Poesias, às Quartas Feiras

Continuamos com o nosso momento poético, toda quarta-feira, no início da Oficina. A última vez tivemos João Cabral de Melo Neto trazido por João Gratuliano.

João Cabral sempre teve espaço privilegiado na Oficina, aqui e ali o poeta e trechos de suas poesias surgiam. Teresa Sales, navegante das primeiras horas, agora em viagem particular e amorosa pelas Minas Gerais, publicou excelente livro sobre um suposto (ficcional) encontro entre dois ilustres pernambucanos: Josué de Castro e João Cabral, pela Editora Cortez, que todos devem procurar ler.

João Gratuliano trouxe vários poemas e um vídeo do autor falando sobre a sua visão de poesia. Aqui ficam registrados esses momentos.Joao-Cabral-610x350

João Cabral de Melo Neto, poeta, diplomata brasileiro, nasceu na cidade do Recife em 1920. Cidade que ele trouxe para os poemas através dos seus rios.

Primo de Manuel Bandeira, pelo lado paterno, e de Gilberto Freire, pelo lado materno, pode-se dizer que a poesia, a literatura, a sociologia faziam parte do seu DNA, elementos fundamentais na sua escrita poética..  Passou a infância em engenhos de açúcar, conhecendo de perto o funcionamento, as relações de trabalho, as condições de vida dos trabalhadores da cana de açúcar. Mas, o poeta gostava mesmo era de futebol. Com a mudança da família para o Recife ele se tornou campeão juvenil do Santa Cruz Futebol Clube em 1936, aos 15 anos de idade. O seu primeiro emprego formal, entretanto, se deu na Associação Comercial de Pernambuco; depois, no Departamento de Estatística do Estado. Por essa época já mostrava o seu interesse pela literatura, participando de encontros literários com Vicente do Rego Monteiro, entre outros.

Foi quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, contudo, após os anos 40, que seu interesse pela literatura se consolidou: apresentado a Murilo Mendes  a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia em torno de Jorge de Lima. Em 1942 publica o primeiro livro, Pedra do Sono. Aprovado em concurso no Rio de Janeiro, continua a frequentar os intelectuais que agora se reuniam no Cafe Amarelinho e Café Vermelhinho, quando publica Os três mal-amados na Revista do Brasil.  Em 1945, publica O Engenheiro. Logo depois faz concurso para ingressar na carreira diplomática. Casa-se em fevereiro de 1946 com Stella Barbosa e em dezembro nasce Rodrigo. No ano seguinte vai para o Consulado Geral de Barcelona, como vice-cônsul. A atividade literária se intensifica com a aquisição de uma tipografia  artesanal que passa a publicar escritos de brasileiros e espanhóis. Em 1950 é transferido para Londres, ali publica O Cão sem Plumas. Dois anos depois, volta ao Brasil para responder inquérito que o acusa de subversão.Escreve o livro, O rio, em 1953,.Enquanto responde inquérito é afastado do Itamaraty, fica em disponibilidade, sem rendimentos e começa a trabalhar como jornalista. Arquivado o processo, ele volta à Recife com a família, onde é recebido com muitas homenagens. Um ano depois, é reintegrado à carreira diplomática, passando a trabalhar no departamento cultural do Itamaratiy. Nasce a sua filha Isabel e ele recebe prêmio da Academia Brasileira de Letras.

Em 1956, a Editora José Olympio publica Duas Águas com todos os seus livros anteriores e os inéditos: Morte e Vida Severina,  Paisagens como figuras e Uma faca só lamina. Transferido para Barcelona, passa a residir em Servilha para fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias. Volta ao Brasil, para assumir o cargo de chefe de gabinete do Ministro da Agricultura, no Governo de Jânio Quadros. Com a renúncia deste vai para Madri, depois muda-se para Sevilha. Em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidos, em Genebra, onde nasce o seu quinto filho.Como conselheiro, muda-se para Berna.

Em 1966, O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, musicado por Chico Buarque, encenado em várias cidades brasileiras, depois no festival de Nancy, em Paris, depois em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy ele recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival.. A Educação pela Pedra lhe dá o prêmio Jabuti . Em 1967 volta a Barcelona como cônsul geral. Em 1968 é eleito para a Academia Brasileira de Letras. O seu périplo por embaixadas continuou até 1990 quando se aposentou e publicou Sevilha andando. 

Atormentado por uma dor de cabeça crônica, ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, inclusive que o cegaria, afastou-se da escrita, tendo a sua segunda esposa Marly passado a escrever para ele alguns textos. Quando recebeu o Prêmio Luís Camões, foi ela que escreveu  o discurso de agradecimento, Como não era admirador da música, a depressão foi se intensificando e ele acabou perdendo a vontade de falar, Não tenho muito o que dizer,,

Em 1999 o nosso grande poeta, o mais próximo que tivemos como pernambucano de um prêmio Nobel, calou-se para sempre, mas a sua obra o perpetuou e continua sendo lida, representada, cantada em todo o Brasil e grande parte do mundo..

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

O Cão Sem Plumas

 

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Uma Faca só Lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

Alguns Toureiros

 

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.

 

Morte e Vida Severina

 

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

O Relógio

 

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.

Difícil Ser Funcionário

 

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

Fábula de um Arquiteto

 

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

Num Monumento à Aspirina

 

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

Finalmente

Finalmente

*Everaldo Soares Júnior

Duas horas da madrugada, quando cansado não adormeço, ela não! dorme profundamente, ressona alto.Queria ser assim, mas as preocupações! Que faço com essas insistências tão irritantes?
Fecho o livro, não adianta. O percurso é o mesmo, banheiro, depois, a cozinha. Bebo água, gelada é melhor, vou relaxar.
Tsisis, tsisis, tsisis…
Cigarra tocando a essa hora, só faltava essa! Estranho, já são quase três, mas só ela continua roncando.
Quem é?
Abra, preciso falar com você.
Mas quem é?
Não se faça de inocente, você sabe muito bem.
Se identifique e diga o que quer?
Vou fazer um escândalo, não duvide.
Espere.
Assim é melhor.
Finalmente, eu o encontrei, fujão!
O que é isso?
Vai começar com as juras mentirosas? Não acredito mais, tudo mentira cavilosa e temos muito que acertar. E vamos logo ao assunto, no momento que lhe disse que estava grávida de um filho seu, ouvi belas enganações amorosas, depois sumiu, escafedeu-se. Sou tola até certo limite, agora o encontrei. Uso a lei e acabo com sua pose de conquistador de meia tigela.
Calma, há um equívoco nisso tudo.
Equivocada fui eu. Vamos logo, acenda a luz.
Epaminondas, está falando sozinho?
Ah! O seu nome é esse?
Sou Epaminondas Paraíso, não conheço a senhora.
Então vai ver mesmo quem é a mulher de verdade.
Que gritaria, estava dormindo, acenda as luzes da sala Nondas.
A visitante trapalhona era loura, alta, nem feia e nem bonita. Começou a chorar, o soluço cortava sua voz
Meu Deus que vergonha!!! Tudo por causa daquele safado
Tome um pouco d’água, lhe fará bem. Nondas, traga logo uma água com açúcar.
Obrigada, senhora, não sei o que falar.
Vou abrir a janela, está abafado.
Tenho quase quarenta anos e me apaixonei profundamente, sinto ódio e cada vez fico mais presa aquele safado, perdi até o bom senso. Ele era amoroso, disponível comigo, mas ultimamente estava diferente, arredio, às vezes grosseiro. Não aguentei, vinha o ciúme, a raiva e o medo de perdê-lo. Estou grávida. Loucura mesmo. Perdi minha mãe cedo, meu pai fez outra família, fui criada pela minha avó e pela minha tia. Já viu a complicação.
Calma, agora tem o filho para você cuidar
Desculpem-me, vou embora, chamo um táxi conhecido. Essa rua é a Hernesto Veras?
Não, aqui é a Hermenegildo de Maria.
Quero dormir, vou tomar um calmante fitoterápico.
Se quiser, volte para conversar.
Obrigada, apesar do meu vexame, foi bom conhecê-los.
Ainda está chovendo.
Está passando, o carro não demora, o motorista já dirigiu outras vezes para mim.
Ouviram a zoada do táxi partindo. Na casa voltou o silêncio.
Nondas, feche a janela, vamos dormir.
Eufrazina, faça-me um chá de camomila. Jamais a doce de coco faria uma desfeita assim comigo. Finalmente, preciso relaxar.
Nondas, seu calmante sou eu.

  • Médico, Psicanalista, ensaísta, contista.

A Escrita Criativa e O Patinho Feio

A ideia subjacente à Escrita Criativa é a criação de algo diferente, algo que espante não só ao seu autor como e principalmente a quem o irá ler depois. O conforto de trilhar caminhos conhecidos é muito difícil de ser abandonado! Alguns começam colocando um pé devagarinho para avaliar a profundidade das águas que vai mergulhar. Outros ficam a espreitar o mar. Poucos se aventuram a se jogar nas águas mesmo pairando dúvidas sobre a sua capacidade e fôlego para nadar

Os viageiros da Oficina são marujos experientes e estão imbuídos do desejo de sair da zona de conforto para se aventurarem em águas mais profundas onde o desconhecido, o novo poderão advir. Mas eles não têm pressa, sabem que há um caminho a ser caminhado antes de chegar lá e irão trilhá-lo com destemor e determinação.

O primeiro desafio foi criado com o conto de Andersen: O Patinho Feio. Pedi que reescrevessem o conto com o máximo de liberdade, desde a mudança do personagem, do foco narrativo, tempo e espaço da narrativa. Ainda estamos recebendo contos, outros já estão sendo reescritos partindo do pressuposto de que no ato de criação nenhuma amarra sintática, nenhuma dissonância fonética ou estética deverão ser objeto de preocupação sob pena de bloquear o fluxo criativo  ou quebrar o ritmo da escrita. Após esse primeiro momento é que se dá início ao processo artesanal do escritor onde todos os aspectos anteriormente ausentes vão ser contemplados, onde o texto irá passar por sérios e importantes cortes, profunda assepsia para deixá-lo no tamanho certo, com o tom requerido, a  beleza almejada. Cortar palavras não é fácil, mas é fundamental para todo aquele que se propõe a ser escritor. Edgard Allain Poe em A Filosofia da Composição, diz que o escritor deve planejar nos mínimos detalhes a sua obra antes de começar a escrevê-la. Na Escrita Criativa abrimos mão de toda cientificidade nesse primeiro momento para dar espaço e liberdade plena à criação.

O Conto Patinho Feio  de Everaldo Soares Júnior, viageiro da primeira hora, médico, psicanalista, ensaísta, contista já passou por todo esse processo e se encontra pronto para ser apresentado e é o que faremos agora:

O Feio

*Everaldo Soares Júnior

Sim, agora sou um cisne, branco como os outros, tenho postura imponente, flutuo nas águas da lagoa, mas não canto, Deus me livre!

Essa história já é bastante conhecida, foi o Hans Christian Andersen quem fez a invencionice de espalhá-la. Passei tempos desnorteado, mal estar diferente.

Houve um equívoco, nasci chocado por uma pata, porém era diferente dos irmãos patinhos, todos amarelinhos, contentes, enfileirados, tomando banho na lagoa. Andavam com os pés de lado, dez pras duas horas, bico chateado com o quá, quá, quá estridente, barulho infernal. Eu calado, só observando. É, mas a pata dizia, ele é pato, ou seja: meu filho! Gostava, o estranhamento se afastava um pouco de mim.O pai era omisso, quando não, era agressivo e desconfiado. Dizia que eu não tinha semelhança com ele.

O tempo foi passando, às vezes brincava com os outros, mas na maioria preferia ficar sozinho, cantar, de jeito nenhum!

Um dia, arrisquei ir para outra lagoa mais distante, maior e de águas bem limpas, parecia um lago estrangeiro, aquele que se ouvia a valsa famosa, mas eu não sabia cantar. Olhava as outras aves do lugar, brancas, altivas, todas deslizando na água azul. Olhei e vi uma branquinha, dos olhos claros, piscando para mim, fiquei nervoso. Mas, olhos nos olhos nos aproximando e agora? Não tive dúvidas, ficara fisgado pela linda avezinha. Rolou uma conversa, falei muito de meus antepassados desconcertantes. Ela ouvia com atenção e a leveza se instalou no momento dos nossos bicos se tocarem por um bom tempo. Sorrimos e continuamos juntinhos. Beleza! O paraíso está nessa lagoa!

Passaram os tempos, nasceram patinhos, ou melhor, cisnezinhos, branquinhos e lindos, formávamos a família feliz.

Uma tarde, quando o crepúsculo derramava suas cores alaranjadas, a estranheza voltou. Que diabo é isso? Estava tudo bem nessa sucessão de belos dias e agora a repetida imagem estranha volta e acaba com tudo. Desconfio que ela me é familiar, de algum modo. O feio é o que não quero ver em mim mesmo, vai para longe, inferno dos outros! Deixa-me em paz! Estranhe, se quiser, mas eu não canto.

  • Everaldo Soares é médico, psicanalista, ensaísta, contista.

Diferente de Andersen, O Patinho Feio de Júnior não resolve seu sentimento de rejeição e estranhamento quando se depara com a sua tribo. As afinidades e o amor com a cisne branquinha de olhos claros, e o nascimento dos filhotes não foram suficientes para afastar dele nos belos dias a velha sensação de estranheza que lhe era familiar de algum modo. E ele arremata, O feio é o que não quero ver em mim mesmo. (…) Estranhe, se quiser, mas eu não canto. 

Luzia Ferrão também optou por não encontrar saída para o seu patinho feio no encontro com a sua turma.  Após a triste travessia da descoberta pelos colegas que não era tão bonito quanto a sua mãe dizia, ele parece abandonar a luta, assumir a feiura e ganhar dinheiro com ela expondo-se ao horror do público frequentador do circo. Apesar disso, preserva a mãe dizendo que é artista de circo, sem expor  a humilhação a que ele se submete. Trouxe a sua história para os tempos atuais e para o ser humano. Usou um narrador na terceira pessoa para contá-la.

O monstrinho

*Luzia Ferrão

Quando nasceu era de fato horrível, vale dizer, fugia aos padrões da normalidade, na opinião dos parentes, amigos, dos que conviveram com ele, menos de sua mãe. Era filho único, realizou o maior desejo dela – ser mãe- Foi um grande presente, um dádiva divina, a um ser que não se sentia merecedor de nada. Sentia-se tão gratificada que tratou como normal, os pezinhos tortos, o estrabismo e o lábio leporino do seu filhinho querido. Os “consertos” não ficaram assim tão perfeitos, mas que importância traria essas pequenas falhas, num ser tão amado? Virou mantra, repetida com frequência: Meu filho amado e lindo!

Chegou o dia do menino abandonar o ninho e ir à escola. No novo ambiente o mantra mudou: beiçola, Frank, Zé monstrinho, dois ou mais repetiam quando por ele passava.

Acariciado extremamente, o filho lindo e querido trocou o alivio que as palavras confortadoras da mãe lhe dava por uma raiva não identificada por ela. Uma raiva incontida do tom monótono da voz, dos carinhos, da presença que se tornara insuportável. A relação se esgarçava, se rompia, aflorando uma culpa da maldade por alguém que só lhe deu amor. A promessa embutida nas palavras seriam a garantia de felicidade dentro e fora do ninho, mas que se tornaram impeditivas de responder às angústias advindas de tanto amor. Estava travada uma corrida em círculo, por vezes vencia o amor, por vezes o ódio. Diferente da mãe que estava realizada desde que o abrigou dentro de si, que dela se apartou, mas não desapareceu nunca de sua vida, sem mistério, sem culpa, amor incondicional.

O convite foi a porta que se abriu para fugir: o papel de homem monstro estava vago no circo ambulante.  Com apenas uns pequenos retoques,  maquiagem e ensaios de gritos, seguidos de som acústico para assombrar a platéia. Tornou-se artista permanente.

“Querida mãe,

orgulhe-se do seu filho, sou o mais novo artista do circo. Um beijo”

fd

  • Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

Sandy Wexler film trailer

O Patinho Feio em Cordel

DIFERENTE

*Salomé Barros

Eu já nasci estressado
Assustado e carente
Não queria abrir os olhos
Pra não ver o ambiente
Aos poucos fui descobrindo
Que eu era diferente

Minha mãe me acolheu
Mas me disse paciente
Demorou tanto a nascer
Que o ovo ficou quente
Os outros patos nasceram
Comigo foi diferente

Meu pai nem olhou pra mim
Deixando-me reticente
Tentei aproximação
Me tornando obediente
Mesmo assim me rejeitou
Só porque sou diferente

Meus irmãos eram bonitos
Tinham fama condizente
Formavam com os amigos
Um bando muito contente
E eu vivia sozinho
Só porque sou diferente

Um pensamento me vinha
De forma intermitente
Me deixava inquieto
Anuviava a mente
Seria eu o culpado
Por ser feio e diferente?

No íntimo eu buscava
A resposta coerente
Tudo era nebuloso
Deve estar no inconsciente
Fica ainda mais difícil
Só porque sou diferente

Aí divaguei de mais
Parece que estou demente
No meu reino não existe
Nem ego, nem consciente
E muito menos divã
Pra tratar o diferente

Um dia criei coragem
Fugi dali simplesmente
Perguntava a mim mesmo
E à estrela cadente
Qual era a explicação
Por eu ser tão diferente

Depois de caminhar muito
De manhã ao sol nascente
Vi um bando lá num lago
Brincando alegremente
Me aproximei com receio
Pensando: sou diferente

Qual não foi minha surpresa
E não mais que de repente
Percebi que me olhavam
Com um jeito atraente
Até que enfim me encontrei
Aqui não sou diferente

*Psicóloga, cronista, cordelista.

O Patinho Manco

O PATINHO MANCO

*César Garcia

É sabido que o andar do pato é o mais deselegante dos andares de todos os animais. Digo é sabido, mas só vim tomar conhecimento disso muito depois do meu nascimento. Até então, coxo, pensava que só eu andava de modo ridículo. Meus irmãos aproveitavam-se do fato para me torturar e me excluir dos jogos e brinquedos. Meu pai era omisso e minha mãe tentou defender-me até certa idade e então desistiu. Disse-me que procurasse me divertir de outras formas, sem a companhia dos perversos. Não quis aceitar logo, mas acabei convencendo-me de que devia enfrentar o mundo unicamente com minhas forças, pois a maldade existia por todos os lados. O mundo era dos mais fortes, tudo bem, mas se eu não lutasse, esperando por atos solidários de alguém, eu sucumbiria na solidão das pequenas poças d’água. Tratei de prestar atenção aos costumes de outras espécies. Os cavalos carregavam os homens pra lá e pra cá; os cães latiam à toa, ou preocupados, quando alguma pessoa se aproximava; as ovelhas eram tosquiadas a cada verão. Tinham comida garantida, mas sua liberdade era vigiada de perto ou não tinham nenhuma. Eram úteis para os homens, mas não podiam sonhar com uma vida muito diferente. E eu? Poderia ter alguma aspiração? Andava mal, com uma pata mais curta do que a outra; pela mesma razão, nadava meio esquisito, sem muita velocidade; conseguia voar até bem, para um pato manco, e disso me aproveitei para ir além dos limites da lagoa em que morava. Talvez possa dizer que foi minha salvação. Conheci assim muitas lagoas, primeiro as mais próximas, depois outras mais distantes. Conheci patos iguais a mim que nem sempre eram hostis e me aceitavam em seus grupos. Perguntavam como eu conseguira chegar até ali e eu lhes dizia simplesmente: voando. Notei que alguns se surpreendiam porque eu não tinha aparência de grande atleta. Acontece que eles não tinham necessidade de voar muito, viviam bem na própria lagoa, ao contrário de mim, sozinho, sem amigos e com uma família que não ligava muito pra mim. Voar foi, portanto, um recurso decisivo na minha vida. Isto me permitiu desenvolver bem os músculos das asas e do peito. Numa dessas voanças, conheci uma galinha d’água que aprendera a falar a língua dos patos porque havia sido criada entre meus semelhantes. Tinha sotaque, mas justamente daí vinha seu charme. Começamos a nadar e a voar juntos em conversas que se tornaram interessantes porque não víamos as coisas da mesma forma. Por exemplo: eu não tinha medo da morte e ela não queria nem ouvir falar. Expliquei-lhe que depois da morte, não havia nada, não havia o que temer e ela respondeu: é justamente por isso que tenho medo, medo do nada. Ora, para mim, a frase não tinha sentido. Mesmo assim, não havia o que dizer, porque não era uma questão racional. Tive que aceitar seu medo do nada e ela conformou-se com meu jeito indiferente diante do que assombra todos os vivos. Ela gostava de voar sobre as copas das árvores e eu insistia para que ela ganhasse as alturas. Não queria. Cada diferença revelada era uma surpresa objeto de muita conversa. Um dia ela teve sensações estranhas e não quis voar. Escondeu-se entre os juncos deixando-se ficar quase imóvel. Seu jeito de olhar para mim de vez em quando despertou minha curiosidade e me atraiu para junto dela. Ninguém nos via, só o vento sussurrava nos juncos e eu não soube o que dizer, mas compreendi tudo quando ela levantou as penas de sua linda cauda. Algo estava errado, alguma convenção, talvez, mas nosso desejo foi mais forte: deitei-me sobre ela, prendi as penas de sua nuca com meu bico largo e juntei o que havia de mais íntimo em nossos corpos. O êxtase durou pouco e me desequilibrou. Ficamos ali, flutuando, nem sei quanto tempo, sem olhar um para o outro. Finalmente, perguntei: em que estás pensando, e ela, voltando-se para mim, disse: quero que ele nasça com minas longas pernas e com teu bico chato.

Casa Forte, 22 de fevereiro de 2016

  • César Garcia é escritor. Livros de contos publicados: PACTO, em 2005; CARTAS DE VENEZA, em 2008; e BREVE INSTANTE, em 2011.

Os Moedeiros Falsos: Um Romance de Ideias

download (1)*OS MOEDEIROS FALSOS: UM ROMANCE DE IDEIAS

**Cacilda Portela

O Tema

A história dos Moedeiros Falsos é narrada, quase sempre, através de conversas e monólogos interiores, o que evidencia uma ficção que não vive do enredo, mas da vida interior dos personagens. São as ideias que encaminham as ações e o movimento.

O romance não tem um tema predominante que se concretize na ação. Não há uma ideia global que sustente o planejamento e a ação. Os temas ou as histórias são relativamente simples, mas construídos por ideias particularmente elaboradas e muito engenhosas. As histórias dos personagens se interligam criando a história do romance. Ou melhor, as ideias criam os personagens e o romance.

O romance tem um tema profundo. A luta entre os fatos propostos pela realidade e a realidade ideal ou a luta entre o que o mundo real oferece e o que é feito com a ideia que se tem dele. A oposição entre o mundo real e a representação que é feita dele cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo e do outro. “E o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.

A crítica religiosa perpassa todo o romance. Deus e a figura do demônio estão muito presentes, principalmente nos personagens Vincent e La Perouse.

O falso

O romance se ocupa com a própria essência do ser. O trágico moral. Vincent, Armand, Passavant, Strovilhou e Ghéridamisol comprometem a própria essência do ser. Não terão salvação. Enquanto Edouard, Bernard, Olivier, Laura, Pauline, Azais e La Pérouse pagam apenas o que todos pagam como seres sociais. Por uma auto traição necessária ou um self social.

O pastor Azais cria falsas razões para se persuadir de que não tem tempo para si e para a família. A sua fé o torna cego diante do mundo e falso diante de si mesmo. Na devoção perde o sentido da realidade e substitui a compreensão religiosa pela angústia. Faz uma dissociação entre a religião e as responsabilidades com a família.
Armand e Vincent representam papeis necessários para tornar suas vidas verdadeiras. Experimentam um sentimento de irrealidade e de uma vida sem sentido algum, o que produz uma grande desesperança. O vazio e a não individualidade aparecem também nas suas estruturas morais.
Armand se acredita sem salvação. Encontra-se na fronteira entre o ser e o não ser. Alcançou o ponto-limite, além do qual nada é. Perde sua essência quando aceita o convite para trabalhar como redator-chefe da revista que Passavant dirige. Vicent abandona a amante grávida, entrega seu irmão Olivier ao cúmplice Passavant e sucumbe ao delírio após matar a companheira Lilian na África, onde se fixa sem intenção de retornar à família. Proteção contra agonias impensáveis. E vitorias do demônio que trabalhou e conseguiu realizar seus feitos.

Para Passavant, Strouvilhou e Ghéridanisol o falso é um ato consciente para obter dinheiro e prestígio social. Falsos, cínicos e contrários à verdade, conseguem adulterar todos os elementos que tiram a possibilidade de compreensão de si mesmo e dos outros. A moral que suprime os fracos. Não será mais possível salvá-los.

A Conciliação

Georges, levado por Ghéridanisol, aceita participar de uma “brincadeira” mortal que tem como vítima o pequeno Boris. Fingiu uma súbita afeição por Boris para conseguir sua confiança e participação na trama. Boris sabia que estava perdido e se oferece para morrer tão grande era o seu desespero. Depois do crime a admiração de Georges por Ghéridanisol cedeu ao horror. Quando voltou à noite, para a casa dos pais, atirou-se nos braços de sua mãe, e Pauline agradeceu a Deus por lhe devolver seu filho.

Boris suspeitou que trapaceavam, mas calou-se. Sabia que estava perdido. Para se defender, não teria feito o menor gesto, e até mesmo, se a sorte houvesse designado um dos outros, teria se oferecido para substituí-lo, tão grande era seu desespero. Fazia da sua perdição seu prazer. Boris não poderia viver sem sonho ou ilusão. Se lhe fossem tirados sucumbiria.

Depois da morte de Boris La Pérouse deixou de ouvir o ruído que o atormentava tanto. E que não estava revelado para os seus ouvidos… O ruído como fonte de transmissão e recepção de uma mensagem. Mensagem de paz que La Pérouse só conseguiu escutar depois da morte de Boris. Harmonias… Uma busca pela conciliação. Boris ressurge da morte e Georges deve ser salvo.

*A  primeira parte desta resenha, relativa ao tema,  já havia sido publicada anteriormente neste blog.

** Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

Viageiros em Ação

Lembrar é relembrar

*Luzia Ferrão

Relembrar pra que? Lembro, lembro e lembro
Não queria, mas…. lembro
É um relógio que não para, acho que mesmo sem querer
dou cordas, digo que não quero, não gosto mas porque continuo?
Eu tenho a chave para desliga-lo e porque não o faço?
Era uma vez, ou seja, não era nenhuma vez,
Dançava, rodopiando a música, composta de acordes inexistentes
Explodia em centelhas de prazer, riso permanente na face,
não era sonho era a realidade do sonho
meu vira-lata querido sujava tudo, acordei e ele havia partido
o sonho do grande amigo ficou prenhe na realidade
Passei pelo lindo, assombroso, misterioso museu, sonhei e fui arrastada
Convivi com cores misturadas e puras
Não existia diferença tudo era sonho e realidade

 

* Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

 

Poesia, às Quartas-Feiras

Quarta-feira, dia 18 de novembro, Salete, viageira poeta sempre presente nesse blog, trouxe-nos o gaúcho Mário Quintana, tanto alguns poemas como dados biográficos. Quem melhor definiu esse grande mestre da literatura poética foi Manuel Bandeira:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares…
Perdão! digo quintanares.

Além de poeta, cronista, autor de literatura poética infantil Quintana foi um grande tradutor, trazendo para o português obras fundamentais da literatura como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, Contos e novelas, de Voltaire, vários romances de Honoré de Balzac, Somerset Maugham, Graham Greene, Guy Maupassant, Conrad, entre outros.

Apesar de seu grande valor literário, não conseguiu ser aceito na Academia Brasileira de Letras. Na sua terceira tentativa ele compôs o seguinte poema:

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
 
(Prosa e Verso, 1978)

Os poemas lidos na Oficina por Salete foram esses:
 

Os caminhos estão cheios de tentações

*Mário Quintana

Os caminhos estão cheios de tentações.
Os nossos pés arrastam-se na areia lúbrica…
Oh! tomemos os barcos das nuvens!
Enfunemos as velas dos ventos!
Os nossos lábios tensos incomodam-nos como estranhas mordaças.
Vamos! vamos lançar no espaço – alto, cada vez mais alto! – a rede das estrelas…
Mas vem da terra, sobe da terra, insistente, pesado,
Um cheiro quente de cabelos…
A Esfinge mia como uma gata.
E o seu grito agudo agita a insônia dos adolescentes pálidos,
O sono febril das virgens nos seus leitos.
De que nos serve agora o Cristo do Corcovado?!
Há um longo, um arquejante frêmito nas palmeiras, em torno…
A Noite negra, demoradamente,
Aperta o mundo entre os seus joelhos.

*Mario Quintana – Aprendiz de Feiticeiro, 1950

A Pálpebras Estão Descidas

Mario Quintana

As pálpebras estão descidas
E as mãos em cruz sobre o peito…
Mas quem é que pisa em vidros?
Quem estala os dedos no ar?
As pálpebras estão descidas.
Não mastigues folhas secas!
Não mastigues folhas secas,
Que te pode fazer mal…
– Quem é que canta no mar? ?
As mãos repousam no peito.
E eu quero ver se bem cedo
Pescam meu corpo em Xangai.

Encontrei no You Tube uma das últimas entrevistas de Mario Quintana que posto aqui neste blog.

Poesia, às Quartas-Feiras

Na quarta-feira, 11 de novembro, a nossa viageira Cacilda Portela nos trouxe algumas notas sobre a leitura que estamos fazendo de Os Moedeiros Falsos, de André Gide e um poema de Fernando Pessoa, Não me Importo com as Rimas.

O romance de André Gide tem nos empolgado nos últimos meses, trata-se de uma obra com mais de 400 páginas, instigante, engenhosa, de estrutura moderna, inovadora, onde a narrativa é em mise en abyme, termo francês usado, pela primeira vez, pelo próprio autor para descrever as narrativas que contêm outras narrativas dentro de si.O Mise en abyme não é um privilégio da Literatura, a técnica pode ser usada na pintura, no cinema, entre outras artes.

As notas escritas por Cacilda Portela sobre o tema de Os Moedeiros Falsos:

OS MOEDEIROS FALSOS: UM ROMANCE DE IDEIAS

*Cacilda Portela

  PARTE I – O TEMA

  •  A história de Os Moedeiros Falsos é narrada, quase sempre, através de conversas e monólogos interiores, o que evidencia uma ficção que não vive do enredo, mas da vida interior dos personagens. São as ideias que encaminham as ações e o movimento.
  • O romance não tem um tema predominante que se concretize na ação. Não há uma ideia global que sustente o planejamento e a ação. Os temas ou as histórias são relativamente simples, mas construídos por ideias particularmente elaboradas e muito engenhosas. As histórias dos personagens se interligam criando a história do romance. Ou melhor, as ideias criam os personagens e o romance.
  • Apesar de não ter um tema predominante, o romance traz com certo nível de profundidade a luta entre os fatos propostos pela realidade e a realidade ideal ou a  luta entre o que o mundo real oferece e o que é feito com a deia que se tem dele.  A rivalidade entre o mundo real e a representação que é feita dele cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo (e do outro). “E  o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.

 

Essas notas serão ampliadas por Cacilda Portela e por outros viageiros, eu inclusive, mas o material aqui exposto já permite a discussão na Oficina sobre o tema do romance.

No momento poético ela nos trouxe uma poesia do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Não me importo com as rimas, considerado o heterônimo das poesias de aparência simples, mas que envolve certa complexidade filosófica.

Não me importo com as rimas.

Alberto Caeiro

Não me importo com as rimas. Raras vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento…

 

 

 

* Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

 

Poesia, às Quartas-Feiras

Na última quarta-feira tivemos dois poetas: um da casa, da nossa Oficina, o que muito me orgulha, da nossa viageira Eleta Ladosky ; e Affonso Romano de Sant’anna, poeta, ensaísta consagrado.

Esta postagem se refere ao poema de Eleta Ladosky Como posso estar sozinha,  construído, segundo ela, em um momento recente, em que se sentiu em pânico com a possibilidade de ter que se hospitalizar, estando os filhos distantes, e tendo que deixar o marido sozinho com cuidadores. Diante do pânico que começava a se instalar, ela buscou refúgio dentro dela mesma e começou a construir os versos que ora aqui estão. A poesia salvou-a do hospital, com certeza, porque ela não precisou ir, recuperando-se completamente.

Os poemas de Affonso Romano serão postados depois por Salomé que os trouxe à Oficina e deles falará.

 

Como posso estar sozinha

Eleta Portela Ladosky

Como posso estar sozinha
Com tantas sombras à vagar
A tua voz criancinha
Teu jeito de caminhar

Como posso estar sozinha
Com tantos sons à gritar
Riso, pranto, melodia
Mesmo sonhos sem vingar

Como posso estar sozinha
Com tanta memória à guardar
Sol, mar, maresia
Tantas noites de luar

Tanta vida já vivida
Que teima em continuar
Presente, e sempre tão viva
Como posso estar sozinha

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