Poesia às Quartas-feiras

 

A MULHER QUE PASSA

Vinicius de Moares, Rio de Janeiro , 1938

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

O poema trazido por Mônica, nossa viageira arquiteta, amante das artes e da literatura, veio sem o nome do autor para que o descobríssemos. Não foi difícil porque à medida que ela ia lendo as imagens de A mulher que passa iam sendo associadas à Garota de Ipanema e, consequentemente, a Vinicius de Moraes, o seu coautor. A mulher que passa é de 1938, nos primórdios de sua carreira de poeta. Consta na sua biografia que em 1938 ele havia ganho uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Diria bem mais que a convivência com os poetas ingleses havia mudado o seu estilo tonando-o “mais conciso e mais enxuto” ao invés de caudaloso e grandiloquente de até então.

Sobre Vinícius disse Manuel Bandeira:

{Vinícius de Moraes tem} o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas), e, finalmente, o homem bem do seu tempo, a liberdade {…} dos modernos.

Anos mais tarde, em 1962, Vinicius de Moraes faz a letra e Tom Jobim a música de Garota de Ipanema que postamos a seguir.

Jaboatão dos Guararapes, 28 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues

Primavera e temperos

A nossa colega Salete sempre está nos trazendo seus escritos poéticos. Alguns que ela descobre quase por acaso nas andanças pelas suas memórias e gavetas; outros que surgem provocados pela sua aguçada sensibilidade aos sons, aos cheiros, às imagens. É um prazer, sempre, compartilhá-los.

Aqui estão:


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                               Quietude & tempero

                                                                        *Salete Oliveira

Quietude… Onde?
Na mão na caneta
No sexo no corte
No ego na culpa
Na mente no amor
Na emoção na tristeza
Na raiva na dor
No lavor na candura
No silêncio na noite
Na praça na casa
No uísque na pizza
Na lua crescente sol poente
No dia ao que agoniza
Na noite ao que nasce.
Às pimentas e às mostardas 
Uma pausa.
Que é, tudo?
Sal Azeite Pão
Comunhão
É o tu/do nada                     
Começar conhecer
Esse poço sem fundo
De pedras ou lama, 
trama qui é tu de (tem pe ro) .(final)?

 
 

Incomensurável instante

                                                             Salete Oliveira

20 de setembro,

amanhã 21, dia da árvore,
que pena…
só um dia no ano para ser dedicado às árvores
que nos dão tanto, flores, frutos, sombra, móveis, fogo,,  p
cores, casa, sementes, doces, cura,lições a cada estação,
calma e clareza…

dia 22, dia dos amantes…
quem inventou isso?
amantes querem
imensos dias inteiros para si,

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar os instantes
em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas, e
em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar
os instantes em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas, e
em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar
os instantes em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas,
e em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar os instantes em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas, em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

dia 23, chega a primavera
oficialmente marcada no calendário,
como só dia 23?
se dela já estamos inebriados e por ela possuídos?
árvores, amantes,
todos explodem em flores e exuberãncia,
intensidade de viver e existir,
um segundo, um instante, vale tanto,
um olhar,
um carinho,
o vento no rosto,
o cheiro de terra molhada, de sol
que queima a pele,
o cantar dos pássaros,
o colorido das flores,
e cheiros, e frutos minúsculos a se formar…
é primavera,
todos os dias,

novas flores, novos odores, novas cores, novos amores,
sem tempo marcado
disso ou daquilo,
apenas um suspiro a marcar
a mudança do incomensurável instante.

** Maria Salete Oliveira – engenheira química, poeta, cronista, ficcionista

Poesia às Quartas-Feiras

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O OVO DA GALINHA

João Cabral de Melo Neto

I

Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II

O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III

A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada. 

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV

Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela. 

Everaldo Júnior, nosso grande viageiro,  trouxe-nos  O Ovo da Galinha, de João Cabral de Melo Neto, na voz de Paulo Autran. Bons momentos estão sendo vivenciados com esse espaço para a poesia na Oficina!

O poema nos deixa a sensação de estranhamento que sempre acontece quando estamos muito familiarizados com algo e ele nos chega de forma diferente. O significado de ovo nos remete à figura ovalada branca ou vermelha que encontramos nas prateleiras dos supermercados, dentro das nossas geladeiras ou em nossos pratos. Mas o ovo trazido por João Cabral de Melo Neto é diferente. Ele derruba a nossa concepção inicial e nos quedamos a indagar que ovo de galinha é esse? Há que se empreender uma longa viagem para o saber, desvestidos de todos os conceitos anteriores, com o espírito alado para dar os vôos que o poema possibilita.  E isso não se faz com apenas uma leitura. Assim, o poema de João Cabral deve ser lido e relido para que possamos captar seus vários sentidos.

                          Jaboatão dos Guararapes, 25 de agosto de 2015

                                              Lourdes Rodrigues

 

 

 

Ciclo de vida

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Ciclo de vida

*Salete Oliveira

Toca-nos sua fragilidade,
Leveza e agilidade ainda mais nos surpreendem,
Vida em frêmitos de alegria,
Esquecida de dias de casulo,
Do arrastar-se de lagarta,
Do medo da metamorfose,
Solitária a criar corpo língua asas.
Transfiguração a lhe permitir,
Polinizar arbustos que florescem,
Dar vida a flores que frutificam,
Voar em revoadas,
Cumprir seu propósito de vida,
Colorir jardins, céus azuis,
Correr à frente das crianças,
Deslumbrar adultos,
Em transparências acetinadas,
Vôos nupciais,
Reproduzir em cerne de lagartas o potencial
De borboletas.

22.Maio.2015

* Maria Salete Oliveira – engenheira química, poeta, cronista, ficcionista

Sábado de Zé Pereira

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Sábado de Zé Pereira

* Maria Salete Oliveira

Porque hoje é sábado…

Sábado esperado,
aguardado ansiosamente não só pelos foliões… também pelas sapatilhas.

As pequenas nódoas e esfarrapados leves ganhaste no Lily,
Nem sabes que caminhos irás enfrentar mas teu destino será cumprido,
Foliar por aí, passear por aí, descobrir a quentura do asfalto, o sabor das águas limpas e sujas, restos de frutas, farrapos, lixo, esgotos, até mesmo cocô de cachorro.
Vais aprender como se dança um frevo, maracatu, caboclinhos, samba,
distinguir o frevo canção do de rua, das marchinhas,
com certeza jamais esquecerás Vassourinhas ou o Hino do Ceroulas,
o frêmito dos pés no calcar das danças,
a leveza de estar no ar ou no chão,
pés em pontas para ver o bloco passar, os shows.
Reconherás os inchaços, o cansaço,
experimentarás o gosto de cerveja, derramada nos encontros ao subir ladeiras, entre abraços e beijos,
Ah! Tens bom gosto… queres ir ver o show de Paulinho da Viola no Pátio de São Pedro?
Então terás que renunciar a Olinda no sábado de Zé Pereira.
Aguentarias ficar em casa hoje,
ouvindo à distância os sons do carnaval,
vendo o Galo na TV?
Os pés já disseram que sim, hoje vão sair.
E tu, que me dizes?
Sim, a vida é cheia de escolhas.
O que se experienciar?

* Maria Salete Oliveira, engenheira química, poeta, cronista, ficcionista.

Salete é uma viageira de pouco tempo na oficina, cerca de um (01) ano, mas uma maruja de primeira linha, destemida, sonhadora, apaixonada, movida pelo sentir tão indispensável a uma aventura como essa que nos propomos. Os seus escritos, os seus poemas, os monólogos tão intimistas estão sempre a nos tocar pela beleza, densidade, sensibilidade. Neste poema ela nos fala do carnaval com uma bela viagem pelo sentir das suas sapatilhas e nos comove com as palavras e a imagem que nos envia. Mesmo quando o carnaval ainda estava por chegar ela já escrevia, dirigindo-se ao folião indeciso:

Ao folião indeciso

Maria Salete Oliveira

Janeiro corre ligeiro,
Já está vindo fevereiro,
Vem quase pareado o danado,
calor pegando fogo,
Ao povo prometendo o frevar, pelas ladeiras de Olinda, ruas do Recife,
Com As Virgens, Eu Acho é Pouco, Ceroulas, Blocos Líricos, Eu quero é Mais!
E o Lili, e O Piano,
Que nem sei se saem mais?
Sei que tem O Nada que a cada ano enche mais e de vazio não tem nada,
O Pisando na Jaca onde a gente se encontra, rememora, comemora…

Costuram-se fantasias, pregam-se adereços,
Madrugada a dentro na preparação,
Já já é mais um começo, carnaval em meio de mês,
Quando nem se pensou já chegou,
Se brincar já passou,
Esse ano não tem mais,
Não perca dessa vez.

Pegue sua coragem, pendure sua preguiça, desarme a rede,
Guarde os livros bem guardados, pelo menos um só dia,
Vá ver O Homem da Meia Noite, A Mulher do Dia,
Suba as ladeiras, entre embaixo do dragão,
Ande no chão esquentado, esfrie no chão molhado de sujo, suor, cerveja,
Tome um banho de chuva ao levantar do sol,
Vá dormir embalado pelo sono da folia,
Reveja os amigos, dê prova que está vivo,
Diga até para o ano!
Eu Acho é Pouco, Eu quero é Mais!

Salete sempre me lembra a música de Gonzaguinha, O Que é, O que é? especialmente quando ele diz:

Eu fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz.

Jaboatão dos Guararapes, madrugada do domingo, após o sábado de  Zé Pereira.

                                          Lourdes Rodrigues

Alma gato

                                                         Alma gato

GATO                         Salete Oliveira

Um gato e seu mistério,
Como a alma humana, 
Indecifrável,
Nem a quem ela habita se revela por inteiro. 
Apreende as sensações do mundo em um código próprio,
Os sentimentos, tantas vezes, se revelam contraditórios,
O desenrolar-se dos acontecimentos extrapolam o tempo em que os queremos aprisionar.

Ah!
Almas são gatos,
Acontecimentos são vida…

A alma mesma se pergunta em qual das sete vidas compreenderá.

Gatos gostam de desenrolar novelos que se emaranham ao invés de ordenadamente serem tricotados,
A alma busca a ordem do novelo, embora se encante com o movimento solto de linhas,
com apertos dos nós, misturas de fios,
com vida que rola, se enrola, desenrola,
se estende e pulsa como arco,
como cordas em melodiosa harmonia,
em acústicos,
Ou em miados.

19maio14

 

Máscaras & velhos carnavais

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 *Maria Salete Oliveira

Uma foi guardiã à porta de casa, no sábado de Zé Pereira, anunciando o carnaval, 
Outra acordada muito cedo, 
tomou caldo no Pinto do Galo da Madrugada,
ouviu versos junto à estátua
de 
Ascenso Ferreira, sua companheira brincou de Colombina, juntou-se à endiabrada, enfrentaram dragões.

Uma se extasiou olhando o galo…

Outras choraram de emoção nas ladeiras de Olinda,
ao som da orquestra do Ceroulas, irreverência da Mangueira,
do fogo do Eu Acho é Pouco, 
em Recife fazendo reverências ao Batutas de São José e Blocos Líricos, maracatus e caboclinhos…

Uma viu o amor passar, se prender num olhar,
sobre a cabeça recolhida
assistiu ao primeiro beijo,
aspirou a doçura dos volteios de confetes e serpentinas, assistiu ao frevo rasgado do Vassourinhas,  ao amanhecer descansou no chão.

 *Maria Salete Oliveira –  engenheira química, poeta, ficcionista, cronista

Grandes Poemas

A Folha de São Paulo, em 2000, escolheu os 100 melhores poemas internacionais do século xx. Na medida do possível, tentaremos postar alguns desses poemas aqui no blog. A idéia surgiu quando recebi de nossa colega Vania Campelo um poema de Konstantinos  Kaváfis, À Espera dos Bárbaros, e encantada com a qualidade do poema fui pesquisar um pouco sobre o seu autor e descobri no blog Mar Ocidental que o poema foi escolhido em 8º lugar, entre os 100 melhores da Folha. Sobre Kostantinos Kaváfis, o mais importante poeta grego deste século, nasceu em Alexandria, no Egito, e morou na Inglaterra. Em A Espera dos Bárbaros”, poema ao mesmo tempo político e ontológico, aparece a duração de um espaço em que nada se faz porque os bárbaros atacarão.”Poemas”, trad. de José Paulo Paes, Nova Fronteira.

A lista traz grandes nomes. Em primeiro lugar, T.S. Eliot, com A Terra Desolada (The Wast Land),  e em segundo, Fernando Pessoa com Tabacaria . Os dois poetas tiveram outros poemas escolhidos.

 

images[1]À ESPERA DOS BÁRBAROS

Konstantinos Kaváfis

 

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

Que leis hão de fazer os senadores?

Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

O nosso imperador conta saudar

o chefe deles.Tem pronto para dar-lhe

um pergaminho no qual estão escritos

muitos nomes e títulos.

 

Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos

de ouro e prata finamente cravejados?

 

É que os bárbaros chegam hoje,

tais coisas os deslumbram.

 

Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?

 

É que os bárbaros chegam hoje

e aborrecem arengas, eloqüências.

 

Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?

 

Porque é já noite, os bárbaros não vêm

e gente recém-chegada das fronteiras

diz que não há mais bárbaros.

 

Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.

 

Além da Limeira

Além da Limeira

Edna Alcântara 27/02/2012

(Para Mãe Severina)

Oh! Tu que choras

Essa fria cruviana

Pela face a rolar

No relance desse raio

Ou na réstia da candeia

Deixa que eu me vá

Saltando sebes floridas

Molhando as vestes no limo

Nesses campos da Limeira

Pelo espaço seguirei

Em busca do lugar que

Em vida conquistei

Haverá sempre mesa posta

E convidados em volta

Feijão de corda na cuia

Angu pirão e farofa

O prato de carne seca

Depois café bem passado

A rede armada no alpendre

Para o cansaço embalar

A jarra de água do açude

Esfriando atrás de casa

Meninos correndo em volta

Mesmo que eu lá não esteja

Pois o sabor da rotina

Está na alma de quem faz

È trama que a vida traça

Deixa que eu parta então

Enxuga o pranto da face

Desfaz o luto e o queixume

Que um dia tudo volta

Basta que o vento sopre

Lá pras bandas do açude

E o céu se abra todinho

Para o carro do sol passar

Então estarei por aqui

Entre a brisa e o silêncio

Zelando com meus cuidados

Os filhos que vou deixar

Comentário de Odete Brás sobre o poema Além da Limeira

Querida amiga:

Como sou dos velhos tempos, ainda tive de ir ao dicionário saber o significado de ” cruviana ” ! Na minha terra sentem-se os efeitos, mas não me lembro de ouvir o termo. Mais essa para a minha valorização pessoal. Seu poema, que adorei – cheirinho do viver no Nordeste da há uns anos atrás – encantou-me e fez-me recordar, embora sem nada a vêr … o verso da Sophia de Mello Breyner : ” Quando eu morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar ! ” Sophia viveu junto ao mar português, Mãe Severina no Nordeste brasileiro. Difícil é fazer poesia onde o menos é mais, muito mais. Parece feita por arquitecto, a compasso e régua, mas sem perder o essencial, o sentimento. Nada de palavras supérfluas, adjectivos floreados. Aí está a essência apresentada de forma clean. O que é mais difícil … Parabéns.

 

Enquanto espero Théo

Enquanto espero Théo

Edna Alcântara

             (Para minha filha Luciana)

Úmida ainda é a noite

Mas já de longe se ouve

O trinar do rouxinol

 

Que breve rumor é esse

Um hiato no silêncio

Permeia o gesto da noite

 

Serão ninfas que sacodem

No ar os longos cabelos

Para que o vento os arrume

 

Talvez que uma fada peregrina

Com pinceis do encantado

Recolha o pó das estrelas

 

Quem sabe as crias do sol

Deixando a barra do céu

Para correr pelas campinas

 

Em meu vagar de insônia

Demora tempo a passar

Custosa a chegada d’ aurora

 

Sei da hora que me espera

Pelo sentido alvoroço

Das águas que em mim habitam

 

A tua nau a empinar

Velas abertas ao vento

Para ajustar a chegada

 

Théo como será o teu rosto

Que luz terá teu sorriso

A cor e o brilho do olhar

 

A testa a pele o cabelo

As curvas todas os pés

Que já aprendi a amar

 

Dentro de mim eu te sinto

Feito a abelha o seu mel

E dentro em breve estarás

 

Aportando em meus braços

O vão do ventre esvaído

Encheras o coração

 

Ah esse latejo das horas

O devaneio e o concreto

Enquanto espero por ti

 

Deixo o leito nesse instante

Caminho até a janela

Ente a brisa e a luz eu vejo

 

O dia que vem chegando

Tão devagar, tão quieto

Roupa de festa vestindo.

 

              Edna, aí vai uma pequena  análise deste poema, que procurei fundamentar na obra de Durand, que trabalha o imaginário, e na hermenêutica simbólica. Esta é a minha visão, mas, como sabemos, a palavra é opaca, não é totalmente transparente, por isso, as imagens desta poesia, com certeza, darão margem a várias interpretações. Também analisei apenas algumas imagens. Você está de parabéns, conseguiu transparecer toda a  ansiedade da mãe e, principalmente, a dor do parto visualizado no sangue do “ventre esvaído”. Lindo!

Tentaremos fazer uma pequena análise a partir da observação do campo semântico, rico em imagens.

O campo semântico, ou seja, o agrupamento das palavras  convergem para o ventre circular onde está o bebê

 “Úmida ainda é a noite”; no ventre que o acolhe, o líquido amniótico, que o alimenta  e o prepara para enfrentar a realidade do mundo.

 O herói está no limiar, na passagem para a apoteose. A trajetória do herói, conforme diz Campbell, é a trajetória do homem em busca de um sentido para a sua vida.

“Serão ninfas que sacodem

No ar os longos cabelos” .

 Os cabelos longos por suas ondulações, segundo Durand, réplica da água corrente que implica a feminização da água. Essas imagens desembocam no parto; no momento da dor do parto, há ainda a relação com a lua, que implica tempo, o tempo de gestação.

 “Quem sabe as crias do sol”  Aqui, Théo é comparado ao sol que traz a luz, a noção de potência. As matérias luminosas. A pureza celeste; o dourado e o azulado; o sol nascente.

“Em meu vagar de insônia

Demora tempo a passar

Custosa a chegada d’ aurora

Sei da hora que me espera

Pelo sentido alvoroço

Das águas que em mim habitam”

O fervilhamento da angústia da espera. A agitação do preparo para a chegada do herói, e a ansiedade de vê-lo, perfeito.

“A tua nau a empinar

Velas abertas ao vento

Para ajustar a chegada”

Aqui há a convergência dos dois turnos: o diurno e o noturno, segundo Durand. A  descida ao ventre circular; o herói sai do ventre circular: é a verticalidade, a subida para a vida. O herói venceu. Rompeu a passagem rumo à vida.

 *Espero ter compreendido um pouco do seu pensamento, poetisa. Grande abraço,

Virgínia Macêdo

Teóloga e professora de português na U.V.A

 (Jampa, 29/10/2011)