimundo Carrero, da qual fez parte por mais de 10 anos. Organizou e prefaciou o livro Escrituras, publicação que contemplou os textos literários dos participantes da Oficina relativos ao período 2006/2009.  Organizou, prefaciou e participou com contos e ensaio de Escrituras II, que abrangeu os trabalhos literários dos oficineiros de 2010 a 2013. Coautora de A Criação Literária à Luz do livro Incidentes em um Ano Bissexto de Luiz-Olintho Telles da Silva. Outra importante área de seu interesse sempre foi a Psicanálise, tornando-se membro do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise em 2003, onde participa de estudos de Arte e Psicanálise e de Literatura. Desde 2006 coordena no Traço  a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, primeiro dividindo o leme com outros colegas viageiros dos mares das palavras, depois num trabalho coletivo com os seus integrantes. Decorrente desse vínculo com o Traço foi coautora do livro rodopiano e publicou vários ensaios na Revista Veredas, participando há dois anos do conselho editorial da Revista.

Os céus estão escuros, mas as estrelas permanecerão.

Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por que?

            *MIKHAIL BULGAKOV, O exercito branco

Navegantes,

é chegada a hora de aportarmos após mais uma longa viagem pelo vasto e misterioso mundo das letras.

Longa e difícil travessia…

Cheguei a temer que não chegaríamos ao seu término, tantos mares revoltos, tantas tempestades. Manteve-nos na rota o fato de não sermos apenas marujos de navegação de cabotagem. A audácia da navegação por mares estrangeiros deu-nos a couraça para seguir em frente sem largar o leme, movidos pela certeza de que as estrelas continuavam lá encobertas pelas sombras da noite que atravessávamos, e se fechássemos ouvidos para os cantos das sereias e erguêssemos olhos para os céus, os nossos marujos-estrelas Júnior e Adelaide certamente continuariam ali para nos iluminar.Como foi difícil essa jornada sem vocês, minhas estrelas guias!

Outros viageiros atracaram para dar à luz vida nova, como a nossa viageira Diva Helena, ou para ajudar a sua cria a fazer isso, feito Luzia. Não guerreamos para ter Diva de volta, o seu Páris a merece bem mais do que nós, mas guardamos o seu lugar com muito carinho, para quando ele lhe permitir voltar. Luzia está chegando ao fim da sua linda missão, outras viagens quem sabe já contaremos com ela. A maruja Teresa partiu num foguete para curtir novo amor nas serras das Minas Gerais, e cá ficamos a tocar as nossas cítaras para alegrar Eros e assim ele manter para sempre a sua felicidade. A navegante Monica está voltada para parir seu filho-livro e nós reverenciamos muito esse momento, enquanto aguardamos seu retorno.

Alguns viageiros não fizeram boa viagem pela saúde abalada, o coração triste e nós ficamos mal por isso, mas concentraremos sempre as nossas energias, os nossos pensamentos para eles, para que voltem aos seus melhores dias com a força do motor de popa do nosso amor.Salve, Teresinha! Salve, César!

Alguns partiram silenciosamente, quem sabe cansados do cheiro de maresia, quem sabe ansiosos pelo cheiro de casa, mesmo respeitando tais decisões, guardamos a esperança de um dia eles voltarem à nossa embarcação.

Apesar do peso esmagador das ausências, seguimos em frente porque os marujos que ficaram são muito bons navegantes, salve Salete, Salomé, Eleta, Paulo Tadeu, Cacilda, Teresinha,Cesar e eu, não arrefecemos o amor e a vibração pela viagem.
E foi uma longa e profícua jornada.

42691740A carta de navegação amarrotada tantas vezes pelo seu traçado incerto levou-nos à Irlanda com Os Mortos, de James Joyce. O cenário da narrativa é uma ceia de Natal, o personagem principal, Gabriel Conroy deixa transparecer em todos os seus diálogos e fluxos de pensamentos grande desencanto com a sociedade, total estranhamento diante das pessoas e dele próprio. O conflito maior da trama acontece quando ele e a esposa já se encontram no hotel e Gabriel vê fracassada a sua expectativa de uma noite de amor, diante da revelação de Gretta de que a música que ela ouvira no final da festa trouxera-lhe lembranças de um jovem que amou na adolescência e que morrera por sua causa ao se deixar ficar ao relento numa noite de chuva porque ela iria partir no outro dia e ele já não queria mais viver sem ela. Uma semana depois da sua partida, chega a notícia de que ele morrera. Gabriel atordoado com a força dessa revelação e com a dureza do desencontro para uma noite tão esperada, dirige-se à janela em silêncio. A magia da neve caindo intensamente, as rememorações de momentos excitantes do casal o haviam feito antecipar noite luxuriante, sequer a luz das velas ele permitira que o empregado do hotel trouxesse, deixando apenas as luzes dos lampiões da rua quebrarem a escuridão da madrugada. Todo o seu desejo ardente se fora com a presença da lembrança daquele jovem morto.

Mais tarde, enquanto a esposa dorme, ele continua a refletir, e as lágrimas começam a se acumular mais densamente em seus olhos e ele pensa estar vendo a silhueta do jovem embaixo de uma árvore, numa das cenas mais belas do conto:

Outras silhuetas estavam próximas. Sua alma havia se aproximado daquela região por onde vagam os vastos anfitriões dos mortos. (…) A neve caía, também, sobre todas as partes do cemitério solitário na montanha onde Michel Furey estava enterrado. Ela espalhava-se densamente sobre as cruzes tortas e os túmulos, as pontas do pequeno portão, os espinhos estéreis, A alma de Gabriel desmaiou devagar enquanto ele ouvia a neve caindo levemente sobre todo o universo e levemente caindo, como a descida ao seu fim derradeiro, sobre todos os vivos e os mortos.

Os Mortos, embora faça parte da coletânea de contos do livro Dublinenses, é um conto que devido a sua grandeza tem sido publicado de forma isolada por grandes editoras. Assistimos na Oficina o filme baseado na obra do cineasta John Huston, Os Vivos e os Mortos, uma espécie de homenagem a James Joyce feita por ele que era profundo admirador seu.

42235675Também fizemos a leitura de outra obra da língua inglesa, agora do norte americano naturalizado inglês, Henry James., A Lição do Mestre. Paul Over, escritor iniciante, cultiva profunda admiração por Henry St. George, escritor renomado, cujas obras recentes vêm revelando perda de qualidade literária. O triângulo se forma com Marian, jovem apaixonada por Literatura, que fala com muito entusiasmo do livro de Paul Over a St. James que, embora casado, parece estar apaixonado pela jovem, que parece estar começando a se envolver com Paul Over, tudo muito sugerido, nada muito explícito. St. James convida Paul Over à sua casa e após elogiar profundamente a sua escrita, vaticina futuro brilhante para ele na literatura desde que se dedique inteiramente à sua arte. Eis um trecho da excelente resenha postada no blog por Cacilda Portela, viageira e resenhista de primeira linha; que dá a dimensão da lição do mestre:

Depois de ter lido uma pequena parte da obra do jovem escritor, St. George vai até ele e afirma que o jovem é mesmo surpreendentemente bom; e que precisa realmente manter o nível como escritor. Confessa ao jovem seus sentimentos, medos e anseios e lhe apresenta sua Lição de Mestre: “…Não se transforme  no que me transformei na velhice: o exemplo de quem cultuou os deuses do mercado, dinheiro, luxo, a sociedade, a mulher, os filhos… A!h! as coisas mesquinhas que nos obrigam a fazer. Uma perdição do ponto de vista da arte. O artista nada tem a ver com o relativo, deve ter afinidade apenas com o absoluto. Não poderá fazer alguma coisa realmente boa sem sacrifício.  Fazer algo, e algo que seja divino é a única coisa em que o artista tem que pensar”. Ou desistir da ideia de perfeição. Paul responde “não; eu sou um artista – não há como evitar”.

Paul Over após ouvir o seu pai-poético não titubeia, determinado pela arte, assume a solidão e parte da Inglaterra, deixando Marian sem muitas explicações. Meses depois, toma conhecimento da morte da esposa de St. George, a quem conhecera no mesmo dia em que fora apresentado a Marian. Quando volta, toma conhecimento de que St. George e Marian estavam de casamento marcado. Ele começa a se dar conta de que foi alvo de um golpe de mestre do seu pai-poético..

Montaigne-Os-ensaiosEntre essas duas obras foram lidos Os Ensaios de Montaigne, motivados pelo interesse de conhecer o mestre desse modelo de escrita. Muito bons ensaios foram lidos, entre eles, A força de Imaginação, Solidão e Sobre os Canibais. A publicação da Penguin com tradução e notas de Rosa Freire D’Aguiar está muito boa e se baseia na edição póstuma de 1595, a mesma que serviu de base para a Gallimard publicar em 2007. Além de divertidos pela forma como Montaigne apresenta as suas teses “muito pessoais”, são textos reflexivos que permitem viajar pelo mundo das ideias e ideais com muito prazer. O mais importante, contudo, foi a desmistificação do ensaio enquanto modelo acadêmico. O ensaio de Montaigne não tem compromisso com a verdade, a cientificidade, o saber intelectual ou a historicidade. Para ele é apenas a oportunidade de expressar seus pensamento sobre o assunto que lhe interessa e estimula.

download (1)A terceira obra que foi lida este ano, Os Moedeiros Falsos, de André Gide, datada dos anos 20, época da efervescência nas artes, na literatura, na cultura em geral traz muitas inovações tanto em termos de técnicas como de forma. Mais uma vez eu recorro a Cacilda Portela que a resenhou para dizer que o romance traz o contraponto entre o mundo real e a representação que é feita dele, cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo e do outro. “E o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.
Parece um romance experimental onde o novo e o velho convivem harmoniosamente. Fazendo uso de recursos modernistas, o mise–en-abyme, termo utilizado pela primeira vez por André Gide para explicar a narrativa dentro da narrativa (narrativas encaixadas). O leitor se perde algumas vezes, não sabe qual dos romances está lendo, se o de Édouard ou se a narrativa que o envolve, duas histórias totalmente ligadas entre si, uma contendo a outra. São cartas, diários, ensaios, monólogos e diálogos diretos e indiretos que tornam a leitura senão excitante porque os personagens não criam cenas fortes, à exceção da cena da morte de Bóris, mas certamente rica em termos do aprendizado do fazer literário. Verdadeiro caleidoscópio ou quebra cabeça com uma quantidade enorme de personagens que dão voltas às nossas cabeças para construirmos suas árvores genealógicas, tarefa que nos foi facilitada por Adelaide que as encontrou na web e foram redesenhadas por Mônica.

O narrador de Os Moedeiros Falsos ora posa de onisciente, invadindo os pensamentos e sentimentos mais profundos dos personagens, ora é apenas um observador inocente, dizendo não saber sequer se o personagem jantou ou não. Esse primeiro narrador, sempre na terceira pessoa, quebra o pacto de confiança com o leitor, porque não lhe dá certeza de nada. O segundo, ora na primeira pessoa do singular, ora na primeira pessoa do plural tenta criar um relação com o leitor baseada na cumplicidade, como se ambos estivessem vendo aquela história juntos pela primeira vez e está tão surpreso quanto ele com o desenrolar da história. Ele não posa de senhor sabe tudo, pelo contrário, declara muito ousadamente que sequer sabe se o personagem jantou ou não aquela noite, entre muitas outras dúvidas. Aqui e ali ele toma partido, aparece, se compromete com algumas críticas, cria cumplicidades ao fazer afirmações usando com desenvoltura o nós.

André Gide escreveu um diário para ajudá-lo na escrita de Os Moedeiros, para ir amarrando e desamarrando as linhas e a tal ponto foi importante essa escrita que ele chegou a considerar que estava mais interessado no diário, nas ideias que ali apresentava para o romance do que mesmo em escrever a sua obra. E confessou que se debatia muito contra a tentação de colocar tudo que sabia em Os Moedeiros, daí os ensaios existentes na obra que muitas vezes chegávamos a dizer, aqui André Gide está exibindo os seus pontos de vista:

…seria uma loucura , sem dúvida, agrupar num só romance tudo o que a vida me ensina e me apresenta. Por mais denso que eu pretenda esse livro, não posso incluir tudo nele. E é no entanto esse desejo que ainda me embaraça.

Para conter o desejo de colocar tudo no romance, André Gide usou o diário para tentar identificar os elementos de tonalidades demasiados diferentes, discrepantes. Mesmo assim, como bem diz Cacilda Portela, o romance não tem um tema predominante que se concretize na ação, permitindo variações, desvio ensaístico que ele não quis ou não conseguiu evitar. Outro fator importante que se observou em Os Moedeiros Falsos é a relação estreita entre a ficção e a biografia do autor.São muito evidentes os traços biográficos. Em seu diário, André Gide diz que criaria um personagem que diria tudo que ele gostaria de dizer. No caso, o escritor Édouard.

Os Moedeiros Falsos é um livro grandioso não apenas pelo tamanho, mais de quatrocentos páginas, também pelas suas qualidades técnicas e literárias. Valeu a pena a jornada.

Além das leituras incríveis que foram feitas, trabalhamos também técnicas literárias relativas ao ensaio e à estrutura actancial das narrativas. Esta última foi fundamental para o desenvolvimento da outra pilastra da Oficina: a nossa escrita.

O nosso projeto de escrita desse ano foi ambicioso, mas não impossível. Decidimos elaborar um romance coletivo Se não conseguimos terminá-lo, não era o nosso propósito, quase encerramos a primeira parte. Desenvolvemos um roteiro baseado em três momentos fundamentais da narrativa,: Introdução ou Momento 1, Desenvolvimento ou Momento 2, Conclusão ou Momento 3, com as suas respectivas estruturas actanciais bem definidas. A discussão ajudou-nos a definir tempo narrativo diferentes, cenários rural e urbano e todos os actantes envolvidos no conflito como protagonistas ou auxiliares. Para que os estilos fossem respeitados adotamos modelo similar ao de William Faulkner em Enquanto Agonizo, em que cada capítulo é dedicado a um personagem, permitindo as mudanças de estilos sem dissonância do seu todo.

O primeiro Momento do romance está praticamente concluído. Ele foi desenvolvido por três oficineiros: Paulo Tadeu, Salete Oliveira e eu. A minha parte é a única ainda incompleta, mas ela estará sendo fechada logo, logo. No inicio da elaboração do personagem Jeremias, a nossa viageira Teresa ainda estava conosco e havia participado, mesmo com a sua total permissão para recriar o personagem Paulo Tadeu manteve alguns traços fundamentais do seu perfil.

Deu-me prazer imenso vê a qualidade da escrita realizada pelos meus parceiros, a riqueza dos detalhes contribuindo fundamentalmente para dar verossimilhança à história que estava sendo contada. Os fluxos de consciência, as características dos personagens, os cenários, os flashs backs , os tempos narrativos se alternando entre passado e presente foram escritos com o rigor próprio dos artesãos das palavras experientes e sensíveis.

O Momento 2 e o Momento 3 serão desenvolvidos no próximo ano por Luzia, Salomé, Paulo Tadeu, Eleta, Cacilda que já estão pensando em seus roteiros. Participantes do Momento 1 voltarão com os seus personagens, como Salete e eu,.

Em 2015 criamos o Momento Poético que inicia as oficinas a cada semana e o Carrossel de Livros para a nossa feira de troca de livros.

O Momento Poético aconteceu por uma sugestão de Paulo Tadeu, marujo experiente pelos mares das palavras, mas carente de poesia igual a todos nós. Tão importante foi a criação desse momento que ele passou a ocupar tanto tempo dos nossos trabalhos da Oficina que tivemos de interromper agora nos últimos dias sob pena de não concluirmos a nossa leitura de Os Moedeiros Falsos, de André Gide.

Vários poetas tiveram as suas poesias lidas: Charles Baudelaire, Luís Camões, Sylvia Plath, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa, Sophia Brayner, Murilo Mendes Campos ,Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes, Mario Quintana, Cecília Meireles, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Leminsky, Calderon de La Barca, Manoel de Barros, Daniel Lima. Alguns voltaram mais vezes, como Fernanco Pessoa, Vinícius de Moraes e Carlos Pena Filho.

Estão no blog todos os poemas lidos nas quartas-feiras, além de dados biográficos dos poetas, vídeos com entrevistas e poemas. Como eles o enriqueceram! Este ano o blog foi revitalizado não apenas com os poemas ali postados, mas com a produção de poemas e ensaios dos nossos escritores: Eleta Ladoski, Salete Oliveira, Luzia Ferrão, Cacilda Portela, Salomé. Agradecimento especial a Adelaide que trouxe e leu muitos poesias para nós, além de endereços eletrônicos de poemas primorosos, como o do vídeo com poema lido por Sylvia Plath.

O Carrossel de Livros foi outra criação do final de 2015 que surgiu da leitura de um poema de Paulo Leminsky. Ao ler a sua biografia, descobri que ele havia traduzido Pergunte ao Pó, de John Fante e o título me interessou. Paulo Tadeu que era um leitor antigo de John Fante mo emprestou e eu gostei tanto que quis ler outro livro do autor: O Vinho da Juventude, de contos, muito interessante. Surgiu-me a ideia de iniciar na Oficina essa troca de livros, vez que os viageiros e viageiras têm boas bibliotecas. O nome Carrossel de Livros foi dado por Salete, a nossa oficineira- poeta, muito apropriado. Graças ao Carrossel de Livros conheci autores que há muito desejava conhecer e outros que sequer imaginara ler um dia. No primeiro caso Joyce Carol Oates e Roberto Bolaño; no segundo, Ivo Ándrítich e Modiano. Apesar do curto espaço de tempo, quase trinta livros já passaram pelo carrossel, demonstrando que a nossa iniciativa bem criativa e oportuna, diante da escassez do dinheiro, mais do que isso, tirou das bibliotecas livros importantes que estavam ameaçados pelo mofo e esquecimento. Agora eles circulam alegremente pelo carrossel e saem para passear e alegrar as nossas vidas.

É tempo de aportar, como eu disse no início. O balanço final traz de volta as emoções da viagem! Feliz Natal a todos. Que em 2016 os céus estejam limpos e os mares mansos, são os meus maiores desejos.

Jaboatão dos Guararapes, 15 de dezembro de 2015
Lourdes Rodrigues

  • Epígrafe retirada do livro O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon.,

Poemas às Quartas-Feiras e mais…


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Testamento do Homem  Sensato
Por Carlos Pena Filho

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: Ele era assim…
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.

A nossa viageira Eleta Ladosky repetiu o poeta Carlos Pena Filho nessa última quarta-feira, dessa feita com o forte e belo soneto Testamento do Homem Sensato. Ele foi retirado do Livro Geral que conta com depoimentos de Jorge Amado, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Assisti ao lançamento desse livro em setembro de 2000, com a presença da viúva do poeta, de quem recebi um autógrafo carinhoso.

Após a leitura de Carlos Pena Filho, Salete comentou sobre o lançamento do livro de Miró de quem ela leu alguns poemas interessantes e disse que o autor prefere que os chamem de crônicas. Ela ficou de trazer outras informações sobre o poeta/cronista, assim como ler mais alguns dos seus escritos.

 Mas o que estamos fazendo às quartas-feiras, além de ler poesia? No momento, lemos Os Moedeiros Falsos, de André Gide, que não estava na nossa programação para 2015, mas acabou sendo inserido após a leitura de um escrito desse autor sobre Ensaio, o que nos levou a incluir Montaigne em nossa programação, também não incluído inicialmente.

Sempre quando traçamos a nossa carta de navegação fazemos questão de deixar claro que ela não deverá nos imobilizar. Se no meio da viagem outras paisagens nos seduzirem, traçaremos novos rumos e seguiremos para eles ao gosto dos ventos e das velas. Estavam programados Os Mortos, de James Joyce, A Lição do Mestre, de Henry James e Nadja, de André Breton. Os dois primeiros foram lidos e sobre eles Cacilda Portela escreveu nesse blog. Ambas literaturas instigantes que arrancam o leitor do lugar  confortável que estão e o leva para grandes e profundas viagens quer pelo sentimento controverso do ser humano, quer pela riqueza literária do texto. Com James Joyce, inevitavelmente, falamos no famoso Monólogo de MOlly Bloom, que foi publicado separado do Ulisses, e gastamos algumas tardes nos divertindo e encantando com a sua leitura. Um pequeno desvio de rota para homenagear o autor de Os Mortos que acabáramos de ler.

Nadja, de André Breton, um dos pais do surrealismo,  devia ser a leitura seguinteporém, não conseguimos encontrar o livro em nossas prateleiras ou do mercado. Um desvio de rota se fazia necessário. Antes que o desvio de rota se configurasse algumas discussões sobre Dostoievski, se Os Irmãos Kamarazóv (imenso!, dizíamos, mas traz a questão da morte do pai, vale a pena enfrentar!), se Crime e Castigo (excelente!) acabaram perdendo a parada quando sob o pretexto de trabalharmos como fazer um bom ensaio, encontramos texto de André Gide e de outros autores, todos falando do pai desse gênero de escrita: Montaigne.

Com as primeiras leituras de Montaigne descobrimos quão agradáveis e ricos eram os seus ensaios, livrando-nos do peso que a palavra parecia carregar nos ombros, advindos, com certeza, do seu viés acadêmico.Espero que exercitemos o aprendizado fazendo os nossos próprios ensaios. A edição Penguin, com tradução e comentários de Rosa Freire D”Aguiar, viúva de Celso Furtado, está muito boa e vale a pena ser comprada para ficar à cabeceira e aqui e acolá recorrer a ela para desfrutar bons momentos. .Posteriormente alguns comentários surgirão nesse blog de alguns ensaios lidos; Adotamos Montaigne como nosso padrinho e voltaremos a ele em todas as oportunidades que surgirem.

O desvio de rota com Montaigne levado por André Gide trouxe-nos de volta para ele, quem sabe em agradecimento por Montaigne;  quem sabe atraídos pelo fundador da célebre Editora Gallimard e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1947, editora dos escritores que fizeram a cabeça de muita gente da nosso geração, a minha, por exemplo, como Simone de Beauvoir, Albert Camus, Sartre, entre outros. Sempre soubera que André Gide fora apaixonado pelas técnicas literárias e curioso dos processos de criação, o que representava uma garantia de que a escrita dos seus livros traria esse diferencial.

Deixamos a Russia para depois, aportamos outra vez na França. Os  Moedeiros Falsos é uma leitura muito instigante. Estamos ainda nas apresentações dos personagens e  vários conflitos estão sendo delineados, levando-nos  adiante com muito entusiasmo. Já se percebe a técnica batizada por ele de mise en abyme que consiste na narrativa que contém outras narrativas.Uma caixa que contém várias outras caixas. Mas, falaremos sobre  Os Moedeiros Falsos  numa outra postagem.

Ainda sobre a questão levantada no início desse texto, o que estamos fazendo às quartas-feiras além de ler poesia, respondo que ao lado da leitura de uma obra importante como Os Moedeiros Falsos está a elaboração de um romance coletivo. Para discutirmos roteiro e o andamento da escrita combinamos que as 1ªs quartas-feiras do mês seriam adequadas e assim estamos fazendo. Sobre a escrita dedicaremos uma postagem, posteriormente.

                                          Jaboatão dos Guararapes, 18 de agosto de 2015

                                              Lourdes Rodrigues

 

Viagem pelo Sentir

Viageiros e viageiras,

após breve e agradável remanso em terra firme é tempo de embarcar e içar as velas. Lancemo-nos ao mar que os ventos são favoráveis, o mar convidativo. Se a disposição dos navegantes estiver inspirada no sentir tudo de todas as maneiras, como bem diz o poeta Fernando Pessoa, teremos mais uma grande viagem para anotar em nosso diário, porque esta é a maior de todas as inspirações:

*A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

*Trecho do livro Poemas, de Álvaro de Campos,
Heterónimo de Fernando Pessoa

Se as condições atmosféricas são atraentes, se os navegadores estão movidos pelo desejo de sentir, urge abrirmos a carta de navegação para 2015, cujo desenho não tem a rigidez dos icebergs, mas a flexibilidade das velas sob o humor dos ventos. Assim, se preciso for, outra rota será construída e a nau seguirá em frente em busca de novos sentimentos. Para isso, já temos outra carta em discussão, além daquela que primeiro apontaremos o leme. E parafraseando o poeta português que ora nos inspira: A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.

CARTA DE NAVEGAÇÃO

Leituras:

42691740Os Mortos – James Joyce – A primeira leitura.

Para os que ainda não leram James Joyce é um bom início. Alguns dos nossos viageiros já tiveram oportunidade de ler obras bem mais complexas do autor, tais como Ulisses (tradução de Antônio Houaiss) e Finnegans Wake (pelo menos o primeiro volume, na tradução Donaldo Schuler) aqui mesmo no Traço, em outros grupos de estudos. Eu confesso que participei dos dois grupos e adorei a leitura de Ulisses, tanto que reli várias vezes longos trechos do livro para fazer o ensaio Quem tem medo de James Joyce?ou enjoyceando os diários de Virgínia Woolf. Entretanto, não consegui sequer ler o primeiro volume de Finnegans Wake, embora goste de leituras complexas, herméticas, não me atraiu o suficiente para enfrentar a árdua tarefa que teria à frente.

Os Mortos é um conto do livro Dublinenses que conta a visita de Gabriel Conroy às tias solteironas, professoras de música, que o consideram o sobrinho mais querido. Na volta para o hotel, o personagem tem uma revelação sobre o passado da sua esposa Gretta. A sua reação a tal revelação é o elemento dramático do conto. Trata-se de um texto literariamente consagrado da obra do autor.

Os Mortos, James Joyce, Grua Livros, 1ª Ed, São Paulo, 2014, tradução Eduardo Marks de Marques

42235675A Lição do Mestre – Henry James.

Há muito desejávamos ler alguma obra de Henry James na Oficina. Agora, chegou a hora. Lição de Mestre é uma história bem estruturada, ambígua. São dois personagens fortes o velho escritor George e o seu discípulo, o jovem romancista Paul Overt. Narrada na terceira pessoa, sob o ponto de vista de Paul Overt, trata da incompatibilidade da vida literária relevante com o casamento. Segundo George, a única preocupação do artista literário deve ser com o “absoluto”, visto que nada meramente relativo interessa. Nesse sentido, as esposas podem representar uma “curva perigosa”, pois um escritor que se poupa não constitui nem sustenta uma família. Esta é a lição que ele passa para o seu discípulo que a segue, afastando-se da sua amada. Mas, o leitor ficará surpreso com o desfecho desse aconselhamento. A vida literária londrina também é passada a limpo pelo autor.

A Lição do Mestre, Henry James, Grua Livros, 1ªed. São Paulo, 2014, tradução Paulo Henriques Brito

Nadja_livre_de_pocheNadja, André Breton

Este romance, publicado em 1928, foi um marco no modo de fazer literatura, pela sua proposta radical, de certo modo, antiliterária. André Breton, seu autor, líder do movimento surrealista, movimento de vanguarda que visava, através da exploração do inconsciente, dissolver as barreiras entre arte e vida. Diz-se que é antiliterária porque ele utiliza 47 fotos num pressuposto de que elas darão ao leitor, toda a descrição necessária à compreensão da narrativa. Mas, as fotografias vão além das descrições, pois as imagens para os surrealistas possuem papel preponderante, não foi à toa que muitos pintores famosos já na época aderiram ao movimento, como é o caso de Salvador Dali.
Trata-se de uma história de amor, cheia de mistérios, incertezas. Breton usa o romance para atacar o capitalismo que, segundo ele, impede o sonho como potência subversiva e promove a alienação em massa, criando um sistema de aviltamento a que submete à maioria das pessoas.
Surpreendentemente, no início do romance o personagem se pergunta, Quem sou eu? Em seguida, pergunta a misteriosa Nadja: Quem é você? Eu sou a alma errante.
Nadja não está disponível à venda nas livrarias. Assim, vamos ter de apelar para à biblioteca virtual para consegui-lo.

 LEITURAS COMPLEMENTARES OU ALTERNATIVAS

Crime e Castigo ou Irmãos Karamazov – Dostoievski.

Ainda não definimos o que vamos ler de Dostoievski. Alguns preferem Os Irmãos Karamazov, outros, Crime e Castigo.
Teremos muito tempo para discutir e chegar à melhor opção para o momento da Oficina. Ambas são obras grandiosas,clássicos da Literatura, qualquer escolha vai resultar em ganho e perda, não temos dúvida.Alguns viageiros, já leram as duas obras, eu e Júnior, por exemplo, outros, apenas uma delas, alguns ainda não tiveram essa oportunidade. Mesmo para os que as leram essa leitura coletiva trará uma outra visão literária, sem contar que a memória já não dá conta do que foi lido tantos anos atrás.

irmãos-karamazovOs Irmãos Karamazóv – Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica infecundo; mas, se morrer, produz muito fruto. São João, Cap. XII, Vers. 24 e 25. Esta é a epígrafe do prefácio do livro que foi escrito pelo próprio autor. Dependendo da publicação, obra extensa com 1600 páginas, que envolve analogias sobre conceitos morais da Russia czarista do século XIX, principalmente sobre materialismo, religião e nacionalismo. A célebre frase: Se Deus não existe, tudo é permitido?, está aqui em Irmãos Karamoóv..Freud fez estudos sobre a obra que estão no seu ensaio Dostoievski e o parricídio.

crime-e-castigoCrime e Castigo é um dos maiores romances da história da Literatura, cuja característica maior é a reprodução da angústia psicológica de um personagem que desde o início já sabemos ser um assassino. A trama envolve suspense e grande tensão, de profundidade psicológica única, passado na turbulenta Rússia czarista do século XIX.

o-filho-de-mil-homens-valter-hugo1O filho de Mil Homens – Valter Hugo Mãe

O filho de mil homens narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Com vontade imensa de ser pai, o protagonista conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira.

download (1)O Jovem Törless – Robert Musil.. Descreve a vida de adolescentes em um internato alemão, onde a severidade do sistema
educacional conjuga-se à brutalidade do comportamento dos alunos.
Ed. Nova Fronteira

fogo20morto

Fogo Morto – José Lins do Rego – Obra-prima de José Lins do Rego, esse romance regionalista mostra o declínio dos
engenhos de cana-de-açúcar nordestinos e traça amplo perfil das figuras decadentes que giravam em torno dessa
atividade econômica.

Escritas  O trabalho de artesão do escritor:

  • Continuidade do romance, contos e resenhas.
  • Divulgação no Blog da produção literária

Técnicas

  • Como elaborar uma resenha com análise literária
  • Estruturação do Romance
  • Foco Narrativo, tempo e espaço narrativos

 

 

Lançamento livro da Oficina

Lançamento Escrituras II - Traços da Oficina

Lançamento Escrituras II – Traços da Oficina

 Escrituras II – Traços da Oficina reúne textos dos escritores da Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, os viageiros dos mares das palavras.

A Oficina foi criada em 2006, a partir de um grupo dedicado às leituras clariceanas, o que levou à nomeação de Clarice Lispector como estrela guia. Faz parte do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, associação de psicanalistas, cuja finalidade é promover e desenvolver estudos sobre a Teoria Psicanalítica e as Veredas Literárias, desde a perspectiva freud-lacaniana.

A Psicanálise, em sua origem, relaciona-se com a arte em bases profundas e fundamentais. A Literatura, em particular, se tornou o pilar de sustentação das teorias psicanalíticas, desde que Freud foi buscar suporte em Shakespeare e Sófocles para as suas primeiras formulações sobre o inconsciente e o complexo de Édipo.

Sem dúvida, a Literatura é o grande olho-d’água, lugar de jorro ininterrupto dos muitos saberes. As palavras guardam mistérios. É preciso tecê-las, abrindo portas para os seus significantes. Cada palavra é uma viagem, por isso estamos sempre nos lançando ao mar e nos chamando de viageiros. No leme, o binômio: leitura/escrita. Sempre.

                                            Lourdes Rodrigues

Dostoievski – Passeio pelos subterrâneos

sendbinary2MEMÓRIAS DE SUBSOLO DE FIÓDOR DOSTOIEVSKI

Dostoievski  sempre foi lembrado ao fazermos a programação anual da Oficina. Chegou a sua vez, em outubro de 2013, com Memórias de Subsolo. A opção pela tradução de Boris Schnaiderman, da Editora 34, 6ª edição, deveu-se ao conhecimento e respeito que eu tenho pelo trabalho desse tradutor de obras extraordinárias de Dostoievski, Tolstoi e vários poetas russos de vanguarda. Certa vez, em entrevista, Boris Schnaiderman disse que no início da sua atividade de tradução ficava muito preso à literalidade, mas com o passar do tempo, passou a adotar forma menos mecânica, bem mais natural, por entender que a tradução é acima de tudo uma arte.

O texto que lemos é uma obra de arte literária e se conseguiu nos impressionar é porque a tradução foi realizada com muita maestria. Em seu prefácio, Bóris Schnaiderman traz  importantes opiniões sobre o livro, entre elas, o impacto que causou em Nietzsche: Um achado fortuito numa livraria: Memórias do Subsolo de Dolstoievski (…) A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites. E ainda as opiniões de André Gide: o ponto culminante de toda a sua obra; de George Steiner: provavelmente o mais dostoiesvskiano dos livros e uma verdadeira suma de toda a sua obra; de Górki:  Para mim, todo Nietzsche está em Memórias do Subsolo.

Mas, antes de falar sobre Memórias do Subsolo gostaria de tentar traçar em grandes linhas o cenário do autor, a Russia do seu tempo, para entender as circunstâncias que envolveram a sua vida literária e política e  que culminaram com a escrita dessa obra.

Fiódor Dostoievski nasceu em Moscou, em novembro de 1821. Ano rico para a literatura porque, Dostoevskij_1872também, nasceram nesse ano, na França, Charles Baudelaire (abril) e Gustave Flaubert.(dezembro). O ano registrou ainda, grandes mudanças na geografia política com a redistribuição  das fronteiras  hispanofônicas a partir do reconhecimento pela Espanha da independência da Venezuela, Peru, Guatemala, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador e México. No Brasil, com a volta do Rei D. João VI para Portugal, deixando D.Pedro I como Regente, começou a se delinear com mais nitidez também o que viria ocorrer em 1822, a sua independência.

A vida de Dostoievski foi marcada por grandes perdas desde cedo. Ainda na adolescência, ficou muito clara para ele a opção pela literatura. A morte da mãe, deixando o pai, médico de  hospital público, com 7 filhos para criar mudou tudo. Esta foi a primeira guinada de cento e oitenta graus em sua vida. O pai tornou-se alcoólatra e sentindo-se incapaz de administrar a família, mandou os dois filhos mais velhos, Mikhail and Fyodor  para a academia militar de São Petersburgo, com o objetivo de garantir o futuro deles. Dostoievski jamais tivera interesse em ser militar e pelo resto de sua vida ele iria se ressentir do grande erro que havia sido cometido pelo pai ao forçá-lo a seguir essa carreira. Em várias obras, os personagens trazem esse ranço contra a academia e os militares. O personagem narrador de Memórias do Subsolo revela  hostilidade aos militares, em especial ao oficial que ele encontra numa taverna, numa sala de bilhar. Por conta de um gesto que ele considerou humilhante, passou a persegui-lo daí em diante. Vejamos a cena primeira:

            Eu estava em pé junto à mesa de bilhar, estorvava a passagem por inadvertência, e ele precisou passar; tomou-me então pelos ombros e, silenciosamente, sem qualquer aviso prévio ou explicação, tirou-me do lugar em que estava, colocou-me em outro e passou por ali, como se nem sequer me notasse.Até pancadas eu teria perdoado, mas de modo nenhum poderia perdoar que ele me mudasse de lugar e, positivamente, não me notasse. (…) Oh, se aquele oficial fosse dos que concordam em lutar num duelo!

Por outro lado, a sua conexão com São Petersburgo foi total, achou a cidade  intensa, abstrata, e, no futuro, os seus personagens também expressarão essa opinião: esta é uma cidade de gente meio louca. Raramente se encontra um lugar com tantas influências sombrias, intensas e estranhas sobre a alma humana, como em São Petersburgo. (…) É uma particular desgraça viver em Petersburgo. O personagem de Memória do Subsolo reclama: …que tenha a infelicidade de habitar Petersburgo, a cidade mais abstrata e meditativa de todo o globo terrestre. Porém, há um momento em que ele diz claramente que não deixará São Petersburgo: Mas ficarei em Petersburgo; não deixarei esta cidade! Não a deixarei porque…Eh! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o fato de que a deixe ou não. 

Ele amou São Petersburgo. Aquela foi a cidade de sua juventude, onde despontou como escritor, conheceu o sucesso e viveu trágicas experiências, pesadas perdas. Jamais teve o seu próprio apartamento, sempre morou em locais alugados. Durante os vinte e oito anos de sua permanência em São Petersburgo mudou vinte vezes e jamais morou mais de três anos na mesma casa. Os apartamentos situavam-se sempre em encruzilhadas, bifurcações, locais típicos dos edifícios para aluguel. Os seus personagens também moravam nesse tipo de edifício, ele sempre usou na escrita imóvel similar ao que ele vivia ou vivera. Talvez a sua necessidade de mudança estivesse ligada às exigências da sua criação literária. Das trinta obras de Dostoievski, cerca de vinte tiveram como cenário narrativo São Petersburgo. Essa cidade estranha, muito particular e misteriosa no dizer de Dostoievski oferecia-lhe a ambientação adequada para que em suas novelas o fantástico emergisse na mediocridade, as idéias insanas aparecessem e os crimes fossem cometidos: All of this is so vulgar and ordinary that  I almost borders on the fantastic.[i]

Graduado pela academia militar e designado para o Corpo de Engenheiros, embora Dostoievski jamais tenha abandonado o seu sonho literário, viu-se obrigado a permanecer ali para garantir a sobrevivência. Sempre preocupado em ganhar mais algum dinheiro, iniciou o seu trabalho como tradutor, chegando a traduzir, em duas ou três semanas, Eugene Grandet de Balzac, 365 páginas. As suas traduções não eram simplesmente literais, poderiam mais serem vistas como um tipo especial de literatura, não simplesmente a de Balzac, nem a de Dostoievski, mas a soma criativa dos trabalhos de dois grandes escritores.

Dostoievski reconhecia na leitura a sua principal escola de literatura. Lia compulsivamente, apaixonadamente. A leitura exercia estranho efeito sobre ele. Costumava reler as obras que ele gostava e dizia que novas inspirações, novos insights surgiam dessas releituras, assim como as habilidades para fazer as suas próprias criações. Em várias obras, os protagonistas são leitores e o livro escolhido para eles lerem nunca foi acidental, por exemplo, Nastasia Filippovna, personagem de O Idiota lia Madame Bovary às vésperas da sua morte.

Os personagens de Dostoievski não são apenas grandes leitores, eles têm personalidade muito criativa e tentam viver todo esse potencial criativo. Mas, inicialmente, as suas escritas estavam associadas aos seus anos na academia quando ele ainda sonhava com o sublime e o belo. Desde as primeiras páginas de Memórias do Subsolo que o personagem alude ao belo e sublime: o narrador se queixa de que este “belo e sublime” (sempre dentro de aspas) apertou com força o seu crânio durante quarenta anos. O tradutor, em nota, diz que é uma alusão à obra de Kant: Observações sobre os sentimentos do belo e do sublime (1764) que havia tornado a expressão muito popular entre os críticos russos das décadas de 1830 e  1840. Ele destruiu tudo que escreveu naquela época, ao descobrir que não havia nada mais fantástica que a realidade em si mesma.O personagem de Memórias do Subsolo se refere com desprezo a essa visão filosófica kantiana:. Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo que é “belo e sublime”, tanto mais me afundava em meu lodo, tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo.Ao começar a olhar ao seu redor,observando os semblantes das pessoas com acuidade, estranhas e maravilhosas figuras, possíveis personagens ele foi descobrindo

             Era como se eu houvesse entendido naquele minuto algo que antes só havia mexido em mim, mas não houvera compreendido; como se visse o mundo através de algo novo, completamente novo e desconhecido; apenas conhecido por algum tipo de sinais misteriosos. Eu penso que foi precisamente nesse momento que a minha existência começou.

Não foi à toa que o seu primeiro livro, o que ele iniciou a carreira literária, Gente Pobre, o protagonista não era um herói romântico, mas um pobre e comum escriturário a quem ele deu roupagem literária, subvertendo o gênero por completo e sendo recebido efusivamente pelo público e pela crítica literária da época. Trata-se de um romance epistolar em que um  funcionário público de escalão inferior e a sua vizinha, uma órfã, ambos humilhados e injustiçados pela sociedade, trocam cartas, permitindo ao leitor acompanhar as pequenas alegrias e as dores dos dois personagens, captando as suas emoções, os seus valores, os seus sonhos, tudo escrito com muita maestria.

Pouco depois da publicação desse livro, Dostoievski foi preso por pertencer a um grupo de jovens e intelectuais que se auto-denominava de fourierista, fascinado pelas idéias do socialismo utópico de Charles Fourier, de uma idade de ouro para a humanidade. Este grupo sonhava com um futuro melhor para a Rússia, mas o Czar Nicolau I assustado com a onda revolucionária que atingia a Europa e ainda sob o temor do que acontecera na Revolução Francesa mandou investigar esses jovens que se reuniam em torno do poeta Mikhail Petrashevski, mandando prende-los, entre eles, Dostoievski. No alvorecer da sua força criativa, Dostoievski, mais uma vez, foi arrancado do seu sonho literário.

Durante oito meses ele ficou em uma solitária da Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Depois, foi enviado para fazer trabalhos forçados em Omsk Prison, por mais quatro anos até ficar exilado na Sibéria por seis anos. O pior de tudo, no entanto, foi a terrível experiência que ele passou. O Czar Nicolau I decidiu punir os idealistas de forma cruel para que servisse de exemplo aos seus contemporâneos. Na madrugada de 22 dezembro de 1849, oito meses após a prisão, eles foram levados para um espetáculo público, onde a execução iria ser promulgada.O ritual da execução penal foi seguido em sua totalidade, soldados perfilados, estáticos, um padre, com um grande crucifixo de ouro nas mãos, marcha à frente dos condenados. Amarrados em estacas, os prisioneiros estão diante do pelotão de fuzilamento. O comandante, acompanhado pelo rufar dos tambores, lê a sentença em voz alta, terminando com as palavras: morte por fuzilamento. Novo rufar dos tambores, ele ergue a mão para ordenar a execução quando, no último momento, surge um mensageiro, trazendo nas mãos nova ordem do Czar: a sentença fora comutada para trabalhos forçados e de serviço no exército. O Czar Nicolau I havia decidido se divertir  às custas deles, usando até mesmo fundos públicos para financiar esta fingida execução. O grupo viveu os piores momentos de sua vida esperando o fuzilamento. Dostoievski descreve em sua novela O Idiota, nas palavras do Prince Myshkin esse momento:

                 O homem foi trazido para a plataforma com alguns outros, e a sentença de execução por fuzilamento, por crime político, foi lida. Em cerca de vinte minutos o perdão foi igualmente lido, e um tipo diferente de punição designada.; contudo, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos ou no mínimo  um quarto de horas, ele havia vivido com a firme convicção que em poucos minutos ele iria subitamente morrer. Ele lembrou cada coisa com inusual claridade e disse que jamais iria esquecer o que aconteceu naqueles minutos.

Esse fato marcou profundamente Dostoievski. Estar  vivo era o que contava, mesmo diante da possibilidade de passar o resto dos seus dias na prisão, conforme ele mesmo o disse ao ser irmão em carta escrita logo após a simulação do enforcamento:

                Vida é vida em qualquer lugar, a vida está dentro de nós, e não no mundo exterior. As pessoas vão estar ao meu lado,  e ser um ser humano entre pessoas e manter-se único sempre, sejam quais forem os infortúnios que acontecem, não cair em desespero e perecer – isto é o que é a vida, esta é sua missão. Eu percebo assim. Esta ideia entrou em meu corpo e sangue.

Os biógrafos de Dostoievski, todavia,  dizem que a escrita dele está dividida em dois momentos, antes da prisão e depois dela. Dez anos depois quando ele volta para São Petersburgo e reinicia as suas atividades literárias com sofreguidão, em busca do tempo perdido, a sua escrita já não é mais a mesma, está marcada por uma década de pesadas e dolorosas experiências conforme se poderá comprovar com a leitura de Humilhados e Ofendidos e Recordação da Casa dos Mortos.Se antes da prisão Dostoievski acreditava numa idade de ouro para a humanidade, mesmo que para isso fosse necessário fazer uma revolução, após a sua volta ao mundo dos vivos ele já não acreditava mais nessa via, pelo contrário, estava completamente convencido que a violência não traria felicidade para a humanidade.Após viagem à Europa, viagem que ele havia sonhado muitos anos, ainda antes de ser preso, para ver e sentir o que estava acontecendo por lá, deixou-o completamente frustrado, desiludido. Ele chegou à conclusão de que a proposição da Revolução Francesa, Liberdade, Igualidade, Fraternidade era falsa, apenas uma frase que carecia de profundidade. As suas impressões estão no livro Notas de inverno sobre impressões do verão, livro que ele trabalhou quase simultaneamente às Memórias do Subsolo,  onde a ideia principal é a impossibilidade do ser humano reger a sua vida com base na razão.Não é à toa que o personagem de Memórias do Subsolo descrê de todas as utopias, de qualquer possibilidade de existência de um mundo harmônico ou  Palácio de Cristal, sob o argumento de  que  ele seria apenas uma pequena roda dentada dessa engrenagem.

O personagem de Memórias do Subsolo está convencido de que todo o significado da existência humana reside na afirmação da vontade irracional, e ele resiste a toda argumentação matemática da razão. Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença. Insisto nisso. 

E ele continua com os seus paradoxos:

Sou homem doente…Um homem mau. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei ao certo, do que estou sofrendo.Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.)  (…) Menti a respeito de mim mesmo quando disse, ainda há pouco, que era um funcionário maldoso. Menti de raiva. (…) Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. 

Mas ele se considera inteligente e é por conta dessa inteligência que não consegue tornar-se algo, pois somente os imbecis o conseguem. Esta é um reflexão que ele faz em cima dos seus quarenta anos de vida: Esta é a convicção do meus quarenta anos. Por outro lado, ele diz que viver além dos quarenta anos (que ele considera a mais avançada velhice) é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? Respondei-me sincera e honestamente. Vou dizer-vos: os imbecis e os canalhas. Vou dizer isto na cara de todos esses anciães respeitáveis e perfumados, de cabelos argênteos. O interessante é que ele se acha com propriedade para falar dessa forma, de agredir a todos os que são velhos  porque ele vai viver até os sessenta! até os setenta! até os oitenta! Em outro momento, se referindo à própria inteligência ele se declara culpado de ser tão inteligente: …tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta.(Considerei-me, continuamente, mais inteligente que todos à minha volta, e às vezes – acreditam?- tinha até vergonha disso. Pelo menos, a vida toda olhei de certo modo para o lado e nunca pude fitar as pessoas nos olhos.)

Memórias do Subsolo foi escrito em 1864, quando o escritor vivia momentos muito difíceis com a sua esposa à beira da morte, atacada de tuberculose. Ainda quando estava no exílio, Dostoievski conheceu Maria Dmitrievna, viúva, o primeiro marido havia morrido por conta do alcoolismo, deixando-a com uma criança de seis anos de idade sem condição financeira de criá-la.Nesta época, com a ajuda de amigos, ele passou a ocupar função de oficial subalterno em Semipalatinsk, na Sibéria, onde ainda se encontrava exilado. Para ele que estava recém saído da prisão, vivendo ainda sob controle no exílio, encontrar essa ainda jovem mulher, de vinte e oito anos, bonita, inteligente,  muito educada, esperta, amigável, graciosa (com todos esses elogios, ele falou sobre a jovem viúva para o irmão) deu a Dostoievski sentimento de liberdade, de felicidade e retorno à vida normal. Eles se casaram e dois anos depois foi permitido a ele deixar a Sibéria, por questões de saúde, mas foi direcionado para Tver e proibido de entrar em Moscou, São Peterburgo ou adjacências.Mas ele não se demorou muito em Tver, conseguiu finalmente autorização para voltar para São Petersburgo, exatos 10 anos depois dali ter saído, em 1859.

A vigilância sobre ele permaneceu até 1875, foram 26 anos sob controle da polícia desde a sua prisão em 1849, isto significava que toda a sua correspondência era lida, todos os seus movimentos acompanhados. Isso levou-o, sem dúvida, a criar os seus personagens com tanta ânsia de liberdade, tão ávidos por decidir eles próprios seu destino.

Memórias do Subsolo é um grande livro que deve ser lido e relido muitas vezes.

                                             Jaboatão dos Guararapes, 02 de dezembro de 2013

                                                        Lourdes Rodrigues


[i] Tudo isso é tão vulgar e comum que quase beira o fantástico. A Guidebook – The Dostoievsky Museum In Saint Petersburg. N.Ashimbaeva, V. Biron

Colono ou Pedra Branca

Ao iniciarmos a leitura de Édipo em Colono, de Sófocles, coincidentemente, havia lido há pouco sobre Pedra Branca ou Colono no livro Os dez amigos de Freud, de Sérgio Paulo Rouanet. Ali ele faz a análise das escolhas literárias de Freud. No capítulo que ele se refere a Anatole France, e à prioridade que Freud dera dentre as obras do autor, ao romance SobrePedra Branca, ele diz que talvez isso tenha ocorrido porque o livro havia sido lançado pouco tempo antes de Freud fazer a lista. Mas ele acrescenta que a escolha poderia ter sido, também, pelas muitas possibilidades analíticas que o romance permite, o que era bastante comum nas obras daquele autor.

O termo “pedra branca” para os gregos da Grécia antiga é muito  rico em simbolismo psicanalítico, segundo Rouanet. Pedra Branca era um acidente geográfico, cabo situado ao sul da ilha de Lêucade, onde havia um templo de Apolo. A sua história mítica está ligada ao amor e à sexualidade, à polaridade amor-morte, Eros-Tanatos.Por amor, as pessoas se jogavam no mar, do alto do rochedo. Segundo Menandro, Safo teria se suicidado nesse lugar, por amor a Phaon. Contudo, de acordo com uma tradição mais tardia, a primeira a jogar-se do Cabo Lêucade, por amor, teria sido Afrodite, em pessoa, desesperada com a morte de Adônis.  Sexo, na Pedra Branca, também estava ligado à embriaguez, essa morte provisória. Num drama satírico de Eurípedes, O Ciclope, Sileno diz que daria tudo para beber um copo de bom vinho, mergulhando, da Pedra Branca, num estado de embriaguês, no qual “é permitido fazer aquela coisa ficar dura, agarrar um seio e tocar com as duas mãos a vulva”.

Colona (ou Colono) está na geografia mítica da Grécia, na descrição de Sófocles, como “branca” . Em Édipo em Colono Sófocles diz que o “herói foi engolido pelo mundo subterrâneo perto da rocha de Thorikós, na cidade ‘branca’ de Colona.” Thorikós, diz Rouanet, deriva do substantivo sêmen, que por sua vez é construído a partir do aoristo do verbo saltar. “Saltar e ejacular, isto é, produzir um líquido ‘branco’ que ‘salta’ de um ‘cabo’, pertencem assim ao mesmo universo etimológico e simbólico,”

Rouanet diz ainda que Freud poderia seguir uma outra trilha associativa, vendo na pedra branca não somente um símbolo sexual ou o cenário da junção entre ao amor e a morte, mas uma fronteira entre a consciência e a inconsciência, pois em todos os nossos exemplos a pedra branca assinala a passagem do estado consciente para um estado de perda de consciência: perda definitiva, no caso da morte, ou temporária, no caso da embriaguês e do sono.

Colono, saindo da análise de Rouanet, foi o local para onde retornou Sófocles quando estava muito velho, próximo à morte. Ali ele escolheu para levar Édipo, depois de muitos anos de andança, para finalmente fazer o seu mergulho definitivo, saindo para sempre da vida onde ele conheceu os sofrimentos mais abomináveis que um ser humano poderia suportar: matar o próprio pai e casar com a mãe.

 

Jaboatão dos Guararapes, 21 de maio de 2013

Lourdes Rodrigues